Como são os anjos segundo a Bíblia: a aparência real

São Miguel de armadura dourada combate o dragão do Apocalipse e os anjos rebeldes, que caem do céu como monstros (pormenor)

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Em resumo

Segundo a Bíblia, os anjos manifestam-se com aparências variadas, desde mensageiros de aspecto humano sem asas visíveis até serafins ardentes de seis asas (Is 6,1-7) e seres viventes de quatro faces (Ez 1,4-28), que Ez 10 identifica como querubins. O temor que habitualmente suscitam sugere aparições mais impressionantes e menos sentimentais do que as representações artísticas medievais e modernas.

Como são os anjos na Bíblia?

A imagem popular dos anjos, seres alados, de feições humanas delicadas, com vestes brancas, não corresponde exatamente às descrições bíblicas. As Escrituras hebraicas e gregas apresentam uma variedade surpreendente de figuras angélicas, desde mensageiros com aspecto humano até seres de espanto cósmico. Uma característica constante das aparições angélicas na Bíblia é a reação dos humanos: terror, prostração, necessidade de ser encorajado (“Não temas”). Isto sugere que a aparência dos anjos bíblicos era muito mais impressionante e menos sentimental do que as representações artísticas medievais e modernas.

São Miguel de armadura dourada ergue a espada contra o dragão, e anjos de túnica branca expulsam do céu os rebeldes, transformados em monstros
Pieter Bruegel, o Velho, «A Queda dos Anjos Rebeldes», 1562, Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica, Bruxelas

Anjos com aspecto humano

A forma mais comum de aparição angélica na Bíblia é a de um homem (género masculino em hebraico e grego): os três visitantes de Abraão em Gn 18,1-3 são inicialmente percebidos como “três homens”. O anjo que luta com Jacob em Gn 32,25-29 tem forma humana. Os dois anjos que entram em Sodoma são tratados como homens pelos sodomitas (Gn 19,1-5). Tobias 5,4-8 descreve Rafael como “um jovem belo e resplandecente”. Estes anjos não têm asas visíveis. A sua natureza sobrenatural revela-se pela ação, não pela aparência exterior.

Os serafins de Isaías 6

Isaías 6,1-7 descreve os serafins: “cada um tinha seis asas: com duas cobriam o rosto, com duas cobriam os pés, e com duas voavam”. Gritavam alternadamente: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos”. A voz dos serafins fazia vibrar os umbrais da porta e o Templo encheu-se de fumo. Os serafins não são representados com aspecto humano primário: são seres de fogo (o nome hebraico saraf significa “queimar”) com múltiplas asas. Este texto, fonte do Sanctus litúrgico, apresenta uma das imagens mais impressionantes do reino angélico na Bíblia.

Os querubins de Ezequiel 1

Ezequiel 1,4-28 descreve a visão inicial do profeta: quatro seres viventes (identificados em Ez 10 como querubins), cada um com quatro faces (homem, leão, touro, águia) e quatro asas. As suas pernas eram rectas como colunas, as suas solas brilhantes como bronze polido. Debaixo das asas tinham mãos humanas. Giravam junto com rodas dentro de rodas, cobertas de olhos. Esta visão teofânica está na base da iconografia dos quatro evangelistas (homem/Mateus, leão/Marcos, touro/Lucas, águia/João). Os querubins de Ezequiel são radicalmente diferentes dos putti rechonchudos da arte barroca.

Gabriel e Miguel: os arcanjos com nomes

Gabriel aparece em Daniel 8,15-17 como “um que tinha aspecto de homem” que se aproxima de Daniel e o faz prostrar-se de terror. Em Lc 1,26-28 entra simplesmente onde estava Maria, sem descrição de asas ou de terror imediato. Miguel aparece em Daniel 10,13 como “um dos primeiros príncipes” e em Judas v.9 em disputa com o diabo pelo corpo de Moisés. Ap 12,7-9 descreve a batalha de Miguel e os seus anjos contra o dragão. Rafael em Tobias 12,15 identifica-se como “um dos sete anjos que assistem diante do Senhor”. Em nenhum destes textos se descrevem asas visíveis nos três arcanjos.

O anjo do Senhor

Uma categoria especial na Bíblia hebraica é o mal’akh YHWH, o “Anjo do Senhor”, que frequentemente é identificado com o próprio Deus na narrativa (Gn 16,7-13. Ex 3,2-6. Jz 6,12-22). Esta figura enigmática levou os Padres da Igreja a interpretá-la como uma teofania pré-encarnada do Verbo, embora a exegese moderna prefira ver o padrão narrativo de “representação por procuração” (o mensageiro é tratado como o próprio remetente). Em todo o caso, a experiência do encontro com o mal’akh é sempre de carácter divino: temor, proibição de ver o rosto, transformação do interlocutor.

