Querubim: o que é e o que a Bíblia diz dos querubins

Deus Pai em glória sustentado pelos querubins de Ezequiel, com figuras de anjo, leão, boi e águia (pormenor)

Em resumo

O querubim (hebraico keruv, plural keruvim) é uma criatura espiritual, contada entre os anjos, que a Bíblia apresenta como guardião da santidade de Deus e portador do seu trono. O querubim guarda o Éden (Gn 3,24), é representado em ouro sobre a arca da aliança (Ex 25,18-22) e sustenta o trono nas visões de Ezequiel. Não é um bebê alado.

O querubim (no plural, querubins) é, segundo a Bíblia, um anjo da primeira hierarquia celeste, guardião da santidade de Deus e portador do seu trono. Guarda o Éden (Gn 3,24), cobre a arca da aliança (Ex 25,18-22) e carrega o trono de Deus em Ezequiel (Ez 10). Não é um bebê alado: essa imagem vem dos putti da arte renascentista.

O nome vem do hebraico keruv (plural keruvim), provavelmente aparentado ao acádico karibu, o gênio guardião esculpido às portas dos templos e palácios da Mesopotâmia. Na Escritura, o querubim é uma criatura temível, posta entre o homem pecador e o Deus três vezes santo. Percorrer os textos em que os querubins aparecem é uma das melhores portas de entrada na angeologia católica: neles se vê como a Bíblia fala do mundo invisível com imagens poderosas, e como a teologia deve ler essas imagens sem as rebaixar a decoração.

O que é um querubim

Um querubim é uma criatura espiritual, pessoal e real, um anjo. A fé católica não trata os querubins como símbolos poéticos: o Catecismo ensina que os anjos são criaturas puramente espirituais, dotadas de inteligência e vontade, «criaturas pessoais e imortais» (CIC 330). Entre os anjos, os querubins distinguem-se pela função que a Bíblia lhes dá: não levam recados aos homens, guardam a santidade de Deus e sustentam o seu trono. A tradição teológica, a partir do Pseudo-Dionísio, colocou-os no segundo dos nove coros angélicos, logo abaixo dos serafins.

Importa notar desde já o que o querubim não é: não é um «mensageiro». O termo genérico para anjo, mal’akh (מלאך), significa «enviado» e descreve um ofício de comunicação, como explicamos no artigo sobre a palavra anjo em hebraico. O mensageiro por excelência é um arcanjo como Gabriel, enviado a Nazaré (Lc 1,26). Ora, na Bíblia os querubins nunca entregam recado a ninguém. Guardam, sustentam, transportam. O seu lugar não é diante dos homens, é junto de Deus.

Querubim com espada envolto em luz divina expulsa Adão e Eva do Éden para a escuridão, gravura
Gustave Doré, «Adão e Eva expulsos do Éden», 1866, gravura da Grande Bíblia de Tours

Significado do nome querubim (hebraico כְּרוּב)

Em hebraico a palavra é keruv (כְּרוּב), com o plural keruvim (כְּרוּבִים). A forma portuguesa «querubins» é, a rigor, um duplo plural: acrescenta o -s português a um termo que já era plural em hebraico, exatamente como acontece com «serafins». O Novo Testamento grego simplesmente transcreve a palavra (Cheroubin, Hb 9,5), e o latim faz o mesmo (Cherubim).

A etimologia mais aceita pela exegese contemporânea aproxima o termo do acádico karibu ou kuribu, nome dos gênios guardiões e intercessores que ladeavam as entradas dos templos e palácios mesopotâmicos, muitas vezes na forma de touros ou leões alados de rosto humano. Há, portanto, dois «significados» que convém não confundir:

  • Significado filológico: o parentesco com karibu aponta para a ideia de guardião ou intercessor junto da divindade, o que corresponde bem ao papel bíblico do querubim.
  • Significado teológico tradicional: o Pseudo-Dionísio, apoiando-se nos que conheciam o hebraico, interpretou o nome como abundância de conhecimento ou efusão de sabedoria (A hierarquia celeste, cap. VII), e São Tomás de Aquino retomou essa leitura ao explicar que o nome se interpreta como «plenitude de ciência» (Suma Teológica I, q. 108, a. 5, ad 5).

A primeira leitura é a da ciência das línguas antigas, a segunda é uma leitura espiritual que a tradição usou para descrever o que os querubins são diante de Deus. Ambas convergem num ponto: o querubim está perto de Deus, não perto de nós.

