Nossa Senhora da caridade do cobre, padroeira de cuba

Nossa Senhora da caridade do cobre, padroeira de cuba

«Quoniam caritas ex Deo est, et omnis qui diligit ex Deo natus est, et cognoscit Deum» (1Jo 4,7), «O amor vem de Deus, e todo o que ama nasceu de Deus e conhece a Deus»

I. Deus é amor: o teste teológico fundamental do cristianismo

A Primeira Carta de João oferece à Igreja uma das mais belas e mais decisivas síntesses teológicas de todo o Novo Testamento: “Deus é amor. E quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele” (1Jo 4,16). Esta afirmação não é metáfora poética nem expressão devocional: é a confissão central do cristianismo, formulada com a brevidade típica do estilo joânico. Toda a teologia cristã pode ser compreendida como desdobramento progressivo desta única intuição. A Trindade é amor recíproco entre Pai, Filho e Espírito. A criação é amor que transborda. A redenção é amor que desce até à Cruz. A Igreja é amor partilhado entre os irmãos. E é precisamente esta teologia do amor como caridade, como dom gratuito recebido e doado, que o título mariano de “Nossa Senhora da Caridade” inscreve no coração da fé católica. Quando a Cuba colonial, no século XVII, encontrou nas águas da baía de Nipe uma pequena imagem mariana com a tabuleta “Eu sou a Virgem da Caridade”, recebeu como dom uma síntese teológica que atravessaria os séculos seguintes da história nacional cubana: o amor é a única identidade definitiva.

II. Os três juanes e o achado da Virgem nas águas da baía de nipe

Em 1612, no início da manhã de um dia de Maio, três jovens partiram numa pequena embarcação da costa norte de Cuba em busca de sal para os trabalhadores das minas de cobre de El Cobre, próximo de Santiago. Eram dois irmãos indígenas taínos, Rodrigo e Juan de Hoyos, e um menino africano escravo de cerca de dez anos, Juan Moreno. A história cubana batizou-os afectuosamente como “los tres Juanes”. Na baía de Nipe, depois de uma noite de tempestade, viram flutuando sobre as ondas um pequeno objecto branco. Aproximaram-se e descobriram, com espanto, que era uma imagem talhada da Virgem Maria, vestida de branco com manto azul, segurando o Menino Jesus ao colo, e fixada a uma tabuinha de madeira com a inscrição em espanhol: “Yo soy la Virgen de la Caridad.” A imagem chegava-lhes seca, sem nenhum sinal de ter estado mergulhada nas águas turbulentas. Levaram-na para El Cobre. A Virgem foi reconhecida como Padroeira de Cuba pelo Papa Bento XV em 1916, atendendo a uma petição dos veteranos da guerra de independência cubana. O Papa João Paulo II coroou-a canonicamente em 1998, durante a sua histórica visita a Cuba. A composição étnica dos três videntes, dois indígenas e um africano, conferiu desde o início à devoção uma dimensão simbólica decisiva para a identidade cubana: a Virgem da Caridade é a Mãe que escolheu manifestar-se ao mesmo tempo aos descendentes dos três povos que iriam compor a nação cubana, mostrando que a sua maternidade não conhece fronteiras étnicas nem hierarquias sociais.

III. Junto à cruz: a caridade que resiste à hora mais escura

O Evangelho de João que acompanha esta celebração situa-nos no Calvário, no momento em que a caridade de Cristo atinge a sua expressão histórica mais radical e em que Maria está presente como cooperadora silenciosa do mistério. “Junto à cruz de Jesus estavam a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria mulher de Cleófas, e Maria de Magdala. Jesus, vendo a mãe e junto dela o discípulo que ele amava, disse à mãe: Mulher, eis o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis a tua mãe” (Jo 19,25-27). A caridade que aqui se manifesta tem três características que a teologia mariana cubana percebeu sem dificuldade: é uma caridade que permanece no momento mais difícil (Maria não fugiu como os outros discípulos), é uma caridade que se transmite por geração espiritual (Maria é dada como mãe a um discípulo), e é uma caridade que une os diferentes (a comunidade dos pés da Cruz é heterogénea, várias mulheres de origens diversas e um único discípulo). Toda a teologia da Virgem da Caridade do Cobre converge para esta cena fundadora: o amor verdadeiro permanece, transmite-se e une.

IV. La cachita e a teologia mariana da identidade nacional caribenha

A Virgem da Caridade do Cobre, conhecida pelo povo cubano com o nome afectuoso de “Cachita”, representa um caso paradigmático na mariologia hispano-americana de como uma devoção nacional pode tornar-se categoria identitária de um povo. Na Cuba dividida pela escravidão durante quase quatro séculos, depois pelas guerras de independência, depois pelo exílio massivo do século XX, depois pela polarização política, a Virgem da Caridade tornou-se ponto de convergência de cubanos das mais diversas posições. Ernest Hemingway, ao receber o Prémio Nobel da Literatura em 1954, ofereceu a medalha à Virgem do Cobre, depositando-a no santuário como sinal de que a alma cubana, de qual ele se sentia parte adoptiva, encontrava ali a sua referência espiritual mais profunda. O Concílio Vaticano II reconheceu que a Igreja “engloba muitas tradições populares e formas culturais que dão à fé católica a sua riqueza concreta” (cf. Sacrosanctum Concilium, 37-38). A Virgem do Cobre é a forma cubana desta riqueza: uma mariologia em que o amor de Maria atravessou as fronteiras impostas pela história e tornou-se argamassa de uma identidade nacional que, dividida em tudo, se encontra unida quando olha para aquela pequena imagem que três jovens recuperaram das águas de Nipe há mais de quatro séculos.

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