Galeria: os anjos como a Bíblia os descreve

Como a Igreja lê a aparência dos anjos: Padres, Magistério, liturgia e arte

Porque é que a Escritura usa figuras estranhas

O artigo mostrou que os anjos da Bíblia não se parecem com os das estampas. Um dos autores mais lidos da Antiguidade cristã, o que escreve sob o nome de Dionísio Areopagita, provavelmente entre o fim do século V e o início do VI, dedicou a essa diferença um capítulo inteiro da Hierarquia celeste. A sua tese é que a Escritura escolhe de propósito figuras «dessemelhantes», que ninguém confundiria com a realidade:

«Τιμῶσι τοιγαροῦν, οὐκ αἴσχους ἀποπληροῦσι, τὰς οὐρανίους διακοσμήσεις καὶ αἱ τῶν λογίων ἱερογραφίαι, ταῖς ἀνομοίοις αὐτὰς μορφοποιίαις ἐκφαίνουσαι». «Assim, as descrições sagradas da Escritura honram as ordens celestes, e não as cobrem de vergonha, quando as manifestam por figuras dessemelhantes» (Pseudo-Dionísio, De coelesti hierarchia II,3, PG 3, 141-142).

O perigo, diz ele, está precisamente nas imagens bonitas, e a sua advertência aplica-se também aos anjos belos e luminosos das estampas devocionais:

«εἰς μὲν γὰρ τὰς τιμιωτέρας ἱεροπλαστίας εἰκός ἐστι καὶ πλανηθῆναι, χρυσοειδεῖς τινας οἰομένους εἶναι τὰς οὐρανίας οὐσίας, καὶ φωτοειδεῖς τινας ἄνδρας, καὶ ἐξαστράπτοντας, εὐπρεπεῖς, ἠμφιεσμένους ἐσθῆτα φανήν». «Nas figurações mais nobres é fácil enganarmo-nos, julgando que as essências celestes são como que de ouro, ou certos homens luminosos, resplandecentes, formosos, vestidos de veste brilhante» (ibid., PG 3, 141-142).

A estranheza das figuras bíblicas, os animais, as rodas, o bronze, os olhos, não é um defeito do texto. É uma pedagogia: impede o leitor de parar na imagem e obriga-o a perguntar o que ela significa.

O fogo, a figura humana, as asas e as vestes

No fim da mesma obra, Dionísio explica uma a uma as imagens que a Escritura dá aos anjos. O fogo exprime a semelhança com Deus, porque o próprio Deus é muitas vezes descrito em fogo:

«Τὸ μὲν οὖν πυρῶδες ἐμφαίνειν οἴομαι τὸ τῶν οὐρανίων νοῶν θεοειδέστατον». «Penso que o ígneo exprime o que há de mais semelhante a Deus nas inteligências celestes» (De coelesti hierarchia XV,2, PG 3, 329-330).

A figura humana não diz que os anjos têm corpo, diz que são inteligentes e livres, porque o homem, mais fraco nos sentidos do que os animais, domina-os pela inteligência (ibid. XV,3, PG 3, 329-330). E das asas fala a propósito de uma imagem que hoje quase esquecemos, a dos pés alados:

«διὸ καὶ ὑποπτέρους ἡ θεολογία τοὺς τῶν ἁγίων νοῶν ἐσχημάτισε πόδας. Τὸ γὰρ πτερὸν ἐμφαίνει τὴν ἀναγωγικὴν ὀξύτητα, καὶ τὸ οὐράνιον». «Por isso a teologia representou com asas os pés das inteligências santas. A asa exprime a prontidão que eleva e o que é celeste» (ibid. XV,3, PG 3, 331-332).

As vestes brancas e luminosas, como as das figuras do sepulcro que a tradição identifica com anjos (Mc 16,5, Lc 24,4, cf. Mt 28,2-5, Jo 20,12), podem ler-se à luz da mesma explicação: «Τὴν μὲν γὰρ φανὴν ἐσθῆτα καὶ τὴν πυρώδη σημαίνειν οἴομαι τὸ θεοειδές», «a veste brilhante e ígnea, penso que significa a semelhança com Deus» (ibid. XV,4, PG 3, 333-334). Asas, fogo e luz não descrevem uma anatomia, mas aquilo que o anjo é diante de Deus.