Querubins na Bíblia: os textos principais

A palavra aparece mais de noventa vezes no Antigo Testamento, sobretudo nas descrições do santuário e no livro de Ezequiel. Os textos abaixo são os que definem o perfil bíblico do querubim. As traduções são literais, feitas por nós a partir do texto massorético hebraico.

Gênesis 3,24: o querubim guarda do Éden

A primeira aparição dos querubins na Bíblia acontece logo depois da queda, e o tom é tudo menos decorativo:

וַיְגָ֖רֶשׁ אֶת־הָֽאָדָ֑ם וַיַּשְׁכֵּן֩ מִקֶּ֨דֶם לְגַן־עֵ֜דֶן אֶת־הַכְּרֻבִ֗ים וְאֵ֨ת לַ֤הַט הַחֶ֙רֶב֙ הַמִּתְהַפֶּ֔כֶת לִשְׁמֹ֕ר אֶת־דֶּ֖רֶךְ עֵ֥ץ הַֽחַיִּֽים׃

«E expulsou o homem, e fez habitar ao oriente do jardim do Éden os querubins e a chama da espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida» (Gn 3,24, tradução literal nossa do texto massorético).

O verbo hebraico é inequívoco: os querubins (hakkeruvim) estão ali lishmor, «para guardar». A sua primeira função na história da salvação é interditar, marcar com uma espada de fogo a fronteira entre o homem pecador e a vida que ele perdeu. O Catecismo da Igreja Católica recorda este episódio ao enumerar as intervenções angélicas na Escritura: os anjos «fecham o paraíso terrestre» (CIC 332). Quem começa por aqui já não consegue imaginar o querubim como um bebê sorridente.

Êxodo 25,18-22: os querubins da arca da aliança

O segundo grande cenário é o culto de Israel. No Sinai, Moisés recebe a ordem de fazer dois querubins de ouro batido nas duas extremidades do propiciatório (kapporet), a tampa da arca da aliança (Ex 25,18-19). O texto descreve a sua postura e diz para que servem:

וְהָי֣וּ הַכְּרֻבִים֩ פֹּרְשֵׂ֨י כְנָפַ֜יִם לְמַ֗עְלָה סֹכְכִ֤ים בְּכַנְפֵיהֶם֙ עַל־הַכַּפֹּ֔רֶת וּפְנֵיהֶ֖ם אִ֣ישׁ אֶל־אָחִ֑יו אֶ֨ל־הַכַּפֹּ֔רֶת יִהְי֖וּ פְּנֵ֥י הַכְּרֻבִֽים׃

«E os querubins estarão estendendo as asas para o alto, cobrindo com as suas asas o propiciatório, e os seus rostos, cada um voltado para o seu irmão. Para o propiciatório estarão os rostos dos querubins» (Ex 25,20, tradução literal nossa do texto massorético).

וְנוֹעַדְתִּ֣י לְךָ֮ שָׁם֒ וְדִבַּרְתִּ֨י אִתְּךָ֜ מֵעַ֣ל הַכַּפֹּ֗רֶת מִבֵּין֙ שְׁנֵ֣י הַכְּרֻבִ֔ים אֲשֶׁ֖ר עַל־אֲר֣וֹן הָעֵדֻ֑ת אֵ֣ת כׇּל־אֲשֶׁ֧ר אֲצַוֶּ֛ה אוֹתְךָ֖ אֶל־בְּנֵ֥י יִשְׂרָאֵֽל׃

«E me encontrarei contigo ali, e falarei contigo de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins que estão sobre a arca do testemunho, tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel» (Ex 25,22, tradução literal nossa do texto massorético).

Há aqui um paradoxo teológico precioso. O mesmo Deus que proíbe fazer imagens de culto ordena estas duas. A contradição é só aparente: os querubins da arca não são imagem de Deus, são o seu trono. Entre as suas asas não há estátua nenhuma, há um vazio habitado pela presença invisível. No templo de Salomão a mesma lógica ganha escala monumental: dois querubins de madeira de oliveira revestida de ouro, com cerca de cinco metros de altura, enchem o Santo dos Santos com as asas abertas (1Rs 6,23-28), e o véu que fecha o santuário é bordado com querubins (2Cr 3,14). O querubim é, em todo o Antigo Testamento, o sinal visível de que ali está o Deus santo, e de que não se entra ali de qualquer maneira.

