A Virgem Maria na Anunciação do Senhor

«Ecce concipies in utero et paries filium et vocabis nomen eius Iesum». «Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus». (Lc 1,31)
I. O sinal que Deus mesmo escolhe
O oráculo de Isaías ao rei Acaz, proclamado no sétimo capítulo do livro do profeta, situa-se num momento de aguda crise política: o reino de Judá está ameaçado por uma coligação inimiga, e o rei hesita entre a fé e o cálculo diplomático. É neste contexto de fragilidade humana que Deus toma a iniciativa e oferece um sinal: «Pede ao Senhor, teu Deus, um sinal, seja nas profundezas do abismo, seja nas alturas do céu» (Is 7,11). A recusa de Acaz em pedir o sinal não é humildade religiosa, mas subterfúgio político: o rei não quer depender de Deus porque quer depender de Assíria. A resposta divina ultrapassa então a contingência da situação imediata e anuncia um sinal que transcende toda a história: «O Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho, a quem porá o nome de Emmanuel» (Is 7,14).
A exegese cristã, desde os seus primórdios, reconheceu neste versículo a antecipação profética do nascimento virginal de Jesus. O nome Emmanuel, «Deus connosco», não é um simples apelativo pessoal: é uma definição teológica da missão que o nascituro trará ao mundo. Deus não se limitará a enviar um mensageiro ou a inspirar um profeta: ele mesmo virá, ele mesmo habitará no meio do seu povo, ele mesmo será o sinal vivo da sua presença salvífica. Maria é a jovem do oráculo de Isaías: a que recebe a palavra, a que a acolhe no seu seio, a que dá ao mundo o fruto que a história esperava desde Abraão. Nela a profecia passa a ser história. Nela o anúncio se torna presença.
II. Da profecia ao encontro: o limiar da Anunciação
Entre o oráculo de Isaías e o relato lucano da Anunciação medeiam sete séculos de história. Sete séculos durante os quais Israel aprendeu a ler as suas crises à luz da palavra profética, a guardar a esperança quando tudo convidava ao desespero, a acreditar que o Emanuel prometido chegaria no momento mais improvável. A continuidade entre os dois textos não é apenas temática: é a continuidade de uma única acção divina que se vai precisando ao longo dos séculos, que vai afunilando o seu anúncio até identificar a mulher concreta, a cidade concreta, o momento concreto em que a promessa se tornará realidade. Nazaré da Galileia, uma virgem chamada Maria, um anjo enviado por Deus: a precisão histórica do relato lucano é a resposta à indeterminação profética do texto de Isaías. A promessa encontrou finalmente o seu endereço.
A Anunciação é o momento em que a iniciativa divina e a liberdade humana se encontram na sua forma mais pura. Deus não age sem a aquiescência humana: aguarda a resposta de Maria antes de o Verbo tomar carne. Esta espera divina revela a dignidade infinita que Deus atribui à liberdade que ele mesmo criou. Maria não é um instrumento passivo, não é um simples canal biológico: é uma pessoa dotada de inteligência e vontade, cuja adesão livre é constitutiva do mistério da Encarnação. A fé de Maria é, portanto, um elemento essencial do plano da salvação, não uma circunstância acidental.
III. «Eis a serva do senhor»
O relato da Anunciação no primeiro capítulo de Lucas é uma das páginas mais densas e mais belas de toda a Escritura. O anjo Gabriel aparece a Maria com uma saudação que concentra em si mesma toda a teologia mariana do Novo Testamento: «Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo» (Lc 1,28). A expressão «cheia de graça» traduz o grego kecharitomene, um particípio perfeito passivo que indica um estado duradouro e permanente, o resultado de uma acção divina que precedeu este momento e o configurou. Maria não recebe a graça neste instante: ela já a possui na sua plenitude, ela é definida por ela, ela é aquilo que a graça divina fez dela ao longo de toda a sua existência.
A turbanação de Maria diante da saudação do anjo não é medo do sobrenatural: é a reverência de quem percebe que algo de absolutamente novo está a acontecer. Depois do anúncio da concepção virginal do filho que «será chamado Filho do Altíssimo» (Lc 1,32), Maria formula a sua única pergunta, não de incredulidade mas de desejo de compreender: «Como será isso, se eu não conheço varão»? (Lc 1,34). A resposta do anjo revela o agente da geração virginal: «O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo cobrir-te-á com a sua sombra» (Lc 1,35). A linguagem é a da Shekinah veterotestamentária, da nuvem que cobria o tabernáculo com a presença divina. Maria será o novo tabernáculo, a nova arca, o novo templo onde a glória de Deus habitará. E a resposta de Maria fecha o arco da história: «Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Este fiat é o ponto de viragem da história da salvação: a palavra humana que responde à Palavra divina, a liberdade que se entrega para que o Verbo possa tomar carne.
IV. Maria, ícone da fé que recebe a palavra
A segunda Missa da Coletânea de Nossa Senhora, consagrada à Anunciação do Senhor, apresenta Maria como o modelo perfeito da relação humana com a Palavra de Deus. A estrutura da Anunciação é a estrutura de toda a fé autêntica: Deus toma a iniciativa, o homem é interpelado, a liberdade humana responde com uma adesão que não anula a inteligência mas a transcende. Maria não assente por ignorância ou por coerção: assente porque compreende, na medida em que a criatura pode compreender, o alcance do que lhe é pedido, e decide com toda a liberdade oferecer-se como instrumento da vontade divina.
A mariologia bíblica que emerge desta Missa é uma mariologia da fé. Não é primariamente uma mariologia dos privilégios, embora eles estejam presentes na saudação angélica. É uma mariologia da resposta livre, da adesão generosa, do fiat que reverbera através dos séculos como o mais perfeito acto de fé de toda a história humana. Isabel confirmará esta leitura quando, ao encontrar-se com Maria, exclamará: Bem-aventurada aquela que acreditou (Lc 1,45). A bem-aventurança de Maria não é primariamente a da maternidade biológica, mas a da fé que acolhe a Palavra e a deixa frutificar. Nesta Missa, a Igreja contempla em Maria o rosto mais luminoso da fé que recebe o dom de Deus sem resistência e sem reserva, oferecendo ao Verbo o único espaço que ele desejava: um coração que dissesse sim.
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