Sub tuum praesidium: a mais antiga oração a Maria, texto grego e latino

Sub tuum praesidium: a mais antiga oração a Maria

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Ὑπὸ τὴν σὴν εὐσπλαγχνίαν καταφεύγομεν, Θεοτόκε.
«Sob a tua misericórdia nos refugiamos, Mãe de Deus» (tropário bizantino)

O Sub tuum praesidium é considerado a mais antiga oração dirigida a Maria que conhecemos. É uma súplica breve, rezada no plural, em que a comunidade se refugia sob a proteção da Mãe de Deus. Seu texto grego foi encontrado num papiro egípcio, e a oração passou para quase todas as liturgias do Oriente e do Ocidente. A data do papiro, porém, é discutida.

O papiro Rylands 470

O papiro, de dez linhas, com cerca de 18 por 9,4 centímetros e rasgado do lado direito, foi adquirido em 1917 pela John Rylands Library de Manchester (GIAMBERARDINI, 1969, p. 327). C. H. Roberts o publicou em 1938, no terceiro volume do catálogo da biblioteca, com o número 470, sem reconhecer nele a oração. Foi o beneditino F. Mercenier quem, em 1939, o identificou com o Sub tuum praesidium (GIAMBERARDINI, 1969, p. 327-328). Gabriele Giamberardini, num estudo publicado no Marianum em 1969, refez a leitura do texto, apoiando-se no texto litúrgico bizantino:

> [ὑ]πὸ [τὴν σὴν] εὐσπλα[γχνίαν] καταφε[ύγομεν,] Θεοτόκε· τά[ς ἡμῶν] ἱκεσίας μὴ παρείδῃς ἐμ περιστάσει, ἀλλ’ ἐκ κινδύνου ῥῦσαι ἡμᾶς· μόνη ἁ[γνή, μόν]η εὐλογ[ημένη]

«Sob a tua misericórdia nos refugiamos, Mãe de Deus. Não desprezes as nossas súplicas na necessidade, mas livra-nos do perigo, só tu casta, só tu bendita» (GIAMBERARDINI, 1969, p. 330). O que está entre colchetes é reconstrução. O que se lê no papiro com segurança inclui, na quarta linha, a palavra ΘΕΟΤΟΚΕ, «Mãe de Deus».

A palavra que abre a oração, εὐσπλαγχνία, quer dizer «compaixão», «misericórdia», e vem de σπλάγχνα, as entranhas, o seio materno. Roberto Iacoangeli não exclui que a palavra queira exprimir uma misericórdia de mãe, e nota que é o título que vem logo a seguir, Θεοτόκος, a que gerou Deus, que leva a ouvi-la assim (IACOANGELI, 1989, p. 214). O Marienlexikon destaca o uso de εὐσπλαγχνία, que em outros textos se diz só de Deus, e a invocação direta de Maria (MARIENLEXIKON, 1994, p. 327).

A questão da data

O texto foi muitas vezes apresentado como do século III, por exemplo no Nuovo dizionario di mariologia, que considera esse o juízo dos especialistas (CALABUIG, 1986, p. 778-779). Mas a data é discutida desde a primeira edição. O papirólogo E. Lobel, colaborador de Roberts na edição, não aceitava, pela forma das letras, datá-lo depois do século III. O próprio Roberts preferia a última parte do século IV, porque lhe parecia quase incrível que no século III se dirigisse uma oração diretamente à Virgem com estes termos (GIAMBERARDINI, 1969, p. 348-349). Giamberardini defendeu o século III, argumentando que o título Theotokos era já tradicional e popular no Egito (GIAMBERARDINI, 1969, p. 349, 362). Hans Förster, em 1995, propôs uma data muito mais tardia, nos séculos VI ou VII, por razões paleográficas, e foi seguido por alguns estudiosos, entre eles Theodore de Bruyn, que conclui que o papiro probably belongs to the sixth or seventh century, or even later, «provavelmente pertence ao século VI ou VII, ou mesmo mais tarde» (DE BRUYN, 2015, p. 116). Stephen Shoemaker, em 2016, recusou os argumentos de Förster e manteve como provável o fim do século III (SHOEMAKER, 2016, p. 69, 246). O Marienlexikon resume com prudência: a oração vem aus dem 3. oder 4. Jh., «do século III ou IV» (MARIENLEXIKON, 1994, p. 327).

Seja qual for a data do papiro, a oração é certamente anterior às grandes coleções litúrgicas que a conservaram, e o título Theotokos já era usado no Egito do início do século IV. O primeiro uso indiscutido, segundo René Laurentin, está numa carta de Alexandre de Alexandria a Alexandre de Constantinopla, que ele data de 325 (LAURENTIN, [s.d.], p. 277).