Os Salmos: Deus «entronizado sobre os querubins»

Por causa da arca, Israel invoca o Senhor como aquele que se assenta sobre os querubins, título que aparece em 1Sm 4,4, em 2Sm 6,2 e no Salmo 80:

רֹ֘עֵ֤ה יִשְׂרָאֵ֨ל ׀ הַאֲזִ֗ינָה נֹהֵ֣ג כַּצֹּ֣אן יוֹסֵ֑ף יֹשֵׁ֖ב הַכְּרוּבִ֣ים הוֹפִֽיעָה׃

«Pastor de Israel, escuta, tu que conduzes José como um rebanho. Tu que te assentas sobre os querubins, resplandece» (Sl 80[79],2, tradução literal nossa do texto massorético). Literalmente, yoshev hakkeruvim é «o que se assenta [sobre] os querubins».

E o Salmo 18 dá aos querubins uma imagem de movimento, a de um carro de guerra celeste em que Deus desce para salvar o seu ungido:

וַיִּרְכַּ֣ב עַל־כְּ֭רוּב וַיָּעֹ֑ף וַ֝יֵּ֗דֶא עַל־כַּנְפֵי־רֽוּחַ׃

«E cavalgou sobre um querubim e voou, e planou sobre as asas do vento» (Sl 18[17],11, tradução literal nossa do texto massorético. Nas Bíblias que seguem a numeração inglesa, é o versículo 10. O mesmo verso aparece em 2Sm 22,11).

A numeração dupla dos Salmos segue o costume das Bíblias católicas: o primeiro número é o do texto hebraico, o segundo, entre colchetes, o da Septuaginta e da Vulgata.

Ezequiel 1 e 10: o trono móvel

No exílio da Babilônia, junto ao rio Quebar, Ezequiel contempla quatro «seres viventes» (chayyot):

Ezequiel ajoelhado contempla o querubim de quatro faces e asas, ao lado de uma roda, sob o trono de Deus nas nuvens, gravura
Matthäus Merian, «A visão de Ezequiel», gravura (antes de 1650)

וּמִ֨תּוֹכָ֔הּ דְּמ֖וּת אַרְבַּ֣ע חַיּ֑וֹת וְזֶה֙ מַרְאֵיהֶ֔ן דְּמ֥וּת אָדָ֖ם לָהֵֽנָּה׃ וְאַרְבָּעָ֥ה פָנִ֖ים לְאֶחָ֑ת וְאַרְבַּ֥ע כְּנָפַ֖יִם לְאַחַ֥ת לָהֶֽם׃

«E do meio dele, a semelhança de quatro seres viventes, e este era o seu aspecto: tinham semelhança de homem. E quatro faces tinha cada um, e quatro asas tinha cada um deles» (Ez 1,5-6, tradução literal nossa do texto massorético).

Esses viventes têm rosto de homem, de leão, de boi e de águia (Ez 1,10), são acompanhados de rodas cheias de olhos e, por cima deles, está a semelhança de um trono (Ez 1,15-26). No capítulo 10, o profeta identifica-os expressamente:

הִ֣יא הַחַיָּ֗ה אֲשֶׁ֥ר רָאִ֛יתִי תַּ֥חַת אֱלֹהֵֽי־יִשְׂרָאֵ֖ל בִּֽנְהַר־כְּבָ֑ר וָאֵדַ֕ע כִּ֥י כְרוּבִ֖ים הֵֽמָּה׃

«Este é o ser vivente que vi debaixo do Deus de Israel junto ao rio Quebar, e reconheci que eles eram querubins» (Ez 10,20, tradução literal nossa do texto massorético).

וְאַרְבָּעָ֥ה פָנִ֖ים לְאֶחָ֑ד פְּנֵ֨י הָאֶחָ֜ד פְּנֵ֣י הַכְּר֗וּב וּפְנֵ֤י הַשֵּׁנִי֙ פְּנֵ֣י אָדָ֔ם וְהַשְּׁלִישִׁי֙ פְּנֵ֣י אַרְיֵ֔ה וְהָרְבִיעִ֖י פְּנֵי־נָֽשֶׁר׃

«E quatro faces tinha cada um: a face do primeiro era a face do querubim, e a face do segundo, face de homem, e o terceiro, face de leão, e o quarto, face de águia» (Ez 10,14, tradução literal nossa do texto massorético).

