Mater filiorum zebedaei: a mãe de Tiago e João e Maria mãe do servo

Mater filiorum zebedaei: a mãe de Tiago e João e Maria mãe do servo
Dixit illi: Dic ut sedeant hi duo filii mei unus ad dexteram tuam et unus ad sinistram in regno tuo. Respondens autem Iesus dixit: Nescitis quid petatis.
Mt 20,21-22

A Festa de São Tiago Apóstolo (25 de Julho) tem como evangelho a pericope de Mt 20,20-28: a mãe dos filhos de Zebedeu, Tiago e João, vai a Jesus pedir que os seus filhos se sentem à direita e à esquerda no seu Reino. A cena é um dos momentos mais humanamente compreensíveis dos Evangelhos: uma mãe que quer o melhor para os filhos, que aproveita um momento de acesso privilegiado para pedir as posições de honra. Mas é também uma das cenas mais reveladoras da incompreensão do que é o Reino de Deus: pedir posições de glória para os filhos revela que a mãe, e os filhos que a enviam, ainda não compreendeu a lógica de inversão que Jesus proclamou («os últimos serão os primeiros», Mt 20,16).

A resposta de Jesus, «não sabeis o que pedis» (Mt 20,22), é gentil mas decisiva: a pergunta está mal colocada porque assenta numa imagem errada do Reino. O «cálice» que Jesus vai beber e o «baptismo» com que vai ser baptizado (Mt 20,22-23) são a Paixão, não a glória que a mãe imagina. Tiago e João poderão partilhar o «cálice» de Jesus (e de facto o compartilharão: Tiago foi martirizado, João foi exilado), mas a posição «à direita e à esquerda» não é para ser concedida por Jesus mas pelo Pai.

I. «Manda que estes meus filhos se sentem»: o pedido de glória

«Então a mãe dos filhos de Zebedeu se aproximou de Jesus com os seus filhos, e prostrou-se para pedir-lhe uma graça» (Mt 20,20), a prostração é o gesto da adoração e da súplica: a mãe usa a linguagem da veneração religiosa para fazer um pedido de natureza ambiciosa. A tensão entre o gesto (prostração adorante) e o conteúdo do pedido (posições de glória) revela a confusão entre o culto genuíno e a instrumentalização do sagrado para fins de promoção familiar.

«Manda que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e um à tua esquerda no teu Reino» (Mt 20,21), a mãe pede o que qualquer mãe ambiciosa poderia pedir para os filhos: as posições mais honrosas, o acesso ao poder, a proximidade com o «Rei». O pedido é compreensível humanamente, e é precisamente essa compreensibilidade que o torna pedagogicamente útil: Jesus não rejeita a mãe mas educa a sua compreensão do que é o Reino.

O episódio da mãe de Tiago e João contrasta implicitamente com Maria de Nazaré: onde a mãe dos filhos de Zebedeu «pede» para os seus filhos as posições de glória, Maria não pediu nada para o Filho. Pelo contrário, em Caná, «Fazei o que ele vos disser» (Jo 2,5) não é um pedido de promoção mas uma deferência à missão do Filho. Maria não usou a proximidade materna para pedir glória, usou-a para servir a missão de Jesus.

II. «Não sabeis o que pedis»: o cálice e o baptismo

«Podeis beber o cálice que Eu vou beber»? (Mt 20,22), a resposta de Jesus reorienta radicalmente o pedido: as posições «à direita e à esquerda» no Reino de Deus não são posições de honra no sentido humano, são as posições que foram ocupadas pelos dois ladrões no Calvário (cf. Mt 27,38). A ironia trágica de Mateus é que a mãe pediu as posições «à direita e à esquerda» e o que está «à direita e à esquerda» de Jesus no momento culminante é precisamente a humilhação extrema.

