Serafim: o que é o anjo ardente de Isaías e o que a Bíblia diz dos serafins

Abóbada de cruzaria em mosaico bizantino sobre ouro na catedral de Cefalù: dois serafins de seis asas em cima e em baixo e dois querubins também de seis asas dos lados, com os nomes em grego, todos com olhos nas asas e cetro na mão, e quatro anjos de auréola e cetro nos cantos (pormenor)

Em resumo

Os serafins são criaturas celestes que a Sagrada Escritura nomeia como tais numa única passagem, a visão do profeta Isaías no templo (Is 6,1-7). O nome hebraico significa «os ardentes». Junto ao trono de Deus, com seis asas cada um, os serafins clamam o triplo «Santo». A tradição teológica posterior os conta como o mais alto dos nove coros angélicos.

O serafim é um anjo da ordem mais alta do céu: o espírito «ardente» que o profeta Isaías viu de pé junto ao trono de Deus (Is 6,1-7). O nome vem do hebraico saraph, da raiz «queimar». Cada serafim tem seis asas e clama «Santo, santo, santo». Na tradição católica, os serafins formam o primeiro dos nove coros angélicos.

Os serafins são seres celestes que a Sagrada Escritura menciona explicitamente uma única vez: na visão inaugural de Isaías, no templo de Jerusalém. Em português, serafim é o singular e serafins o plural, mas em hebraico a forma serafim (שְׂרָפִים) já é plural de saraph (שָׂרָף) e significa literalmente «os ardentes», «os que queimam». Isaías os vê de pé acima do trono de Deus, cada um com seis asas, clamando um ao outro o triplo «Santo» que a liturgia repete até hoje no Sanctus da Missa. Na tradição teológica posterior, sobretudo a partir do Pseudo-Dionísio Areopagita, os serafins passaram a ser contados como o mais alto dos nove coros angélicos, o círculo mais próximo do trono divino.

O que é um serafim

Um serafim é uma criatura puramente espiritual, como todos os anjos. O Catecismo ensina que os anjos, «enquanto criaturas puramente espirituais, são dotados de inteligência e vontade: são criaturas pessoais e imortais» (CIC 330). O serafim não é, portanto, uma força, uma energia ou um símbolo poético: é alguém, uma pessoa criada que conhece e ama a Deus.

O que distingue o serafim é o modo da sua proximidade. A Escritura o mostra junto ao trono, em adoração contínua, e a tradição leu o seu nome como sinal de um amor que arde diante de Deus sem se consumir. Por isso os serafins são chamados os anjos do amor ardente, assim como os querubins são associados à plenitude do conhecimento. Vale notar também o que a Bíblia não diz: nenhum serafim recebe nome próprio. Os únicos anjos nomeados na Escritura canônica são Miguel, Gabriel e Rafael, e a Igreja desaconselha atribuir outros nomes aos anjos (Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, n. 217). Nomes como «arcanjo Seraphiel», que circulam na internet, não pertencem à fé católica.

Abóbada de cruzaria em mosaico bizantino sobre ouro na catedral de Cefalù: dois serafins de seis asas em cima e em baixo e dois querubins também de seis asas dos lados, com os nomes em grego, todos com olhos nas asas e cetro na mão, e quatro anjos de auréola e cetro nos cantos
Mosaicistas bizantinos ao serviço de Rogério II, «Serafins e querubins da abóbada do presbitério», c. 1150, Catedral de Cefalù, Sicília

Significado do nome serafim: os ardentes

A palavra saraph vem da raiz hebraica que significa «queimar», «consumir pelo fogo». O plural serafim designa, portanto, «os ardentes», «os incandescentes». A forma portuguesa «serafins» é, a rigor, um duplo plural: acrescenta o -s português a um termo que já era plural em hebraico, como acontece com «querubins».

Fora de Isaías 6, o Antigo Testamento usa o mesmo termo para as serpentes abrasadoras do deserto (Nm 21,6-8) e para a serpente voadora, saraph me’ofef (Is 14,29 e 30,6), o que levou os exegetas a discutir a imagem de fundo da visão. Em Isaías 6, porém, os serafins são claramente seres pessoais: têm face, pés, asas, mãos e voz, falam, voam e executam um ministério de purificação.