Repare-se que em Ez 10,14 a «face de querubim» ocupa o lugar que em Ez 1,10 cabia à face de boi. A visão é deliberadamente desconcertante: faces múltiplas, asas, fogo, e as misteriosas rodas que estudamos no artigo sobre as rodas de Ezequiel e os ofanins. Mas a mensagem teológica é límpida. O trono de Deus tem rodas: a glória do Senhor não está presa ao templo de Jerusalém e pode acompanhar o seu povo até ao exílio. Os querubins, que na arca eram ouro imóvel, revelam-se aqui carregadores vivos de um trono que vai aonde Deus quer.

Os querubins no Novo Testamento

O Novo Testamento nomeia os querubins uma única vez, ao descrever a arca do antigo santuário:

ὑπεράνω δὲ αὐτῆς Χερουβὶν δόξης κατασκιάζοντα τὸ ἱλαστήριον

«E por cima dela, os querubins da glória, cobrindo com a sua sombra o propiciatório» (Hb 9,5, tradução literal nossa do texto grego).

Os quatro seres viventes que rodeiam o trono no Apocalipse, semelhantes a leão, a novilho, a homem e a águia, cheios de olhos e com seis asas cada um, que não cessam de proclamar a santidade de Deus (Ap 4,6-8, em paráfrase), retomam as imagens de Ezequiel e de Isaías. A tradição cristã leu-os à luz dos querubins de Ezequiel e fez deles o tetramorfo, símbolo dos quatro evangelistas.

Lúcifer era um querubim? O caso de Ezequiel 28

Muitos leitores chegam aos querubins por causa de um verso de Ezequiel, frequentemente citado a propósito de Lúcifer:

אַ֨תְּ־כְּר֔וּב מִמְשַׁ֖ח הַסּוֹכֵ֑ךְ וּנְתַתִּ֗יךָ בְּהַ֨ר קֹ֤דֶשׁ אֱלֹהִים֙ הָיִ֔יתָ בְּת֥וֹךְ אַבְנֵי־אֵ֖שׁ הִתְהַלָּֽכְתָּ׃

«Tu, querubim ungido que cobre, e eu te pus: no monte santo de Deus estavas, no meio de pedras de fogo andavas» (Ez 28,14, tradução literal nossa do texto massorético).

O contexto imediato é um lamento sobre o rei de Tiro (Ez 28,12), descrito com imagens do Éden e do santuário: as pedras preciosas, o monte santo, o querubim que cobre, como cobriam a arca. O termo traduzido por «ungido» é raro e de sentido discutido. Alguns Padres leram o oráculo para além do rei histórico: Orígenes, por exemplo, sustenta que estas palavras se referem a uma potência adversa que foi santa antes de cair (Sobre os princípios I,5,4). A aplicação ao demônio é, portanto, uma leitura tradicional possível, mas não uma definição de fé, e a Igreja nunca determinou a que coro angélico pertencia o anjo que caiu. Para o quadro geral, veja o nosso artigo sobre a hierarquia dos anjos segundo a Bíblia.

O lugar dos querubins na hierarquia celeste

A Bíblia nomeia vários grupos de anjos, mas não os ordena num esquema. Quem os organizou foi o Pseudo-Dionísio Areopagita, autor do final do século V, no tratado A hierarquia celeste: nove coros distribuídos em três hierarquias de três. Na primeira hierarquia, a mais próxima de Deus, estão serafins, querubins e tronos. São Tomás de Aquino adota essa ordem e a cita expressamente:

«Seraphim ut primos, Cherubim ut medios, thronos ut ultimos»: «os serafins como primeiros, os querubins como intermédios, os tronos como últimos» (São Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 108, a. 6, sed contra, resumindo o Pseudo-Dionísio).

A razão da ordem é o que cada nome significa. Para São Tomás, o nome dos querubins vem da excelência do conhecimento:

«Similiter etiam nomen Cherubim imponitur a quodam excessu scientiae, unde interpretatur plenitudo scientiae»: «Do mesmo modo, o nome querubim é imposto a partir de certa excelência de ciência, e por isso se interpreta como plenitude de ciência» (Suma Teológica I, q. 108, a. 5, ad 5).

E, no artigo seguinte, precisa o que distingue os querubins dos outros dois coros da primeira hierarquia: os tronos recebem Deus familiarmente em si, os serafins excedem em estar unidos ao próprio Deus, e os querubins «supereminenter divina secreta cognoscunt», «conhecem de modo supereminente os segredos divinos» (Suma Teológica I, q. 108, a. 6, corpo do artigo). Esta hierarquia é uma sistematização teológica de grande autoridade, não um dogma: a fé obriga a crer na existência dos anjos (CIC 328), não no número exato dos coros.