«Sereis baptizados com o baptismo com que Eu serei baptizado», a antecipação do martírio de Tiago (At 12,2: decapitado por Herodes Agripa I) e do sofrimento de João (exilado em Patmos) mostra que a resposta dos irmãos («podemos», Mt 20,22) foi, sem eles o saberem, uma profecia do que realmente aconteceria. Eles partilharam o «cálice» não na glória que imaginavam mas no sofrimento que não antecipavam.

Maria «bebeu o cálice» antes dos filhos de Zebedeu: o «cálice» da espada de Simeão (Lc 2,35) que atravessou a sua alma no Calvário é o «cálice» partilhado que a une ao sofrimento do Filho. Mas Maria não pediu este «cálice», aceitou-o. A diferença entre a mãe dos filhos de Zebedeu (que pede glória e não compreende que a glória passa pelo cálice) e Maria (que não pede glória mas aceita o cálice) é a diferença entre dois modos de maternidade: a maternidade ambiciosa e a maternidade oblativa que se entrega à missão do Filho mesmo quando essa missão custa.

III. «O grande entre vós será o vosso servidor»: a inversão do reino

«Não é assim entre vós: pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, seja o vosso servidor. E quem quiser ser o primeiro entre vós, seja o vosso servo» (Mt 20,26-27), a inversão do Reino que Jesus enuncia não é apenas ética (humildade é melhor que orgulho) mas ontológica: no Reino de Deus, a grandeza é definida pelo serviço, não pelo poder. O «grande» no Reino não é quem tem mais poder mas quem serve mais, e o modelo supremo deste serviço é o próprio Jesus: «o Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos» (Mt 20,28).

A «inversão do Reino» de Mt 20,26-28 é o corolário da parábola de Mt 18,1-4 («quem se humilhar como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus») e antecipa o discurso escatológico sobre «o que fizestes ao menor dos meus irmãos» (Mt 25,31-46). A grandeza no Reino de Deus é medida pelo serviço, especialmente o serviço aos «menores».

Maria é o modelo desta grandeza-no-serviço: «Ei-la a serva do Senhor» (Lc 1,38), o título que Maria escolheu para si mesma é o título da grandeza no Reino de Deus. Não «rainha do céu» (título que lhe será dado pela Igreja), não «mãe de Deus» (título que a Igreja definirá em Éfeso), mas «serva», a que serve, a que está disponível, a que não reivindica posições mas aceita a missão. A «mãe dos filhos de Zebedeu» pediu para os seus filhos as posições de glória. Maria aceitou a posição de serva, e precisamente por isso é «exaltada» no Magnificatde agora em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada», Lc 1,48).

IV. «São Tiago e o cálice»: a festa dos que beberam o cálice

Tiago foi o primeiro dos apóstolos a ser martirizado, decapitado por Herodes Agripa I por volta do ano 44 (At 12,2). O irmão que respondeu «podemos» ao desafio de Jesus bebeu o cálice mais cedo do que qualquer outro apóstolo. A festa de São Tiago é a festa de quem, sem o saber quando fez a promessa, a cumpriu radicalmente: partilhou o cálice do Senhor não na glória que a mãe imaginou mas no martírio que o Senhor havia antecipado.

A trajectória de Tiago, de «filho do trovão» (Mc 3,17, o epíteto que Jesus lhe deu com João, sugerindo temperamento impetuoso) ao mártir, é o arquétipo da transformação pelo sequela Christi: o discípulo que começou com ambições de glória acabou como testemunha que deu a vida. A graça não elimina o temperamento mas transforma a sua energia: a impetuosidade de Tiago tornou-se ardor apostólico, a ambição de glória tornou-se disponibilidade para o cálice.

Maria acompanhou esta transformação como mãe da Igreja nascente que rezou com os apóstolos no Cenáculo (At 1,14). A oração de Maria pelo grupo dos apóstolos, incluindo Tiago, antes de Pentecostes é a oração da mãe que não pede glória para os seus filhos espirituais mas pede que possam beber o cálice que os tornará capazes de servir. A «mãe dos filhos de Zebedeu» pediu posições. Maria pediu, e ainda pede, Espírito Santo.

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