Vale notar que Isaías não os chama mal’akh, a palavra hebraica comum para «mensageiro» ou «anjo», cujo alcance explicamos no artigo sobre o que significa anjo em hebraico. «Anjo» é nome de ofício, não de natureza, como ensina Santo Agostinho citado pelo Catecismo (CIC 329). «Serafim», ao contrário, descreve um modo de ser: a criatura espiritual enquanto abrasada pela proximidade do fogo divino.

A tradição cristã leu nesse nome o símbolo da caridade perfeita. O Pseudo-Dionísio, no capítulo VII de Sobre a hierarquia celeste, explica o nome dos serafins pelas propriedades do fogo, e São Tomás de Aquino resume a sua leitura: «Seraphim dicuntur ardentes, vel incendentes», os serafins são chamados «ardentes» ou «que incendeiam» (Suma teológica I, q. 108, a. 4, obj. 2). E precisa o sentido:

«Nomen Seraphim non imponitur tantum a caritate, sed a caritatis excessu, quem importat nomen ardoris vel incendii.»

«O nome serafim não é dado apenas pela caridade, mas pelo excesso de caridade, que o nome de ardor ou de incêndio exprime» (São Tomás de Aquino, Suma teológica I, q. 108, a. 5, ad 5, tradução nossa).

Na mesma resposta, São Tomás explica, seguindo Dionísio, três propriedades do fogo aplicadas aos serafins: o movimento contínuo para o alto, que significa que tendem a Deus sem desvio, o calor penetrante, com que abrasam e purificam os que lhes estão confiados, e a claridade, sinal de uma luz que não se apaga e que ilumina os outros.

O serafim na Bíblia: a visão de Isaías 6

A cena se passa «no ano da morte do rei Uzias» (Is 6,1), por volta de 740 a.C. O profeta vê o Senhor sentado num trono alto e elevado, e as orlas do seu manto enchem o templo. Acima dele estão os serafins:

שְׂרָפִ֨ים עֹמְדִ֤ים ׀ מִמַּ֙עַל֙ ל֔וֹ שֵׁ֧שׁ כְּנָפַ֛יִם שֵׁ֥שׁ כְּנָפַ֖יִם לְאֶחָ֑ד בִּשְׁתַּ֣יִם ׀ יְכַסֶּ֣ה פָנָ֗יו וּבִשְׁתַּ֛יִם יְכַסֶּ֥ה רַגְלָ֖יו וּבִשְׁתַּ֥יִם יְעוֹפֵֽף׃

«Serafins estavam de pé acima dele. Seis asas, seis asas tinha cada um: com duas cobria a sua face, com duas cobria os seus pés e com duas voava» (Is 6,2, tradução literal do texto massorético).

וְקָרָ֨א זֶ֤ה אֶל־זֶה֙ וְאָמַ֔ר קָד֧וֹשׁ ׀ קָד֛וֹשׁ קָד֖וֹשׁ יְהֹוָ֣ה צְבָא֑וֹת מְלֹ֥א כׇל־הָאָ֖רֶץ כְּבוֹדֽוֹ׃

«E clamava um ao outro, dizendo: Santo, santo, santo, o Senhor dos exércitos, a plenitude de toda a terra é a sua glória» (Is 6,3, tradução literal. «Senhor» traduz o tetragrama divino, que a tradição judaica e a Igreja não pronunciam).

Ao clamor, os umbrais estremecem e o templo se enche de fumaça. Isaías se reconhece «homem de lábios impuros» (Is 6,5) e recebe então o único gesto que a Escritura atribui a um serafim além do louvor:

וַיָּ֣עׇף אֵלַ֗י אֶחָד֙ מִן־הַשְּׂרָפִ֔ים וּבְיָד֖וֹ רִצְפָּ֑ה בְּמֶ֨לְקַחַ֔יִם לָקַ֖ח מֵעַ֥ל הַמִּזְבֵּֽחַ׃ וַיַּגַּ֣ע עַל־פִּ֔י וַיֹּ֕אמֶר הִנֵּ֛ה נָגַ֥ע זֶ֖ה עַל־שְׂפָתֶ֑יךָ וְסָ֣ר עֲוֺנֶ֔ךָ וְחַטָּאתְךָ֖ תְּכֻפָּֽר׃

«E voou até mim um dos serafins, e em sua mão uma brasa, que com tenazes tomara de sobre o altar. E fê-la tocar a minha boca e disse: Eis que isto tocou os teus lábios, afastou-se a tua iniquidade e o teu pecado é expiado» (Is 6,6-7, tradução literal).

