O último lugar e o lucro de morrer em Cristo

«Non potestis deo servire et mammonae»: Paulo, os colaboradores e Maria

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Mihi enim vivere Christus est, et mori lucrum.
Fl 1,21

A liturgia do sábado da 30ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós duas medidas do mesmo despojamento. De um lado, o Apóstolo preso escreve aos Filipenses e mede a própria vida não pela sobrevivência, mas por Cristo, Mihi enim vivere Christus est, et mori lucrum, para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro (Fl 1,21). De outro, Jesus, sentado à mesa de um chefe dos fariseus, converte um gesto de etiqueta social numa parábola do Reino, ensinando quem se humilha a ser elevado (Lc 14,11). O salmo costura as duas leituras com o suspiro do peregrino, Quemadmodum desiderat cervus ad fontes aquarum, como a corça suspira pelas águas correntes (Sl 41,2). Viver, morrer, descer. A Igleja lê nesta tríade uma só ascese, a de quem já não tem centro em si.

I. Viver é Cristo, o cálculo invertido de Paulo

Paulo escreve de dentro da cadeia e transforma a prisão em púlpito. Preso, provavelmente em Éfeso ou em Roma, o Apóstolo não lamenta a algema, antes se alegra porque, de qualquer maneira, com segundas intenções ou com sinceridade, Cristo é anunciado (Fl 1,18). A alegria paulina não nasce das circunstâncias, nasce do objeto do anúncio. Por isso o verbo gaudeo, alegro-me, vem duplicado no futuro, sed et gaudebo, e sempre me alegrarei, como um selo que a adversidade não rompe. A cadeia que prende o corpo liberta o Evangelho.

O centro da leitura está no cálculo que Paulo declara impossível de resolver. Ele confessa Coarctor autem e duobus, sinto-me apertado entre os dois lados (Fl 1,23), e enumera as opções com uma clareza que desconcerta. Partir e estar com Cristo seria multo magis melius, de longe o melhor, ao passo que permanecer na carne é necessarium propter vos, mais necessário por causa deles. O verbo coarctor traduz a imagem de quem é comprimido entre duas paredes, sem espaço para o egoísmo. Paulo não escolhe a vida por medo da morte nem a morte por cansaço da vida. Ele suspende a própria preferência e a entrega ao proveito da comunidade, para que os fiéis possam progredir e alegrar-se na fé (Fl 1,25).

O que Agostinho leu nesta página é a inversão total da economia do medo. Para o mundo, viver é ganho e morrer é perda. Para Paulo, o eixo gira, porque mori lucrum, o morrer é lucro, faz da própria dissolução um adiantamento da posse de Cristo. Não se trata de desprezo pela vida, mas de uma vida cujo termo já não é a morte, e sim o encontro. O corpo de Paulo tornou-se lugar de glória, magnificabitur Christus in corpore meo, Cristo será glorificado no meu corpo (Fl 1,20), viva ele ou morra.

II. O último lugar, a parábola da mesa

Jesus lê os corações através dos gestos à mesa. O quadro é preciso, um sábado, a casa de um chefe dos fariseus, os convidados que escolhem os primeiros lugares e os anfitriões que observam Jesus, ipsi observabant eum, eles o observavam (Lc 14,1). O evangelista nota que Jesus, por sua vez, observa a eles, intendens quomodo primos accubitus eligerent, reparando como escolhiam os primeiros lugares (Lc 14,7). Há uma dupla vigilância nesta cena. A dos que espreitam para condenar e a do Mestre que vê para converter.

A parábola não é um manual de boas maneiras, é uma revelação do juízo de Deus. Quem se apossa do primeiro lugar arrisca ouvir do dono da casa Da huic locum, dá o lugar a este (Lc 14,9), e descer com vergonha ao último. Quem escolhe o último lugar ouvirá Amice, ascende superius, amigo, sobe mais para cima (Lc 14,10). A palavra amice, amigo, muda tudo. O convite não vem da estratégia de quem calcula a humildade como técnica de promoção, mas da gratuidade de quem chama pelo nome. O último lugar não é humilhação, é o único lugar onde se pode ser chamado para cima.

O provérbio final cristaliza a lei do Reino, omnis, qui se exaltat, humiliabitur, et qui se humiliat, exaltabitur, todo o que se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado (Lc 14,11). O verbo passivo esconde o agente divino. Não é o convidado que se promove nem a assembleia que o rebaixa, é Deus quem exalta e humilha. A parábola da mesa antecipa o banquete escatológico, onde a ordem dos lugares será a ordem do amor, e não a do prestígio.

III. Um só despojamento, síntese

As duas leituras dizem a mesma verdade em registros diversos. Paulo esvazia-se da própria preferência entre viver e morrer, os convidados de Lucas são convocados a esvaziar-se da própria pretensão ao primeiro lugar. Num caso o despojamento é interior e mortal, no outro é público e festivo, mas a raiz é idêntica, a de quem descentra o eu para deixar a Deus o veredicto sobre o seu lugar. O salmo dá voz a esse mesmo movimento, a alma que tem sede do Deus vivo, Sitivit anima mea ad Deum fortem, vivum (Sl 41,3), não reivindica, suplica.

Aqui se toca o mistério pascal como forma de toda a vida cristã. Cristo, que se humilhou até a morte e por isso foi exaltado, é a norma escondida sob a confissão de Paulo e sob a parábola de Jesus. O lucrum de Paulo e o ascende superius de Lucas são o reverso de um único movimento descendente que o Pai transforma em ascensão. Não há elevação que não passe pelo abaixamento. Não há primeiro lugar que se conquiste, só há um que se recebe.

IV. Maria, a serva que se assenta no último lugar

Maria é a exegese viva das duas leituras que não a nomeiam. Quando declara respexit humilitatem ancillae suae, olhou para a humildade da sua serva (Lc 1,48), ela ocupa por antecipação o último lugar da parábola, e é dali que Deus a chama para cima, fazendo-a proclamar que todas as gerações a chamarão bem-aventurada. A Virgem não pleiteou o primeiro assento na história da salvação. Ela consentiu no serviço, e o serviço tornou-se trono. O exaltabitur de Lucas cumpre-se primeiro nela, elevada de corpo e alma, precisamente porque primeiro se humilhou.

Maria é também a medida do vivere Christus paulino. Se para Paulo viver é Cristo, para a Mãe esse Cristo foi carne da sua carne, e a sua vida inteira se resume no verbo que disse a Caná, Quodcumque dixerit vobis, facite, fazei tudo o que ele vos disser (Jo 2,5). A vida joânica de Maria, atenta ao Filho até o pé da cruz, é a forma acabada daquele aperto entre viver e morrer que Paulo confessa, porque ela permaneceu na carne pela Igreja nascente, tornando-se mãe do discípulo amado. Onde Paulo hesita entre partir e ficar, Maria já mostrou que ficar por amor é a mais alta forma de partir de si.

Por isso a piedade da Igreja a saúda como aquela que suspira, com a corça do salmo, pelas águas correntes do Deus vivo. Maria peregrina, Maria humilde, Maria assunta, é o rosto concreto da promessa evangélica. Contemplá-la neste sábado é aprender de uma só vez a alegria de Paulo na prisão, a humildade dos que descem ao último lugar e a sede da alma que só descansa na face de Deus.

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