História do Rosário: do saltério medieval à bula de Pio V

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Rosarium, seu Psalterium ejusdem beatae Mariae Virginis nuncupatum.
«Chamado Rosário, ou Saltério da bem-aventurada Virgem Maria» (São Pio V, Consueverunt Romani Pontifices, 1569)
O Rosário não nasceu de uma vez. A forma que hoje conhecemos, com dezenas de Ave-Marias, um Pai-Nosso em cada dezena e mistérios para meditar, formou-se ao longo de cerca de quatro séculos, entre o século XII e o século XVI. Seguir essa história ajuda a entender o que a oração é (STAID, 1986, p. 1207-1208, SHEA, 1961, p. 110-113).
Do saltério dos salmos ao saltério de Maria
A raiz é monástica. Os monges rezavam os 150 salmos. Para os irmãos que não sabiam ler, criaram-se «saltérios» de substituição, com 150 Pai-Nossos ou com 150 saudações à Virgem. No início do século XII difunde-se a recitação da saudação do anjo, que já se conhecia do Evangelho e da liturgia, mas só na sua primeira parte, a evangélica: as palavras de Gabriel e de Isabel. A segunda parte, «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós», começou a difundir-se no fim do século XV e só depois entrou no Rosário (STAID, 1986, p. 1207).
As 150 Ave-Marias correspondiam aos 150 salmos do saltério de Davi. É por isso que o Rosário completo se chamou «saltério» de Maria, designação corrente até o fim do século XV (SHEA, 1961, p. 92).
As dezenas e os mistérios
No século XIV, as 150 Ave-Marias passaram a ser divididas em quinze dezenas, separadas por um Pai-Nosso. Alguns cartuxos atribuíram a novidade a Henrique Egher de Kalkar, e Herbert Thurston admite que possa ter sido obra dele, por volta de 1365. A atribuição continua discutida, porque os escritos cartuxos do tempo falam de Egher com respeito, mas nunca o ligam ao Rosário (STAID, 1986, p. 1207, SHEA, 1961, p. 112, KLINKHAMMER, 1988, p. 36).
No início do século XV, outro cartuxo, Domingos da Prússia, propôs acrescentar a cada Ave-Maria uma breve frase, a que se chamou «cláusula», sobre um episódio da vida de Jesus e de Maria. Eram cinquenta cláusulas, e o número de meditações chegou depois a ser muito elevado em algumas formas. Foi assim que a repetição das Ave-Marias se uniu à contemplação da vida de Cristo (STAID, 1986, p. 1208, SHEA, 1961, p. 112).
Alano de la Roche e as confrarias
No século XV, o dominicano bretão Alano de la Roche (c. 1428-1475) deu à devoção uma grande difusão. Pregou o saltério de Maria e promoveu as confrarias que o rezavam, e foi dos seus escritos, publicados depois da morte, que se espalhou a narrativa segundo a qual o Rosário teria sido revelado a São Domingos. Distinguia o simples saltério das Ave-Marias de um saltério acompanhado da meditação dos mistérios, dividido em três partes, a encarnação, a paixão e morte de Cristo, e a glória de Cristo e de Maria (STAID, 1986, p. 1207-1208, LOHRUM, 1988, p. 74). A história dessa tradição sobre São Domingos está em O Rosário de São Domingos.
Em 1521, o dominicano Alberto da Castello escolheu quinze mistérios principais entre os numerosos que circulavam (STAID, 1986, p. 1208). Com o tempo, os mistérios secundários caíram e ficaram só os quinze, fáceis de decorar (SHEA, 1961, p. 113).
A bula de São Pio V
Em 17 de setembro de 1569, o papa dominicano São Pio V descreveu a oração na bula Consueverunt Romani Pontifices. Diz que São Domingos, Spiritu sancto, ut pie creditur, afflatus, «inspirado pelo Espírito Santo, como piedosamente se crê», concebeu este modo fácil de rezar, e define-a assim: Rosarium, seu Psalterium ejusdem beatae Mariae Virginis nuncupatum, quo eadem beatissima Virgo Salutatione angelica centies et quinquagies, ad numerum Davidici Psalterii repetita, et oratione Dominica ad quamlibet decimam, cum certis meditationibus, totam ejusdem Domini nostri Jesu Christi vitam demonstrantibus, interposita, veneratur, «chamado Rosário, ou Saltério da mesma bem-aventurada Virgem Maria, pelo qual se venera a mesma beatíssima Virgem com a saudação angélica repetida cento e cinquenta vezes, segundo o número do Saltério de Davi, intercalando em cada dezena a oração dominical, com certas meditações que mostram toda a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo» (PIO V apud SAN MIGUEL Y BARCO, 1862, col. 1147, SHEA, 1961, p. 92).
O inciso ut pie creditur põe reserva na inspiração do Espírito Santo, mas a bula atribui a São Domingos a invenção do Rosário. Salvatore Perrella observa que, nessa bula, per la prima volta, l’invenzione del Rosario è attribuita a san Domenico, «pela primeira vez, a invenção do Rosário é atribuída a São Domingos», e lamenta que o papa não tenha indicado as fontes dessa informazione inesatta, «informação inexata» (PERRELLA, 2004, p. 446). Para o jesuíta Herbert Thurston, nenhum elemento do Rosário se liga comprovadamente à pessoa de São Domingos, e George Shea, que expõe essa tese, admite ainda assim uma influência ao menos indireta do santo (SHEA, 1961, p. 112-114).