O ardente purifica com fogo. A sua proximidade de Deus não o fecha em si mesmo: torna-o ministro da santidade que contempla, e da purificação nasce a missão do profeta («הִנְנִ֥י שְׁלָחֵֽנִי», «eis-me, envia-me», Is 6,8).

O Novo Testamento não volta a usar a palavra serafim, mas o Apocalipse retoma a cena de Isaías. Os quatro seres vivos ao redor do trono têm, cada um, seis asas, «ἓν καθ’ ἓν αὐτῶν ἔχων ἀνὰ πτέρυγας ἕξ», e não cessam de dizer «Ἅγιος ἅγιος ἅγιος Κύριος ὁ Θεός ὁ Παντοκράτωρ», «Santo, santo, santo, Senhor Deus todo-poderoso» (Ap 4,8). Para conhecer os outros textos em que os anjos aparecem, veja o nosso guia dos anjos na Bíblia.

As seis asas do serafim

O detalhe mais célebre da visão é a distribuição das seis asas, que o próprio texto explica. Com duas o serafim cobre a face: nem a mais alta das criaturas pode fitar diretamente a glória de Deus, e o gesto é adoração e reverência. Com duas cobre os pés: na linguagem bíblica, o gesto vela a criatura diante do Criador e confessa que mesmo o ardente é criatura, não Deus. Com duas voa: permanece pronto para o serviço, como mostra o voo até Isaías com a brasa do altar.

Quatro asas cobrem, duas servem. A proporção já é uma teologia: nos serafins, a adoração precede e envolve a missão. E o conjunto da cena corrige uma imagem piedosa que se tornou hábito. O serafim de Isaías não é o menino alado da arte tardia, que os retábulos confundiram com os querubins. É uma presença tremenda, diante da qual o profeta se sente perdido, e que Rilke ainda intuía ao escrever que todo anjo é terrível. Recuperar essa beleza numinosa, que fascina e faz tremer ao mesmo tempo, é devolver à fé nos anjos a sua seriedade, contra toda a banalização esotérica ou sentimental.

O lugar dos serafins na hierarquia celeste

A partir dos nomes que a Escritura fornece, a tradição organizou o mundo angélico em coros. O Pseudo-Dionísio Areopagita, na obra Sobre a hierarquia celeste (séculos V e VI), colocou os serafins no vértice da primeira tríade, acima dos querubins e dos tronos, esquema que São Gregório Magno e São Tomás de Aquino retomaram e que se fixou na lista dos nove coros dos anjos. São Tomás resume a ordem da primeira hierarquia segundo Dionísio: «Seraphim ut primos, Cherubim ut medios, thronos ut ultimos», os serafins como primeiros, os querubins como intermediários, os tronos como últimos (Suma teológica I, q. 108, a. 6, sed contra).

A razão é o próprio nome. Para São Tomás, os coros da primeira hierarquia são nomeados pela sua relação imediata com Deus, e os serafins «excellunt in hoc quod est omnium supremum, scilicet Deo ipsi uniri», sobressaem naquilo que é o mais alto de tudo, isto é, unir-se ao próprio Deus (Suma teológica I, q. 108, a. 6, tradução nossa). Se o nome diz «ardente», o serafim é o espírito mais abrasado pelo amor de Deus, e por isso o mais próximo.