Querubim e serafim: qual a diferença

Querubins e serafins são os dois coros mais altos e por isso costumam ser confundidos. A Bíblia, porém, distingue-os com clareza:

QuerubimSerafim
Nome hebraicokeruv, plural keruvim, aparentado ao acádico karibu (guardião)saraf, plural serafim, da raiz que significa «queimar»
Onde apareceGn 3, Ex 25, 1Rs 6, Salmos, Ez 1 e 10, Hb 9,5Só em Is 6,2-7
AsasDuas na arca e no templo (1Rs 6,24), quatro em Ezequiel (Ez 1,6)Seis (Is 6,2)
Função bíblicaGuardar o lugar santo e sustentar o trono de DeusAclamar a santidade de Deus e purificar o profeta (Is 6,3-7)
Lugar na hierarquiaSegundo coro da primeira hierarquiaPrimeiro coro da primeira hierarquia
Nota distintiva na tradiçãoPlenitude de conhecimentoArdor do amor

O texto de Isaías mostra bem o contraste de ofícios:

שְׂרָפִ֨ים עֹמְדִ֤ים ׀ מִמַּ֙עַל֙ ל֔וֹ שֵׁ֧שׁ כְּנָפַ֛יִם שֵׁ֥שׁ כְּנָפַ֖יִם לְאֶחָ֑ד בִּשְׁתַּ֣יִם ׀ יְכַסֶּ֣ה פָנָ֗יו וּבִשְׁתַּ֛יִם יְכַסֶּ֥ה רַגְלָ֖יו וּבִשְׁתַּ֥יִם יְעוֹפֵֽף׃

«Serafins estavam de pé acima dele: seis asas, seis asas tinha cada um. Com duas cobria o rosto, com duas cobria os pés e com duas voava» (Is 6,2, tradução literal nossa do texto massorético).

Em síntese: aos serafins cabe aclamar e arder, aos querubins cabe guardar e sustentar. São Tomás resume a diferença numa linha: «Cherubim habent excellentiam scientiae; Seraphim vero excellentiam ardoris», «os querubins têm a excelência da ciência, os serafins a excelência do ardor» (Suma Teológica I, q. 108, a. 5, ad 6).

Por que os querubins não são bebês alados

A Bíblia falou a língua visual do seu tempo. No Antigo Oriente, tronos reais eram ladeados por esfinges aladas, e touros androcéfalos gigantescos guardavam as portas dos palácios assírios. Israel conhecia esse vocabulário e usou-o, mas com uma diferença decisiva: os seus querubins nunca são objeto de culto nem divindades menores. São criaturas ao serviço do Deus único, e o trono que sustentam permanece vazio de imagens.

A ruptura veio muito depois. No Renascimento, os putti (em italiano, «meninos»), crianças aladas herdadas dos erotes e amorini da arte greco-romana, invadiram a pintura sacra como elemento decorativo, e a linguagem popular acabou por lhes chamar «querubins». A inversão é total: o guarda armado que fechava o caminho do paraíso virou enfeite de cartão de felicitações. Nada no texto bíblico autoriza essa imagem. O querubim das Escrituras tem espada de fogo, faces de leão e de águia, asas que cobrem a arca e um trono sobre a cabeça.

Como os querubins são representados na arte

Antes dos putti, a arte cristã conservou a seriedade bíblica. Alguns modelos ajudam a reconhecer um querubim fiel à Escritura:

  • O tetramorfo: as quatro faces de Ezequiel e os quatro viventes do Apocalipse tornaram-se o homem, o leão, o boi e a águia dos evangelistas, presentes em capas de evangeliários, portais e absides.
  • Os querubins bizantinos: rostos rodeados de asas, muitas vezes cobertas de olhos, que lembram as rodas e os viventes «cheios de olhos» das visões.
  • Os querubins da arca: duas figuras face a face, de asas estendidas, que a arte judaica e cristã reproduziu a partir de Ex 25.
  • O guarda do Éden: o anjo com a espada de fogo nas cenas da expulsão de Adão e Eva.

Recuperar o querubim bíblico é devolver à fé a sua seriedade. Como gostamos de recordar, citando o verso de Rilke na segunda das Elegias de Duíno, «Jeder Engel ist schrecklich», todo anjo é terrível: a beleza do anjo não é um ornamento simpático, é o esplendor do santo, que fascina e faz tremer ao mesmo tempo. Quem quiser conferir como a Escritura descreve de fato essas criaturas pode continuar no artigo sobre como são os anjos segundo a Bíblia.

