A figueira estéril e a estatura plena de Cristo

«Induite vos armaturam dei»: Paulo, o último lugar e Maria

Veritatem autem facientes in caritate, crescamus in illo per omnia, qui est caput Christus.
Ef 4,15

A liturgia deste sábado da vigésima nona semana do Tempo Comum coloca lado a lado duas medidas do mesmo mistério. A primeira leitura, tirada da Carta aos Efésios, descreve o crescimento do corpo eclesial até à mensura ætatis plenitudinis Christi, a medida da idade da plenitude de Cristo. O Evangelho de Lc 13,1-9 responde com a parábola da figueira que há três anos não dá fruto e recebe ainda um ano de prazo. Uma leitura fala de crescer, a outra de frutificar, e ambas convergem num único apelo, o de que a vida cristã não é posse estática, mas maturação sob a paciência de Deus.

I. A graça medida e a estatura do homem perfeito

Paulo abre a pericope com uma afirmação que desmonta toda niveladora uniformidade. Unicuique autem nostrum data est gratia secundum mensuram donationis Christi, a cada um de nós foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo (Ef 4,7). A graça é única na fonte e diversa na distribuição. O Apóstolo cita então o Salmo 67 relido cristologicamente, Ascendens in altum, captivam duxit captivitatem, dedit dona hominibus, subindo às alturas levou cativo o cativeiro e deu dons aos homens (Ef 4,8), e faz da Ascensão a condição da doação carismática. Aquele que subiu acima de todos os céus é o mesmo que primeiro desceu às regiões inferiores da terra, e desce e sobe para encher o universo, ut impleret omnia (Ef 4,10).

Os dons enumerados não são ornamento, são articulação. Apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores existem ad consummationem sanctorum in opus ministerii, in ædificationem corporis Christi, para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo (Ef 4,12). A finalidade é precisa e altíssima, alcançar in unitatem fidei et agnitionis Filii Dei, a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até ao homem perfeito (Ef 4,13). Ireneu de Lião entendeu que este homem perfeito não é o indivíduo isolado, mas a humanidade recapitulada no Verbo, o corpo inteiro chegado à idade adulta. A Igreja não é feita de pedras acabadas, mas de membros que crescem. Por isso o Apóstolo teme a infância espiritual, esse ser parvuli fluctuantes, criancinhas flutuantes arrastadas por todo vento de doutrina (Ef 4,14), e opõe-lhe a única maturidade possível, fazer a verdade na caridade e crescer em tudo naquele que é a Cabeça, Cristo. Do qual, diz o versículo final, todo o corpo bem ajustado e conexo recebe o seu crescimento in ædificationem sui in caritate, para a sua própria edificação na caridade (Ef 4,16).

II. Três anos de espera diante da figueira

O Evangelho começa com uma notícia sangrenta e um mal-entendido tenaz. Trazem a Jesus o caso dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios, e a pergunta implícita é a de sempre, se a desgraça mede o pecado. Jesus recusa o cálculo e devolve a questão a cada consciência. Non, dico vobis, sed nisi pœnitentiam habueritis, omnes similiter peribitis, não, digo-vos, mas se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo (Lc 13,3). A queda da torre de Siloé sobre dezoito homens recebe idêntica resposta. A catástrofe alheia não é sentença sobre os mortos, é convocação dos vivos. O sofrimento não explica o pecado dos outros, ele interpela a conversão de quem observa.

A parábola que se segue traduz o aviso em imagem agrícola. Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e vinha procurar-lhe fruto sem o encontrar. Ecce anni tres sunt ex quo venio quærens fructum in ficulnea hac, et non invenio, eis que há três anos venho buscar fruto nesta figueira e não o encontro (Lc 13,7). A sentença já está formulada, succide ergo illam, corta-a pois, por que ocupa ainda a terra. O vinhateiro intercede. Domine, dimitte illam et hoc anno, Senhor, deixa-a ainda este ano, até que eu cave em volta dela e lhe deite estrume (Lc 13,8). O prazo é dado, não a impunidade. A árvore ganha um ano, uma escavação e um adubo, e sobre esse ano paira a condição, si quidem fecerit fructum, sin autem, in futurum succides eam, se der fruto, bem, senão, então a cortarás (Lc 13,9). A paciência de Deus tem rosto, e o seu rosto é o do intercessor.

III. Crescer e frutificar como um só movimento

As duas leituras dizem, em vocabulário diverso, a mesma lei da vida em Cristo. Efésios chama-lhe crescimento, augmentum corporis, o aumento do corpo que se edifica na caridade. Lucas chama-lhe fruto, o figo que a árvore deve dar sob pena de ocupar inutilmente a terra. Ora crescer e frutificar não são dois processos, são o mesmo processo visto do interior e do termo. Um corpo que cresce até à estatura de Cristo é uma árvore que amadurece o seu fruto, e a caridade é ao mesmo tempo a seiva que faz crescer e o fruto que se colhe. Agostinho lia a figueira como a alma que recebe o cultivo da graça, e o estrume como a humildade que nasce da penitência, essa matéria vil que fertiliza o solo da salvação.

Há ainda uma unidade cronológica que não deve escapar. Os três anos da figueira e o ano de prazo não são medida de impaciência divina, são a gramática da longanimidade. Deus mede o tempo não para condenar depressa, mas para dar espaço ao crescimento que ele mesmo sustenta. A graça dada secundum mensuram, segundo a medida, e o prazo concedido et hoc anno, ainda este ano, pertencem à mesma pedagogia. O dom carismático de Efésios e o cavar em volta da raiz de Lucas descrevem o único trabalho de Deus, aquele que capacita os santos e aquele que aduba a figueira estéril. Não é a árvore que se salva a si mesma, é o vinhateiro que a poupa e a cultiva.

IV. Maria, solo cavado e primeiro fruto do corpo

Onde as leituras não a nomeiam, a Mãe do Senhor é contudo a chave que as decifra. Se Efésios põe diante dos olhos a estatura da plenitude de Cristo, Maria é o primeiro membro do corpo que a alcançou. Nela o crescimento até ao homem perfeito não conheceu a infância flutuante que Paulo teme, porque desde o primeiro instante a graça lhe foi dada em plenitude e ela a fez frutificar sem intervalo. A Igreja que caminha rumo à unitas fidei contempla em Maria o termo já cumprido do seu próprio itinerário. Ela é aquela em quem o corpo, coordenado e bem unido, chegou de antemão à sua edificação na caridade.

Diante da figueira, a analogia torna-se mais silenciosa e mais funda. Maria é o solo bom que o Vinhateiro cavou e adubou até dar o Fruto que todas as figueiras estéreis esperavam. O Benedictus fructus ventris tui da saudação de Isabel responde à árvore de Lucas que três anos não deu figo, pois há um ventre que deu o único Fruto capaz de justificar a paciência de Deus com toda a terra. A figueira do Evangelho é toda alma à espera de converter, e Maria é a que já deu fruto por todas. A sua intercessão prolonga a do vinhateiro, ela pede ainda este ano, ainda este prazo, ainda esta escavação da graça sobre as raízes secas dos fiéis. Onde o Filho é a Cabeça de que tudo cresce, a Mãe é o membro em que esse crescimento se lê inteiro, e a conversão que Lucas exige encontra nela o rosto de quem nunca precisou de se converter para que todos pudéssemos ainda dar fruto.

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