Uma pergunta antiga nasce daqui: se os serafins são os mais altos, como pode um deles ser enviado a Isaías? O próprio Dionísio dedica a isso o capítulo XIII da Hierarquia celeste, e São Tomás recolhe a resposta: segundo uma leitura, o anjo enviado era de ordem inferior e «dictus est Seraphim, idest incendens, aequivoce, propter hoc quod venerat ad incendendum labia prophetae», foi chamado serafim, isto é, o que incendeia, em sentido impróprio, porque viera incendiar os lábios do profeta. Segundo outra, o serafim purificou por meio de um anjo inferior que agia pela sua virtude (Suma teológica I, q. 112, a. 2, ad 2, tradução nossa).

Importa distinguir os planos. A existência dos anjos é doutrina segura: «A existência dos seres espirituais, não-corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé» (CIC 328). Já a divisão em nove coros é teologia venerável, não dogma, como explicamos no artigo sobre a hierarquia dos anjos segundo a Bíblia. E a própria hierarquia dionisiana deve ser bem lida: não como pirâmide de poder, mas como cadeia de iluminação, em que o superior não domina o inferior, ilumina-o, transmitindo a luz que ele mesmo recebe. Nesse quadro, os serafins são os primeiros espelhos da glória, ao lado de outras figuras da visão profética, como as misteriosas rodas de Ezequiel, cheias de olhos ao redor (Ez 1,18).

Serafim e querubim: qual é a diferença

Serafins e querubins são muitas vezes confundidos, inclusive na arte. A Escritura e a tradição, porém, os distinguem com clareza:

SerafimQuerubim
Nome hebraicosaraph, plural serafim: «ardente»keruv, plural keruvim (etimologia discutida)
Onde aparece na BíbliaSó em Is 6,1-7Muitas vezes: Gn 3,24, Ex 25,18-22, Ez 1 e 10, entre outros
AsasSeis (Is 6,2)Quatro na visão de Ezequiel (Ez 1,6, cf. Ez 10,20)
O que fazemAdoram, clamam o triplo «Santo» e purificam o profetaGuardam o Éden, cobrem a arca com as asas, sustentam o trono de Deus
Excelência própria (São Tomás)O ardor da caridadeA plenitude da ciência
Lugar nos nove corosPrimeiro coroSegundo coro

São Tomás condensa a diferença numa frase: «Cherubim habent excellentiam scientiae; Seraphim vero excellentiam ardoris», os querubins têm a excelência da ciência, os serafins a excelência do ardor (Suma teológica I, q. 108, a. 5, ad 6, tradução nossa). Os dois coros não se opõem: conhecer e amar a Deus andam juntos, mas na ordem da proximidade o amor que une está acima do conhecimento que contempla.

Como os serafins são representados na arte

A arte cristã guardou sobretudo o traço que o texto oferece: as seis asas. Na iconografia oriental e medieval, o serafim aparece muitas vezes reduzido a um rosto envolto em seis asas, duas erguidas, duas abertas e duas cruzadas, quase uma chama alada junto ao trono de Deus. É comum vê-los em tons de fogo, coerentes com o seu nome.

A imagem mais conhecida do Ocidente se liga a São Francisco de Assis. Segundo a Legenda maior de São Boaventura (cap. XIII), no monte Alverne, em 1224, Francisco viu descer do céu um serafim de seis asas, entre as quais aparecia a figura de um homem crucificado, e depois da visão trazia no corpo os estigmas da Paixão. Desde então os franciscanos são chamados a ordem seráfica, Francisco o pai seráfico e o próprio Boaventura o Doutor Seráfico. O serafim se tornou, assim, figura do amor que configura a Cristo crucificado.

Mais problemática é a tendência da arte tardia de reduzir serafins e querubins a cabecinhas aladas de crianças, os putti. Essa imagem nada tem de bíblico e enfraquece o que Isaías viu: uma santidade que faz tremer.

Os serafins nos Padres e na tradição bizantina

«Os que incendeiam»: São Jerônimo e o nome dos serafins

São Jerônimo, que traduziu Isaías do hebraico, é a testemunha antiga mais atenta ao nome. No comentário ao profeta explica que os serafins se interpretam como «incendentes, sive comburentes», «os que incendeiam, ou os que queimam» (Jerônimo, Commentarii in Isaiam III, PL 24, 94). E anota uma coisa que hoje se esquece: como seres de pé em volta do Senhor, diz ele, «in Scripturis Canonicis alibi legisse me nescio», «não me lembro de os ter lido em outro lugar das Escrituras canônicas» (ibid.). A palavra aparece noutros lugares, mas para as serpentes ardentes do deserto, como se viu acima.