Os querubins nos Padres e na liturgia

Figuras de quê? Clemente de Alexandria e os querubins da arca

Um dos problemas que os Padres enfrentaram é o mesmo que o artigo levantou acima: como pode o Deus que proíbe fazer imagens para lhes prestar culto mandar fazer duas? Clemente de Alexandria, no fim do século II, responde que os querubins de ouro não retratam um animal que exista no céu:

«Nunquam enim, qui jussit ut ne sculptile quidem fabricaretur simulacrum, ipse sanctorum effinxisset imaginem». «Nunca aquele que mandou que não se fabricasse nem sequer uma imagem esculpida teria ele próprio modelado a imagem de seres santos» (Clemente de Alexandria, Stromata V,6, PG 9, 61).

Cada traço da figura é, para ele, um sinal. O rosto é símbolo da alma dotada de razão, as asas são «ministeria et operationes sublimes», os ministérios e as operações sublimes das potências, e a voz é «φωνὴ δὲ δόξα εὐχάριστος ἐν ἀκαταπαύστῳ θεωρίᾳ», «a voz é o louvor agradecido, na contemplação que não cessa» (ibid.). A leitura é sóbria: o querubim é espírito, e a escultura da arca é símbolo dele, não retrato de um animal do céu nem ídolo.

Os dois querubins que se olham: Cristo no propiciatório

O pormenor de Ex 25,20, os dois querubins de rosto voltado um para o outro e ambos para o propiciatório, foi para os Padres uma das imagens mais fecundas do Antigo Testamento. Cirilo de Alexandria vê no olhar fixo dos querubins o desejo das potências celestes, que não se cansa de contemplar, e diz sem rodeios o que é o propiciatório:

«Τὸ ἱλαστήριον οὖν ἄρα Χριστός». «O propiciatório, portanto, é Cristo» (Cirilo de Alexandria, De adoratione in spiritu et veritate IX, PG 68, 609).

No mesmo passo, o olhar perpétuo dos querubins sobre o propiciatório parece indicar, na versão latina do Migne, «supernarum virtutum intentum, et inexplebile Dei videndi desiderium», «a atenção das virtudes do alto e o seu desejo insaciável de ver a Deus» (ibid.).

São Gregório Magno, no Ocidente, dá à cena uma leitura que se tornaria clássica. Os dois querubins são os dois Testamentos, e o propiciatório entre eles é o Verbo encarnado:

«Et quid per duo cherubim nisi utraque Testamenta signantur? Quid vero per propitiatorium nisi incarnatus Dominus figuratur?». «E que significam os dois querubins senão os dois Testamentos? E que figura o propiciatório senão o Senhor encarnado?» (Gregório Magno, Homiliae in Evangelia II,25, PL 76, 1191).

Os querubins olham-se porque o Antigo e o Novo Testamento não se contradizem. Olham ambos para o propiciatório porque falam ambos de Cristo. Nas homilias sobre Ezequiel, Gregório acrescenta um pormenor do ouro: «Duo autem cherubim ex auro mundissimo facta sunt, quia utraque Testamenta pura ac simplici veritate describuntur», «os dois querubins foram feitos de ouro puríssimo, porque ambos os Testamentos se escrevem com verdade pura e simples» (Homiliae in Hiezechielem I,6, PL 76, 835). Quem lê a Bíblia desta maneira já está, como os querubins, de olhos postos no mesmo centro.

«Tu eras querubim»? Ezequiel 28 entre o hebraico e o grego

A pergunta sobre Lúcifer, tratada acima, ganha precisão quando se compara o texto hebraico com a Septuaginta. O texto massorético, citado acima por inteiro, diz «אַתְּ־כְּרוּב», «tu [eras] querubim», seguido de uma palavra rara que a tradição traduz por «ungido». A tradução grega dos Setenta transmite outra leitura, «com o querubim», talvez por entender a mesma palavra como preposição, talvez por seguir outra tradição do texto hebraico. É esse o texto que comenta Teodoreto de Ciro, no século V:

«Κατεσκευάσθης γὰρ, φησὶ, μετὰ τοῦ Χερούβ, κεχρισμένος παρὰ Θεοῦ». «Pois foste constituído, diz, com o querubim, ungido por Deus» (Teodoreto, In Ezechielem 28,14, PG 81, 1095).

