Anjo em hebraico: o que significa mal’akh

Anjo em hebraico diz-se mal’akh (מלאך), palavra que significa simplesmente «mensageiro», «enviado». O plural é mal’akhim. Quando os tradutores gregos da Bíblia verteram o termo, escolheram ángelos, «mensageiro», e é daí que vêm o latim angelus e o português «anjo». O dado filológico já é meia teologia: na Bíblia, o nome do anjo não descreve o que ele é, descreve o que ele faz. Este artigo percorre a palavra hebraica, o seu equivalente grego, a figura misteriosa do «anjo do Senhor» e os nomes teofóricos dos três arcanjos.

Mal’akh: uma palavra de missão

Mal’akh deriva de uma raiz semítica que significa «enviar». O termo aplica-se na Bíblia tanto a mensageiros humanos, como os enviados de Jacó a Esaú (cf. Gn 32,4), quanto aos enviados celestes: só o contexto distingue. Um exemplo denso está no profeta Malaquias, cujo próprio nome significa «meu mensageiro»:

הִנְנִ֤י שֹׁלֵ֙חַ֙ מַלְאָכִ֔י וּפִנָּה־דֶ֖רֶךְ לְפָנָ֑י וּפִתְאֹם֩ יָב֨וֹא אֶל־הֵיכָל֜וֹ הָאָד֣וֹן ׀ אֲשֶׁר־אַתֶּ֣ם מְבַקְשִׁ֗ים וּמַלְאַ֨ךְ הַבְּרִ֜ית אֲשֶׁר־אַתֶּ֤ם חֲפֵצִים֙ הִנֵּה־בָ֔א אָמַ֖ר יְהֹוָ֥ה צְבָאֽוֹת׃

«Eis que envio o meu mensageiro (mal’akhi), e ele desimpedirá o caminho diante de mim. E subitamente virá ao seu templo o Senhor a quem buscais, e o mensageiro da aliança (mal’akh ha-berit) a quem desejais. Eis que vem, diz YHWH dos exércitos» (Ml 3,1, tradução literal do texto massorético).

Num único versículo, a palavra designa o precursor humano (que o Evangelho identificará com João Batista) e o misterioso «mensageiro da aliança». O termo é o mesmo porque a lógica é a mesma: ser mal’akh é existir em estado de missão.

Nome de ofício, não de natureza

Santo Agostinho fixou a fórmula que o Catecismo da Igreja Católica recolhe: «Angelus […] officii nomen est, non naturae», anjo é nome do ofício, não da natureza. E explica: pela natureza são espíritos, e quando são enviados chamam-se anjos (cf. CIC 329). A palavra hebraica confirma o santo de Hipona: mal’akh não diz o que a criatura é (espírito pessoal, dotado de inteligência e vontade, cf. CIC 330), diz o serviço que presta. Por isso os seres celestes que nunca aparecem em missão junto dos homens, como os serafins de Isaías ou os querubins que guardam o Éden e sustentam o trono, não são chamados mal’akh no texto hebraico: o ofício deles é outro, adorar e guardar, não anunciar.

O grego ángelos e a Septuaginta

Quando o Antigo Testamento foi traduzido para grego, mal’akh tornou-se ángelos, palavra igualmente comum para «mensageiro». O Novo Testamento herdou o termo: é um ángelos que fala a José em sonhos, e São Lucas escreve que «foi enviado o anjo Gabriel» (ἀπεστάλη ὁ ἄγγελος Γαβριὴλ, Lc 1,26) a uma virgem chamada Maria. O verbo é o mesmo da raiz hebraica: enviado. Do grego, a palavra passou ao latim angelus e a todas as línguas cristãs. Cada vez que dizemos «anjo», repetimos sem saber a teologia bíblica da missão.

O anjo do Senhor (mal’akh YHWH)

Entre todos os usos, um destaca-se: a expressão mal’akh YHWH, «o anjo do Senhor». Aparece pela primeira vez na história de Agar, a serva egípcia que foge para o deserto: «e encontrou-a o anjo do Senhor junto à fonte de água no deserto» (cf. Gn 16,7). O que se segue é surpreendente: esse anjo fala na primeira pessoa como se fosse o próprio Deus, e Agar conclui que viu Deus. O mesmo acontece na sarça ardente e noutras cenas. A exegese discute há séculos se o mal’akh YHWH é um anjo que representa Deus tão perfeitamente que fala por ele, ou uma forma de o próprio Deus se manifestar. Parte da tradição cristã leu nestas passagens prefigurações do Verbo, o Enviado por excelência do Pai. Sem fechar a questão exegética, o dado permanece: na Bíblia, o anjo nunca chama a atenção para si, é pura transparência daquele que o envia.

Os nomes em -El: quando o nome do anjo fala de Deus

Os únicos três anjos com nome próprio na Escritura confirmam a regra da transparência: Miguel (Mikha’El, «quem como Deus?»), Gabriel (Gavri’El, «força de Deus») e Rafael (Refa’El, «Deus cura») terminam todos em -El, «Deus». O nome de cada anjo é uma frase sobre Deus, não um retrato do anjo. Explicamos cada um deles, e a razão pela qual a Igreja não aprova outros nomes, no artigo sobre os nomes dos anjos.

Em resumo: aprender a palavra hebraica é aprender a doutrina. O anjo é definido pela missão que recebe e pela mensagem que transporta, e a sua grandeza está precisamente em não reter nada para si. Quem quiser ver como a Escritura descreve estes enviados, do serafim ardente ao jovem de vestes brancas do túmulo vazio, pode continuar no artigo como são os anjos segundo a Bíblia, e situar tudo no quadro doutrinal da nossa página de angeologia.

Perguntas frequentes

Como se diz anjo em hebraico?

Anjo em hebraico é mal’akh (מלאך), que significa literalmente «mensageiro», «enviado». O plural é mal’akhim. A Bíblia usa a mesma palavra para mensageiros humanos e para os enviados celestes: é o contexto que distingue. A tradução grega da Bíblia (Septuaginta) verteu mal’akh por ángelos, de onde vem a palavra portuguesa «anjo».

O que significa mal’akh?

Mal’akh vem de uma raiz semítica que significa «enviar»: o mal’akh é aquele que foi enviado com uma missão e uma mensagem. Por isso Santo Agostinho, citado pelo Catecismo (CIC 329), diz que «anjo» é o nome do ofício, não da natureza: pela natureza são espíritos, e chamam-se anjos porque são enviados.

O que é o anjo do Senhor (mal’akh YHWH)?

«Anjo do Senhor» (mal’akh YHWH) é uma figura do Antigo Testamento que fala e age em nome de Deus com uma autoridade que por vezes se confunde com o próprio Deus, como na aparição a Agar (Gn 16,7-13) ou a Moisés na sarça. A exegese discute se é um anjo enviado ou uma forma de manifestação do próprio Deus, e parte da tradição cristã leu nessas cenas prefigurações do Verbo.

Qual é a diferença entre anjo e arcanjo?

«Arcanjo» (do grego archángelos, «chefe dos anjos») aparece no Novo Testamento em 1Ts 4,16 e Jd 9. Na classificação tradicional dos coros, os arcanjos são os mensageiros das grandes missões, como Gabriel na Anunciação. A Igreja aprova o culto de três arcanjos com nome: Miguel, Gabriel e Rafael, celebrados a 29 de setembro.

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