Daí tira uma correção curiosa à piedade do seu tempo. Havia quem rezasse «Qui sedes super Cherubim et Seraphim», «tu que te sentas sobre os querubins e os serafins». Jerônimo observa que a Escritura diz que Deus se senta sobre os querubins, mas dos serafins diz apenas que estão de pé à sua volta, e conclui que essa fórmula é algo «quod Scriptura non docuit», «que a Escritura não ensinou» (ibid.). A teologia dos anjos, para ele, começava por ler com exatidão.

Dois serafins e a Trindade: a leitura de Orígenes e a resposta de Jerônimo

Orígenes, no século III, recolheu uma interpretação que vinha, segundo ele, de um hebreu: os serafins que clamam um ao outro, que ele entendia como dois, seriam o próprio Filho e o Espírito Santo. O grego original conservou-se num fragmento citado pelo imperador Justiniano:

«Ἔλεγε δὲ ὁ Ἑβραῖος τὰ ἐν τῷ Ἡσαΐᾳ δύο σεραφὶμ ἑξαπτέρυγα […] τὸν Μονογενῆ εἶναι τοῦ Θεοῦ καὶ τὸ Πνεῦμα τὸ ἅγιον». «Dizia o hebreu que os dois serafins de seis asas em Isaías […] são o Unigênito de Deus e o Espírito Santo» (Orígenes, De principiis I,3,4, PG 11, 147).

Na versão latina de Rufino, o «hebreu» tornou-se um «mestre hebreu»: «Dicebat autem et Hebraeus magister, quod duo illa seraphim quae in Esaia senis alis describuntur clamantia adinvicem […] de unigenito Filio Dei et Spiritu sancto essent intelligenda» (ibid., PG 11, 148).

Jerônimo rejeitou essa leitura no seu comentário, porque punha o Filho e o Espírito entre os seres que estão de pé em torno do trono, o que não se concilia com a fé na sua divindade, e o editor do Migne anota que é a Orígenes que ele se refere. A razão que dá é tirada do próprio Novo Testamento. Segundo o evangelista João, quem Isaías viu reinar em majestade foi o Filho de Deus (Jo 12,41), e segundo o apóstolo Paulo quem falou pela boca do profeta foi o Espírito Santo (At 28,25). O Filho é aquele que o profeta viu, o Espírito aquele que falou, e não estão entre os que o rodeiam. E Jerônimo regista a leitura que alguns latinos preferiam: «Quidam Latinorum duo Seraphim, vetus et novum Instrumentum intelligunt», «alguns latinos entendem os dois serafins como o Antigo e o Novo Testamento» (Jerônimo, Commentarii in Isaiam III, PL 24, 96).

A leitura que a tradição recebeu não identifica os serafins com as Pessoas divinas. Os serafins são criaturas, e a Trindade é aquele que eles adoram.

A brasa e a tenaz: Cristo, fogo que habita a madeira

Um pormenor que muito ocupou os Padres é o gesto de Is 6,6, o serafim que toma do altar uma brasa com tenazes e purifica os lábios do profeta. São Cirilo de Alexandria vê nessa cena o mistério de Cristo prefigurado diante dos olhos do profeta: «Mittitur itaque e Seraphim unus, carbonem habens, quem de ara sumpsit forcipe. Haec demum erat Christi significatio», «é enviado, portanto, um dos serafins, tendo uma brasa que tomou do altar com a tenaz. Isto era, afinal, figura de Cristo» (Cirilo de Alexandria, In Isaiam I, or. 4, PG 70, 181).

E explica porquê, com uma imagem que ficou na teologia da Encarnação:

«Ὥσπερ οὖν ὁ ἄνθραξ ξύλον ἐστὶ τῇ φύσει, πλὴν ὅλος δι᾿ ὅλου μεμέστωται τοῦ πυρός». «Assim como a brasa é madeira pela natureza, mas está toda inteira cheia do fogo» (ibid., PG 70, 181).

