Aquele que começou a boa obra há de completá-la

«Non aedificans super alienum fundamentum»: Paulo, o mordomo e Maria

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Confidens hoc ipsum, quia qui cœpit in vobis opus bonum, perficiet usque in diem Christi Jesu.
Fl 1,6

A trigésima semana do Tempo Comum coloca diante da Igreja duas cenas que parecem distantes e são uma só. De um lado, o cárcere de Éfeso, onde Paulo dita a carta mais afetuosa do seu corpus e confessa a certeza de que Deus não abandona o que principia. Do outro, a mesa de um fariseu, onde Jesus, observado como um réu antes do processo, toma pela mão um homem inchado pela doença e o cura em pleno sábado. A primeira leitura, Fl 1,1-11, canta a comunhão no Evangelho desde o primeiro dia. O evangelho, Lc 14,1-6, mostra essa mesma obra de Deus a irromper no dia em que a Lei mandava repousar. Entre a confiança do apóstolo e o gesto do Senhor corre um único fio, a convicção de que a graça, uma vez começada, não retrocede.

I. A obra que Deus começou e não deixa a meio

A abertura da Carta aos Filipenses é uma ação de graças que já contém toda a teologia da perseverança. Paulo escreve omnibus sanctis in Christo Jesu, qui sunt Philippis, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, e a palavra santos não designa uma elite moral, mas o povo separado e consagrado pelo batismo. O apóstolo não parte da fragilidade dos fiéis, parte da fidelidade de Deus. Por isso a memória se torna oração, e a oração se torna alegria, cum gaudio deprecationem faciens, com alegria fazendo a súplica, mesmo entre cadeias.

O centro dogmático da leitura está no versículo sexto, e é a rocha de toda a espiritualidade cristã. Qui cœpit in vobis opus bonum, perficiet usque in diem Christi Jesu, aquele que começou em vós uma boa obra há de levá-la à perfeição até ao dia de Cristo Jesus. O verbo cœpit, começou, atribui a Deus a iniciativa, e o verbo perficiet, aperfeiçoará, atribui a Deus também o termo. A salvação não é um edifício que o homem levanta e Deus abençoa, é uma obra que Deus principia, sustenta e consuma. A confiança do fiel não repousa sobre a própria constância, mas sobre a constância daquele que começou. E o horizonte é escatológico, o dies Christi, o dia de Cristo, quando toda semente lançada dará o seu fruto.

Paulo pede então três coisas que traçam o itinerário inteiro da vida cristã. Pede que a caridade cresça, ut caritas vestra magis ac magis abundet, que o vosso amor cresça cada vez mais, e o crescimento não é sentimental, dá-se in scientia et in omni sensu, na ciência e em todo o discernimento. Pede o discernimento do que é melhor, ut probetis potiora. E pede, por último, que os Filipenses cheguem puros e sem defeito ao dia de Cristo, repleti fructu justitiæ, cheios do fruto da justiça. Amor que conhece, juízo que discerne, vida que frutifica. A boa obra de Deus não dispensa a resposta do homem, chama-a, molda-a e a faz florescer.

II. A cura ao sábado e o silêncio dos que observavam

A cena lucana é construída sobre um olhar hostil. Ipsi observabant eum, eles o observavam, e o verbo tem o peso da vigilância judicial, do espião que espera o deslize. Jesus entra em casa de um chefe dos fariseus para comer o pão ao sábado, e a hospitalidade dissimula uma cilada. Diante dele está um homem hidrópico, homo quidam hydropicus, corpo tomado por uma água que incha sem saciar, imagem antiga da cobiça e da religião que se enche de observâncias e permanece estéril.

