Pax vobis: Maria e a paz que o mundo não pode dar

Pax vobis Maria — Maria no Cenáculo recebe a paz pascal do Ressuscitado (Lc 24,36)

Pax vobis: Maria e a paz pascal de Cristo ressuscitado

Pax vobis, Maria

Lc 24,36, Evangelho da Quinta-feira da Oitava da Páscoa

Meditação mariológica a partir das leituras da Quinta-feira da Oitava da Páscoa (Lc 24,35-48)

Pax vobis, Maria, Maria no Cenáculo recebe a paz pascal do Ressuscitado (Lc 24,36)

«Enquanto eles falavam destas coisas, Jesus apareceu no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”» (Lc 24,36). A saudação pascal por excelência. Dois dias antes, os discípulos tinham fugido e trancado as portas. Agora o Ressuscitado entra sem que as portas sejam abertas, e a primeira palavra que pronuncia não é um reproche mas uma dádiva: Pax vobis, Maria. A paz como dom da Páscoa. E Maria, que estava no Cenáculo, recebe-a em silêncio, porque era a única que já a possuía.

A mariologia pascal reconhece aqui um paradoxo fecundo: a paz que o Ressuscitado distribui aos discípulos assustados é a paz que a Mãe nunca perdeu. «Não te perturbes nem te atemorizes» (Lc 1,30): Gabriel dissera-lho no dia do fiat: «Não temas, Maria». A paz pascal não é novidade para quem desde o início foi chamada à serenidade da fé. A Pax vobis, Maria do Ressuscitado é o cumprimento daquilo que o Ave Maria anunciou.

I. Pax vobis, Maria: a paz como nome de Maria

A saudação Ave, gratia plena (Lc 1,28) contém, na sua camada semântica mais profunda, a exortação à paz. O imperativo chaire (literalmente alegra-te) dirigido a Maria implica a paz messiânica prometida pelo profeta Sofonias: «Alegra-te, filha de Sião. Exulta, Israel! […] O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como guerreiro vitorioso» (Sf 3,14-17). Maria é a Filha de Sião em pessoa, destinatária da paz que o Messias trará.

Maria é a Regina Pacis não apenas no sentido devocional mas no sentido teológico-salvífico: Maria é a região (o espaço humano) em que a paz de Deus pousou definitivamente na história. O Filho de Deus tomou carne dela para trazer a paz, os discípulos do Ressuscitado recebem a paz a partir do mesmo mistério.

A Pax vobis de Lc 24,36 é, assim, o eco pascal do Ave de Lc 1,28. O que foi dado a Maria na Anunciação é dado aos discípulos na Aparição. E Maria está no Cenáculo como testemunha desta continuidade.

II. «Vede as minhas mãos e os meus pés»

O Ressuscitado mostra as feridas: «Vede as minhas mãos e os meus pés. Sou Eu mesmo» (Lc 24,39). Esta exibição das chagas não é macabra, é a identidade do Ressuscitado: o mesmo que foi crucificado. A glória não apagou as marcas do amor.

Na tradição mariana, há aqui um nexo com a profecia de Simeão: «Uma espada traspassará a tua alma» (Lc 2,35). As chagas que o Ressuscitado mostra são as chagas que Maria contemplou na Cruz. A Mãe conhece estas mãos e estes pés melhor do que qualquer discípulo, tocou-os quando era criança, lavou-os, despediu-se deles na Via Dolorosa. A Pax vobis, Maria é também a paz entre a Mãe que sofreu e o Filho que ressuscitou: as chagas glorificadas são o sinal de que o sofrimento foi redimido, não apagado.

A Ressurreição não apaga a Cruz mas a transfigura. Maria, que esteve ao pé da Cruz (Jo 19,25), é a primeira testemunha desta transfiguração. Quando o Ressuscitado diz Pax vobis e mostra as chagas, Maria reconhece neste gesto o cumprimento daquilo que contemplou no Calvário.