A imagem diz por analogia a união do Verbo com a carne que assumiu. Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, e na brasa a madeira não deixa de ser madeira nem o fogo de ser fogo.

Teodoreto de Ciro, no mesmo século, lê ainda o canto dos serafins como profecia. Quando eles proclamam que a terra inteira está cheia da glória de Deus, anunciam o que só a vinda de Cristo realizou: «Hoc vero Dei et Salvatoris nostri egit incarnatio», «isto o fez a encarnação do nosso Deus e Salvador», porque depois dela os povos foram banhados pelo raio do conhecimento de Deus (Teodoreto, In Isaiam 6,3, PG 81, 267).

Todo o povo com os serafins: um testemunho antigo do Sanctus

O artigo explica acima como o triplo «Santo» passou para a Missa. Um testemunho antigo desse uso está nas Constituições Apostólicas, compiladas na Síria no fim do século IV. A oração eucarística nomeia os querubins e «τὰ ἑξαπτέρυγα σεραφίμ», «os serafins de seis asas», que clamam sem cessar, e prescreve:

«καὶ πᾶς ὁ λαὸς ἅμα εἰπάτω· Ἅγιος, ἅγιος, ἅγιος Κύριος Σαβαώθ, πλήρης ὁ οὐρανὸς καὶ ἡ γῆ τῆς δόξης αὐτοῦ». «E todo o povo diga em conjunto: Santo, santo, santo, Senhor dos exércitos, o céu e a terra estão cheios da sua glória» (Constitutiones Apostolicae VIII,12, PG 1, 1101).

Não é o coro sozinho que canta, é todo o povo. A assembleia junta a sua voz à dos serafins, exatamente como o Catecismo continua a ensinar.

Mais gloriosa que os serafins: Maria, a tenaz que segurou o fogo

Se a brasa é Cristo, o que é a tenaz que a segurou sem arder? Um pregador bizantino do século XII respondeu: é a Virgem. Tiago Monge, na homilia sobre a Apresentação de Maria no Templo, chama-lhe a tenaz anunciada pelo profeta:

«ταύτην ἡ προφητικὴ λαβὶς ἐξεικόνισεν, ἡ τὸν ἄνθρακα φέρουσα καὶ τὰ χείλη καθαίρουσα». «Foi ela que a tenaz profética prefigurou, a que trazia a brasa e purificava os lábios» (Tiago Monge, Oratio in Praesentationem SS. Deiparae, PG 127, 611).

A imagem diz o mistério da maternidade divina. Maria trouxe no seio o Verbo de Deus feito homem e não foi consumida, assim como a sarça de Moisés ardia sem se queimar. Por isso a Liturgia de São João Crisóstomo, habitualmente, no hino que se canta depois da consagração, a coloca acima dos coros mais altos:

«τὴν τιμιωτέραν τῶν Χερουβὶμ καὶ ἐνδοξοτέραν ἀσυγκρίτως τῶν Σεραφίμ». «Mais honrada que os querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os serafins» (hino Ἄξιόν ἐστιν, liturgia bizantina).

Na visão de Isaías, o serafim tomou a brasa com uma tenaz. Maria trouxe-a no seio. Nisto está a sua glória acima dos serafins: não numa natureza mais alta, mas numa proximidade com o Verbo que nenhum anjo conheceu.

Os serafins na liturgia: Sanctus, Te Deum e triságio

O triplo «Santo» de Is 6,3 não ficou no livro do profeta. Passou para o culto da Igreja e se tornou o Sanctus, a aclamação com que termina o Prefácio e se abre o coração da Oração Eucarística em cada Missa: «Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth. Pleni sunt caeli et terra gloria tua». O Catecismo da Igreja Católica ensina expressamente:

«Na sua liturgia, a Igreja associa-se aos anjos para adorar a Deus três vezes santo» (CIC 335).