Por essa altura, o Rosário já se tinha tornado uma forma universal de oração (STAID, 1986, p. 1208). O ensino de Leão XIII sobre ele está em Leão XIII e o Rosário.
Referências
KLINKHAMMER, K. J. Adolf v. Essen. In: BÄUMER, Remigius, SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS, 1988. v. 1, p. 34-39.
LOHRUM, M. Alanus de Rupe. In: BÄUMER, Remigius, SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS, 1988. v. 1, p. 74.
PERRELLA, Salvatore M. Rosarium Beatae Virginis Mariae «Totius Evangelii Breviarium»: il contributo dei Vescovi di Roma Sisto IV – Giovanni Paolo II (1478-2003): tra storia e dottrina. Marianum, Roma, v. 66, p. 427-557, 2004.
SAN MIGUEL Y BARCO, J. de. Biblia Mariana. In: BOURASSÉ, Jean-Jacques (org.). Summa aurea de laudibus Beatissimae Virginis Mariae, Dei Genitricis sine labe conceptae. Paris: J.-P. Migne, 1862. t. 2, col. 967-1552.
SHEA, George W. The Dominican Rosary. In: CAROL, Juniper B. (ed.). Mariology. Milwaukee: Bruce, 1961. v. 3, p. 88-127.
STAID, E. D. Rosario. In: DE FIORES, Stefano, MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 1207-1215.
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Texto muito profundo, ensina muito sobre o Rosário.
E ainda não começamos com a parte teológica…
Não conhecia a história dessa forma, apenas um pouco. Porém, aprendi agora com esse belo texto, obrigada professor Daniel!
Sempre às ordens, disponha
Maravilha!!
É mesmo mainha
Muito bom saber desta história que não conhecia! Obrigada! Eu rezo terço todos os dias, já o Rosário nem sempre .
Tem diferença de rezar o terço ou rezar o Rosário?
O Rosário são o ciclo dos 4 grupos de mistérios:gozosos, gloriosos, dolorosos e luminosos. O terço é a oração de apenas um destes ciclos
Obrigada pelo esclarecimento, professor
O professor Daniel já te respondeu , é isso 🙏
Paz e bem, uma sugestão : produza um texto acerca de nossa senhora Aparecida
Esperamos surpresas
Preciso voltar a rezar o Rosário, os 4 Mistérios. No momento estou rezando o terço todos os dias. Nossa Senhora do Rosário rogai por nós!🙏
Não conhecia essa história, como falei preciso voltar a rezar os 4 Mistérios, porque no momento só estou rezando o terço todos os dias!🙏 ❤
Ámen
Ámen
Oração de muita paz, mas não de hábito diário. Me acostumei a oração diária do Evangelho, que muito me preenche. Na Rosarium Virginis Maria e, destaco os diversos olhares de Maria, quando contemplamos os Mistérios. Salve Maria!
Ámen
Obrigado pelos ensinamentos.
Tudo feito da grande comunidade dos cultores de Mariologia da Locus Mariologicus que permitem a existência do site
Aqui rezamos todos os dias com a graça de Deus em família😍 É uma luta. Sobre as indulgências: sozinha se chega, mas juntos se chega muito mais longe 🌸🌺.
E as jaculatórias que intercalam os mistérios dos terços? Como é feita essa “seleção”? Tem alguma que é obrigatória como “ó meu Jesus, perdoai-nos…”?
Não existem obrigações de Jaculatórias. No final de cada dezena se sugere a leitura e meditação da Palavra
Obrigada pelo esclarecimento!
Desde muito nova aprendi a rezar o terço com a minha mãe, mas eu algum momento da minha vida(não me lembro quando nem pq) passei a rezar o Rosário e a me sentir incompleta, digamos assim, quando só conseguia rezar o terço. O Rosário me acalma, me consola, me fortalece. É verdadeiramente o socorro de Deus para mim.
Ámen
Rezo o terço pelo menos uma vez ao dia, mas sempre sigo aquilo que aprendi da Igreja, ou seja, cada Mistério tem o seu dia.
No início achava penoso, demorado, agora passa muito rápido principalmente quando se sente a presença de Maria junto a nós
🙏
OBRIGADA PRO. DANIEL E CAROLINE POR NOS PROPORCIONAR ESTA RIQUEZA DE CONHECIMENTO, SOU AGRACIADA POR DEUS POR ESTA OPORTUNIDADE, DEUS OS ILUMINE SEMPRE.
Realmente, a Mariologia é um poço de Águas Revigorantes, seu aprendizado vai além da expectativa esperada! Nossa Mãe sempre intercedendo por nós!
Prof. Daniel GRATIDÃO É A PALAVRA VIÁVEL!
AGRADECIDO pelas suas palavras, agora vamos partilhar a boa notícia