Do grego ao latim

O texto grego litúrgico bizantino é o mais próximo do papiro: Ὑπὸ τὴν σὴν εὐσπλαγχνίαν καταφεύγομεν, Θεοτόκε. Τὰς ἡμῶν ἱκεσίας μὴ παρίδῃς ἐν περιστάσει, ἀλλ’ ἐκ κινδύνων λύτρωσαι ἡμᾶς, μόνη ἁγνή, μόνη εὐλογημένη, «Sob a tua misericórdia nos refugiamos, Mãe de Deus. Não desprezes as nossas súplicas na necessidade, mas livra-nos dos perigos, só tu casta, só tu bendita» (GIAMBERARDINI, 1969, p. 337). A versão ambrosiana conservou a palavra «misericórdia»: Sub tuam misericordiam confugimus, Dei Genitrix (GIAMBERARDINI, 1969, p. 336). Alguns manuscritos latinos dos séculos X e XI chegaram a traduzir à letra o grego com Sub tuis visceribus confugimus, «nas tuas entranhas nos refugiamos» (GIAMBERARDINI, 1969, p. 334-335).

A forma romana, que a Igreja latina reza hoje nas Completas, trocou «misericórdia» por praesidium, «proteção», e acrescentou vários elementos: Sub tuum praesidium confugimus, sancta Dei Genitrix, nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus, sed a periculis cunctis libera nos semper, Virgo gloriosa et benedicta, «À vossa proteção recorremos, santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita» (TRIACCA, 1989, p. 191). Dom B. Capelle, abade beneditino do Mont César, observa que cunctis, «todos», falta no texto romano mais antigo, o responsorial de Compiègne (fim do século IX), e que semper, «sempre», é uma glosa latina ausente do grego. Por isso, quem cita o Sub tuum praesidium como testemunho antigo da mediação universal de Maria não deve apoiar-se nestas duas palavras (CAPELLE, 1949, p. 239).

A oração na liturgia e no Magistério

A oração entrou em quase todos os ritos. A liturgia bizantina a reza nas Vésperas da Quaresma, a ambrosiana como antífona depois do Evangelho nas missas da Virgem (MARIENLEXIKON, 1994, p. 327). O texto copto, que em 1969 só os coptas católicos conheciam, não se encontra antes da edição de Raphael Tukhi (Roma, 1750), falta nos manuscritos coptas antigos e não prova uso contínuo no Egito desde a Antiguidade (GIAMBERARDINI, 1969, p. 341-345). Na liturgia romana, desde a reforma pós-conciliar, é uma das antífonas marianas que podem concluir as Completas (TRIACCA, 1989, p. 191).

O Concílio Vaticano II ecoa a oração ao falar do culto a Maria: ab antiquissimis temporibus Beata Virgo sub titulo «Deiparae» colitur, sub cuius praesidium fideles in cunctis periculis et necessitatibus suis deprecantes confugiunt, «desde os tempos mais antigos, a Bem-aventurada Virgem é venerada sob o título de “Mãe de Deus”, a cuja proteção os fiéis recorrem suplicantes em todos os seus perigos e necessidades» (CONCÍLIO VATICANO II, 1965, p. 65, LG 66). O Sub tuum praesidium é o mais antigo texto conhecido de uma súplica dirigida diretamente à Mãe de Deus, mas a sua antiguidade depende da data do papiro, que continua em discussão.

Referências

CAPELLE, B. La liturgie mariale en Occident. In: DU MANOIR, Hubert (dir.). Maria: études sur la Sainte Vierge. t. 1. Paris: Beauchesne, [1949]. p. 215-245.

CALABUIG, Ignazio M. Liturgia. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 778-779.

CONCÍLIO VATICANO II. Constitutio dogmatica Lumen gentium, n. 66. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 57, p. 65, 1965.

DE BRUYN, Theodore. Appeals to the intercessions of Mary in Greek liturgical and paraliturgical texts from Egypt. In: PELTOMAA, Leena Mari, KÜLZER, Andreas e ALLEN, Pauline (ed.). Presbeia Theotokou: the intercessory role of Mary across times and places in Byzantium (4th-9th century). Wien: Österreichische Akademie der Wissenschaften, 2015. p. 115-129.

GIAMBERARDINI, Gabriele. Il «Sub tuum praesidium» e il titolo «Theotokos» nella tradizione egiziana. Marianum, Roma, v. 31, p. 324-362, 1969.

IACOANGELI, Roberto. «Sub tuum praesidium». La più antica preghiera mariana: filologia e fede. In: FELICI, Sergio (ed.). La mariologia nella catechesi dei Padri (età prenicena). Roma: LAS, 1989. p. 207-240.

LAURENTIN, René. Breve trattato su la Vergine Maria. [S.l.: s.n., s.d.]. p. 277.

MARIENLEXIKON. Sub tuum praesidium. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. v. 6. St. Ottilien: EOS, [1994]. p. 327-328.

SHOEMAKER, Stephen J. Mary in early Christian faith and devotion. New Haven: Yale University Press, 2016. p. 68-72, 246-247.

TRIACCA, Achille M. «Sub tuum praesidium»: nella «lex orandi» un’anticipata presenza della «lex credendi». La «teotocologia» precede la «mariologia»? In: FELICI, Sergio (ed.). La mariologia nella catechesi dei Padri (età prenicena). Roma: LAS, 1989. p. 183-205.

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