Associar-se: o verbo é decisivo. No Sanctus a Igreja não imita os anjos de longe, une-se realmente ao louvor que eles nunca interromperam. A liturgia da terra é a liturgia do céu já começada, e a assembleia visível se descobre rodeada da assembleia invisível. O mesmo se canta no Te Deum, o hino de ação de graças da Igreja: «Tibi Cherubim et Seraphim incessabili voce proclamant: Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth», a ti os querubins e os serafins proclamam com voz incessante: Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos exércitos.

Ao triplo «Santo» se dá também o nome de triságio, do grego tris hagios, «três vezes santo». Convém não confundir: na liturgia bizantina, o hino chamado Triságio é outro canto, distinto do Sanctus, embora ambos celebrem a mesma santidade tríplice que a tradição leu à luz da Trindade.

O Diretório sobre a piedade popular e a liturgia recorda, na mesma linha, que os fiéis sabem que os anjos «lodano incessantemente il Signore», louvam incessantemente o Senhor, citando precisamente Is 6,1-4 (Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, n. 214, tradução nossa). Daqui se vê que o lugar próprio do serafim não é a cosmologia antiga, que passou, mas o culto, que permanece: definido pela função cósmica, o anjo cai com a cosmologia. Definido pelo ofício litúrgico, é tão perene quanto a adoração. Os serafins são, por assim dizer, os liturgos por excelência do templo do universo.

Perguntas frequentes

O que é um serafim?

O serafim é um anjo da ordem mais alta do céu, a criatura espiritual «ardente» que o profeta Isaías viu de pé junto ao trono de Deus, com seis asas, clamando «Santo, santo, santo» (Is 6,1-7). Como todos os anjos, é uma criatura pessoal, dotada de inteligência e vontade (CIC 330). A tradição católica conta os serafins como o primeiro dos nove coros angélicos.

O que significa a palavra serafim?

Serafim vem do hebraico saraph, da raiz que significa «queimar». Em hebraico, serafim já é plural e quer dizer «os ardentes», «os que queimam». Em português, serafim é o singular e serafins o plural. O nome descreve criaturas abrasadas pela proximidade de Deus, e a tradição leu nele o símbolo da caridade perfeita.

Onde o serafim aparece na Bíblia?

Os serafins aparecem explicitamente uma única vez em toda a Bíblia, na visão inaugural de Isaías no templo de Jerusalém (Is 6,1-7). Ali cantam o triplo «Santo» diante do trono de Deus e um deles purifica os lábios do profeta com uma brasa do altar. O Apocalipse retoma a cena com quatro seres vivos de seis asas (Ap 4,8), mas sem usar a palavra serafim.

Por que o serafim tem seis asas?

O próprio texto de Isaías explica: com duas asas o serafim cobre a face, em reverência diante da glória que nem ele pode fitar, com duas cobre os pés, confessando que é criatura, e com duas voa, pronto para servir (Is 6,2). Quatro asas adoram e duas servem: nos serafins a adoração precede e envolve a missão.

Qual é a diferença entre serafim e querubim?

O serafim é o «ardente», aparece só em Isaías 6 e tem seis asas. O querubim aparece muitas vezes na Bíblia (Gn 3,24, Ex 25, Ez 1 e 10), guarda o Éden, cobre a arca e sustenta o trono, e na visão de Ezequiel tem quatro asas. Segundo São Tomás, os querubins têm a excelência da ciência e os serafins a excelência do ardor da caridade (Suma teológica I, q. 108, a. 5, ad 6).

Os serafins são os anjos mais altos?

Na classificação tradicional dos nove coros, sistematizada pelo Pseudo-Dionísio e retomada por São Gregório Magno e São Tomás, os serafins ocupam o primeiro lugar, acima dos querubins e dos tronos. Essa hierarquia é teologia venerável, não dogma definido. De fé é a existência dos anjos como criaturas espirituais e pessoais (CIC 328).

Os serafins pertencem ao mesmo mundo dos anjos que a Escritura nomeia, como o arcanjo Gabriel, que se apresenta «ἐνώπιον τοῦ Θεοῦ», «diante de Deus» (Lc 1,19). Quem quiser aprofundar o estudo dos anjos com rigor acadêmico pode conhecer a pós-graduação em Angeologia e Demonologia da Locus Mariologicus.

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