III. «Tocai-me e vede»

«Um espírito não tem carne e ossos como vedes que Eu tenho» (Lc 24,39). O Ressuscitado é tangível, possui um corpo, come peixe assado, deixa-se tocar. A Ressurreição não é uma metáfora espiritual, é a transformação glorificada do corpo humano de Jesus. E esse corpo, a mariologia insiste nisto, veio de Maria.

Por isso recordamos sistematicamente nos nossos cursos a fórmula do Credo: «et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine». O corpo que ressuscitou é o corpo que Maria concebeu, gestou, amamentou. A carne que os discípulos tocam no Cenáculo é a carne que Maria entregou à história. Ratzinger, no seu artigo «Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine» (in Theotokos, 3, 1995), afirma que a virgindade de Maria «testemunha que o Salvador é o dom do Alto», e este testemunho prolonga-se na Ressurreição: o corpo glorificado não vem do capricho de Deus mas da carne humana de uma mulher.

A paz de Pax vobis é uma paz encarnada. Maria, que gerou a carne do Verbo, é a garantia da materialidade da salvação.

IV. «Ide e anunciai»

«Assim está escrito: o Cristo havia de sofrer e ressuscitar […] e em seu nome seria pregado a todas as nações o arrependimento e o perdão dos pecados» (Lc 24,46-47). O Ressuscitado entrega aos Onze a missão de pregar. Maria estava no Cenáculo. E é desta assembleia orante «em oração unânime com Maria, mãe de Jesus» (At 1,14) que nascerá o kerigma de Pentecostes.

Qual é a relação entre “Pax vobis” e a saudação do Anjo a Maria?

A saudação “Pax vobis” (A paz esteja convosco) do Ressuscitado em Lc 24,36 ecoa a saudação angélica “Ave, gratia plena” da Anunciação (Lc 1,28). No original grego e hebraico, “Ave” (Chairē) e “Shalom” (paz) pertencem ao mesmo campo semântico de plenitude e salvação. Maria é, assim, a primeira a receber a paz messiânica que Cristo ressuscitado oferece à Igreja: a Anunciação é o início e a Páscoa é o cumprimento da mesma saudação divina.

Por que Maria é chamada “Regina Pacis” na tradição da Igreja?

O título “Regina Pacis” (Rainha da Paz) surge na tradição litúrgica como expressão da íntima associação de Maria ao mistério da paz que Cristo veio instaurar. Não se trata apenas de um título devocional: Maria é Rainha da Paz porque gerou o Príncipe da Paz (Is 9,5), porque no seu “fiat” aceitou o plano salvífico que culmina na Páscoa, e porque a sua presença maternal na Igreja continua a guiar os fiéis para a paz que o mundo não pode dar (Jo 14,27).

O que significa a paz pascal de Cristo para a espiritualidade mariana hoje?

A paz pascal, “não como o mundo a dá” (Jo 14,27), é uma paz nascida da Cruz transfigurada pela Ressurreição. Para a espiritualidade mariana, significa que Maria, ao contemplar as chagas gloriosas do Ressuscitado, ensina a Igreja a encontrar paz não na ausência do sofrimento, mas na sua transfiguração. Como testemunha privilegiada da Ressurreição, Maria é modelo de como receber e transmitir a paz de Cristo: com fé, contemplação e anúncio missionário.

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A Redemptoris Mater (João Paulo II, 1987, n. 26) descreve o Cenáculo como o lugar onde «a comunidade apostólica perseverava em oração com Maria»: a missão evangelizadora não nasce sem Maria. O Pax vobis, Maria é o espírito que animará os Apóstolos em Pentecostes. Para uma leitura complementar, veja também O encontro do Ressuscitado com a Mãe.

Convidamo-vos a acolher este dia da Oitava da Páscoa com a paz que nem a perseguição nem a dúvida conseguem apagar: a paz de Maria, que permaneceu quando tudo parecia ter terminado, e que ressurge no Pax vobis, Maria do seu Filho. Veja também: O coração em chamas: Maria e o reconhecimento do Ressuscitado.

Prof. Daniel Afonso

Presidente da Locus Mariologicus

Roma, 9 de Abril de 2026

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