O que é, afinal, um anjo

A fé da Igreja diz pouco sobre o aspeto dos anjos e muito sobre a sua natureza. O IV Concílio de Latrão, em 1215, contra os cátaros que atribuíam a criação a dois princípios, confessou que Deus

«simul ab initio temporis utramque de nihilo condidit creaturam, spiritualem et corporalem, angelicam videlicet et mundanam: ac deinde humanam, quasi communem ex spiritu et corpore constitutam». «desde o princípio do tempo criou do nada, ao mesmo tempo, uma e outra criatura, a espiritual e a corporal, isto é, a angélica e a mundana, e depois a humana, como que comum, constituída de espírito e de corpo» (IV Concílio de Latrão, cap. 1, DS 800).

O Concílio Vaticano I retomou a mesma fórmula, palavra por palavra, em 1870 (Dei Filius, cap. 1, DS 3002). O Catecismo, que cita os dois textos, tira a consequência para a nossa pergunta: «anjo» é nome de ofício, não de natureza. Quanto à natureza, o anjo é espírito, criatura puramente espiritual, pessoal e imortal, e chama-se anjo quando é enviado (CIC 329-330, que cita aqui Santo Agostinho). O que se vê numa aparição não mostra a natureza espiritual do anjo em si, mas uma forma sensível sob a qual Deus permite que o mensageiro seja percebido.

Os anjos na liturgia

Nas orações da Missa, a liturgia latina sublinha mais o louvor e o ministério dos anjos do que a sua aparência. O prefácio comum do Missal Romano exprime assim a união da Igreja com o canto deles:

«Per quem maiestatem tuam laudant Angeli, adorant Dominationes, tremunt Potestates. Caeli caelorumque Virtutes, ac beata Seraphim, socia exsultatione concelebrant. Cum quibus et nostras voces ut admitti iubeas, deprecamur». «Por Ele louvam os Anjos a vossa majestade, adoram-na as Dominações, tremem as Potestades. Os céus e as Virtudes dos céus e os bem-aventurados Serafins celebram-na juntos em comum exultação. Com eles, pedimos, mandai que sejam admitidas também as nossas vozes» (Missale Romanum 1962, prefácio comum).

No coração do Cânon, o sacerdote pede que a oferta seja levada «per manus sancti Angeli tui in sublime altare tuum», «pelas mãos do vosso santo Anjo ao vosso altar sublime» (ibid., Supplices te rogamus). E a oração da festa de 29 de setembro resume num traço central da angeologia litúrgica, o ministério dos anjos no céu e a sua proteção sobre os homens:

«Deus, qui, miro ordine, Angelorum ministeria hominumque dispensas: concede propitius, ut, a quibus tibi ministrantibus in caelo semper assistitur, ab his in terra vita nostra muniatur». «Ó Deus, que dispondes com admirável ordem os ministérios dos Anjos e dos homens, concedei propício que a nossa vida seja protegida na terra por aqueles que no céu Vos servem e estão sempre na vossa presença» (Missale Romanum 1962, 29 de setembro, oração).

Quando é que os anjos ganharam asas na arte

A arte cristã demorou a dar asas aos anjos. Henri Leclercq, no grande Dictionnaire d’archéologie chrétienne et de liturgie, já o notava no princípio do século XX: «L’usage de donner des ailes aux anges est tardif», «o costume de dar asas aos anjos é tardio», e os monumentos cristãos mais antigos representam geralmente o anjo sem asas (DACL I, col. 2080). Leclercq sugere que a razão foi a prudência diante de um tipo pagão muito difundido, os gênios e as vitórias aladas (ibid., cols. 2080-2081). É uma explicação dele, e a cronologia exata das primeiras asas deve ser vista em estudos mais recentes. As asas das imagens cristãs apoiam-se em motivos bíblicos, como os serafins e os querubins alados, mas a sua fixação na arte deu-se no ambiente da arte tardo-antiga. E não vêm da descrição dos mensageiros que, na Bíblia, aparecem «como homens».

Referências

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. n. 329-330.

DENZINGER, Heinrich e HÜNERMANN, Peter (ed.). Enchiridion symbolorum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum. Edizione bilingue. Bologna: EDB, 1996. Números DS citados: 800 (IV Concílio de Latrão, cap. 1) e 3002 (Concílio Vaticano I, Dei Filius, cap. 1).

LECLERCQ, Henri. Anges. In: CABROL, Fernand e LECLERCQ, Henri (dir.). Dictionnaire d’archéologie chrétienne et de liturgie. Paris: Letouzey et Ané, [1903-1907]. t. 1, parte 2, col. 2080-2081.

MISSALE ROMANUM. Editio typica 1962. Città del Vaticano: Typis Vaticanis, 1962. Prefácio comum, Supplices te rogamus e oração de 29 de setembro.

PSEUDO-DIONÍSIO AREOPAGITA. De coelesti hierarchia II,3 e XV,2-4. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Graeca. Paris: J.-P. Migne, [1857-1866]. v. 3, col. 141-142, 329-334.

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