Para Teodoreto, o oráculo ultrapassa o rei de Tiro e descreve um espírito criado santo que caiu: «Talis enim fuit ante lapsum diabolus», «tal foi, de fato, o diabo antes da queda» (ibid., 1096). As «pedras de fogo» do versículo são, para ele, as potências santíssimas, no meio das quais aquele anjo andou.

São Gregório Magno desenvolve outro pormenor do mesmo oráculo. Comentando o versículo anterior, onde o profeta enumera as pedras preciosas que cobriam aquela criatura, escreve: «Ecce novem dixit nomina lapidum, quia profecto novem sunt ordines angelorum», «eis que disse nove nomes de pedras, porque são de fato nove as ordens dos anjos» (Homiliae in Evangelia II,34, PL 76, 1251). O primeiro anjo estava revestido de todas, «quia dum cunctis agminibus angelorum praelatus est, ex eorum comparatione clarior fuit», «porque, posto acima de todas as fileiras dos anjos, brilhava mais do que elas» (ibid.). Gregório sublinha que o primeiro anjo foi posto à frente de todas as fileiras angélicas, sem o fechar num coro determinado.

Ficam assim, lado a lado, três modos de ler o versículo: o hebraico chama querubim à figura do oráculo, os Setenta e Teodoreto põem-na com o querubim, Gregório põe o primeiro anjo à frente de todos os coros. A Igreja, como se disse acima, nunca definiu a que coro pertencia o anjo que caiu, e estas leituras mostram como a questão ficou aberta.

Na liturgia: o trono querúbico e a Mãe de Deus

A Igreja não guardou os querubins apenas nos comentários. Cantou-os. A Liturgia de São João Crisóstomo, ainda hoje celebrada nas Igrejas de rito bizantino, nomeia-os no coração do rito. A oração do Triságio invoca o Deus santo «qui ter sancta voce a Seraphim laudibus celebraris, et a Cherubim glorificaris», «que és celebrado com o triplo santo pelos serafins e glorificado pelos querubins» (PG 63, 909). O sacerdote, ao subir ao lugar alto atrás do altar, bendiz aquele que está no trono da glória do seu reino, «qui sedes super Cherubim», «que te sentas sobre os querubins» (PG 63, 909). Na anáfora, os querubins e os serafins estão presentes «sex alis instructi, multos oculos habentes, sublimes et alati», «com seis asas, cheios de olhos, elevados e alados» (Liturgia de S. João Crisóstomo, versão latina, PG 63, 915).

E na oração que acompanha o hino querúbico, o sacerdote dirige-se a Cristo como àquele «qui super thronum Cherubicum veheris, Seraphinorum Dominus et Rex Israel», «que és levado sobre o trono querúbico, Senhor dos serafins e Rei de Israel» (ibid., PG 63, 911). Os querubins, que na arca formavam o trono sem imagem do Deus invisível, aparecem na liturgia em torno do trono do Verbo feito carne.

É aqui que entra Maria. Se o trono de Deus é querúbico, o que dizer daquela que trouxe Deus no seio? A Liturgia de São João Crisóstomo responde, habitualmente, no hino que se canta depois da consagração (em certas festas é substituído por outro):

«τὴν τιμιωτέραν τῶν Χερουβὶμ καὶ ἐνδοξοτέραν ἀσυγκρίτως τῶν Σεραφίμ». «Mais honrada que os querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os serafins» (hino Ἄξιόν ἐστιν, liturgia bizantina).

A lógica é a mesma dos Padres. Os querubins sustentavam o trono, Maria foi o próprio lugar onde o Verbo se assentou. Por isso a liturgia a coloca acima dos coros mais altos. Não por ser de natureza superior aos anjos, mas por ter sido escolhida para uma proximidade com Deus que nenhum querubim conheceu.

O sentido teológico: a santidade guardada e o caminho reaberto

Que afirma a fé católica por trás dessas imagens? Primeiro, que os querubins existem realmente. O Catecismo ensina:

«A existência dos seres espirituais, não-corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura é tão claro como a unanimidade da Tradição» (CIC 328).

O IV Concílio de Latrão professa que Deus, «desde o princípio do tempo, criou do nada ao mesmo tempo uma e outra criatura, a espiritual e a corporal, isto é, os anjos e o mundo terrestre» (Latrão IV, apud CIC 327). E o Catecismo precisa que, «enquanto criaturas puramente espirituais, são dotados de inteligência e vontade» (CIC 330), criaturas pessoais e imortais. Daqui segue uma regra de leitura sóbria: as quatro faces, as asas e os olhos das visões não são anatomia, são linguagem visionária. O querubim real não tem corpo nenhum. É espírito puro e pessoa, alguém e não algo, e por isso a pergunta certa nunca é apenas «o que é um querubim», mas «quem é».