Antes de tocar o doente, o Senhor faz a pergunta que desarma. Si licet sabbato curare?, é lícito curar ao sábado, ou não? A Lei foi dada para a vida, e curar é servir a vida, portanto a pergunta responde-se sozinha. Mas at illi tacuerunt, mas eles calaram-se, e este silêncio é a mais dura acusação do evangelho, porque é o silêncio de quem prefere a fórmula à misericórdia. Jesus então apprehensum sanavit eum ac dimisit, tomou-o, curou-o e despediu-o, três verbos rápidos como o próprio gesto de Deus que não hesita diante da miséria humana.

A réplica final fecha o argumento com uma evidência do cotidiano. Cujus vestrum asinus aut bos in puteum cadet, et non continuo extrahet illum die sabbati?, quem de vós, se um filho ou um boi lhe cai num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado? Se a compaixão pelo animal quebra o repouso sem escrúpulo, quanto mais a compaixão pelo homem. O sábado não foi violado pela cura, foi cumprido por ela. E de novo o silêncio, non poterant ad hæc respondere illi, não podiam responder a isto, porque a verdade, quando é evidente, ou converte ou emudece.

III. A boa obra que se cumpre no sétimo dia

As duas leituras dizem, em registros diversos, que a obra de Deus não conhece pausa. Paulo afirma que aquele que começou aperfeiçoará, e Jesus demonstra, no dia do repouso, que o Pai não cessa de operar a salvação. O sábado de Israel celebrava o descanso de Deus depois da criação, mas a redenção introduz um sábado novo, aquele em que Deus trabalha justamente por amor, porque a obra da nova criação ainda não está consumada. Curar o hidrópico é continuar o opus bonum iniciado no batismo dos Filipenses, é o mesmo Deus que leva à perfeição o que principiou.

O salmo responsorial serve de gozo entre as duas margens. Magna opera Domini, grandiosas são as obras do Senhor, e justitia ejus manet in sæculum sæculi, a sua justiça permanece pelos séculos dos séculos. A justiça que permanece é precisamente a que Paulo invoca como fruto e a que Cristo exerce ao sábado. O Deus que memoriam fecit mirabilium suorum, que perpetuou a memória das suas maravilhas, é o Deus fiel que não desdiz a mão estendida. Entre o cárcere e a mesa, entre a carta e a cura, a Igreja aprende que a fidelidade divina não é uma promessa distante, é uma obra em curso, que atravessa cadeias e sábados e há de desembocar no dia de Cristo.

IV. Maria, primícia da obra levada à consumação

Quando Paulo confessa que Deus há de aperfeiçoar a obra começada, a fé da Igreja reconhece em Maria o rosto acabado dessa promessa. Ela é a criatura em quem o opus bonum foi principiado na Imaculada Conceição e levado à perfeição na Assunção, sem interrupção nem recuo. Nela, o perficiet usque in diem Christi já não é esperança, é história consumada. O que em nós é caminho, em Maria é chegada. A Virgem é a primeira dos santos de Filipos, aquela em quem a graça começada não encontrou resistência e chegou íntegra ao seu termo.

A oração paulina desenha, sem a nomear, o retrato mariano. Pede uma caridade que abunda na ciência, e Maria é aquela que conservabat omnia verba hæc, conferens in corde suo, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração, segundo Lc 2,19. Pede o discernimento do melhor, e ela escolheu a parte melhor ao dizer fiat. Pede o fruto da justiça, e o seu fruto tem nome, fructus ventris tui, o fruto do vosso ventre, aclamado por Isabel em Lc 1,42. A hidropisia do evangelho, sede que incha e não sacia, é a antítese da plenitude de Maria, cheia de graça porque vazia de si.

Há ainda a lição do silêncio. Os fariseus calaram-se por dureza, incapazes de responder à misericórdia. Maria calou-se por adesão, e o seu silêncio ao pé da cruz foi o consentimento pleno à obra que Deus levava à perfeição no dia mais sombrio. Não o mutismo de quem se recusa, mas o silêncio de quem crê. Por isso a Igreja invoca a Mãe do Senhor quando reza para chegar pura e sem defeito ao dia de Cristo, porque nela contempla, já realizada, a boa obra que em cada fiel apenas começou.

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