O sentido teológico da sua missão bíblica é então claro. O querubim marca a distância entre a santidade de Deus e o homem pecador: guarda o Éden, guarda a arca, guarda o véu do santuário. E é precisamente essa guarda que dá a medida do Evangelho. Quando Cristo morre, o véu do templo, aquele véu bordado de querubins, rasga-se de alto a baixo (Mt 27,51, em paráfrase), e a Carta aos Hebreus lê nesse gesto a abertura de um caminho novo e vivo através do véu (Hb 10,19-20, em paráfrase). O caminho da árvore da vida, fechado em Gn 3,24, está reaberto. Os guardiões não foram demitidos: foram transformados em liturgos. Por isso a Igreja, no «Hino querubínico» da liturgia bizantina (CIC 335), une-se a eles na adoração, cantando: «Οἱ τὰ Χερουβὶμ μυστικῶς εἰκονίζοντες», «Nós, que misticamente representamos os querubins». E a tradição contemplou na arca ladeada de querubins uma prefiguração daquela criatura em quem a presença de Deus habitou de modo único, a Virgem Maria. O querubim verdadeiro não enfeita: adora, guarda e aponta para o trono. Exatamente o contrário de um bebê de cartão.

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Perguntas frequentes

O que é um querubim?

O querubim é um anjo, criatura espiritual e pessoal, que a Bíblia apresenta como guardião da santidade de Deus e portador do seu trono. Aparece guardando o Éden (Gn 3,24), sobre a arca da aliança (Ex 25,18-22), no templo de Salomão (1Rs 6) e carregando a glória de Deus nas visões de Ezequiel (Ez 1 e 10). Na hierarquia celeste do Pseudo-Dionísio, os querubins formam o segundo coro, logo abaixo dos serafins.

O que significa querubim?

Querubim vem do hebraico keruv, cujo plural é keruvim, de modo que a forma portuguesa «querubins» é um duplo plural. A etimologia mais aceita liga o termo ao acádico karibu, nome dos gênios guardiões esculpidos às portas dos templos e palácios da Mesopotâmia. A tradição teológica, com o Pseudo-Dionísio e São Tomás de Aquino, interpretou o nome como «plenitude de ciência» (Suma Teológica I, q. 108, a. 5, ad 5).

Onde aparecem os querubins na Bíblia?

A primeira menção é Gn 3,24, onde os querubins guardam com uma espada flamejante o caminho da árvore da vida. Depois aparecem como figuras de ouro sobre o propiciatório da arca (Ex 25,18-22), como estátuas colossais no Santo dos Santos do templo (1Rs 6,23-28), no título divino «que se assenta sobre os querubins» (Sl 80[79],2) e na imagem de Deus que «cavalgou sobre um querubim» (Sl 18[17],11). Em Ezequiel 1 e 10 surgem como os quatro seres viventes que carregam o trono de Deus, e no Novo Testamento são nomeados em Hb 9,5.

Qual é a diferença entre querubim e serafim?

Os serafins aparecem uma única vez na Escritura, em Isaías 6, com seis asas, clamando o «Santo, santo, santo» diante do trono. Os querubins aparecem em muitos textos, com duas ou quatro asas, e têm outro ofício: guardam o Éden e o santuário e sustentam o trono de Deus. Na hierarquia celeste, os serafins formam o primeiro coro e os querubins o segundo. São Tomás resume: os querubins têm a excelência da ciência, os serafins a excelência do ardor.

Os querubins são bebês alados?

Não. A imagem do bebê alado vem dos putti da arte renascentista, meninos decorativos herdados da arte greco-romana, que a linguagem popular confundiu com os querubins. Na Bíblia o querubim é uma figura temível, com faces múltiplas, asas e olhos, posta como guarda entre o homem e a santidade de Deus.

Lúcifer era um querubim?

A ideia vem de Ez 28,14, que chama «querubim ungido» a uma figura num lamento sobre o rei de Tiro. Alguns Padres, como Orígenes (Sobre os princípios I,5,4), leram o texto como referência a uma potência angélica que caiu. É uma leitura tradicional possível, mas a Igreja nunca definiu a que coro angélico pertencia o anjo que se rebelou.

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