E o discípulo a acolheu na sua intimidade (Jo 19,27)

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
καὶ ἀπ᾿ ἐκείνης τῆς ὥρας ἔλαβεν ὁ μαθητὴς αὐτὴν εἰς τὰ ἴδια.
«E desde aquela hora o discípulo a acolheu no que era seu» (Jo 19,27)
Junto à cruz de Jesus estavam a sua mãe e o discípulo que ele amava. Jesus disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho». Depois disse ao discípulo: «Eis a tua mãe». E o evangelista acrescenta: «desde aquela hora o discípulo a acolheu» (Jo 19,26-27). As três palavras finais do versículo, εἰς τὰ ἴδια, são das mais discutidas do quarto Evangelho. Dizem só que João levou Maria para sua casa, ou dizem mais? Este artigo lê a expressão no original, percorre as respostas dos Padres, dos exegetas e do Magistério, e mostra o que significa, para cada fiel, acolher Maria «no que é seu». Para a maternidade espiritual de Maria que nasce desta cena, veja também a nossa explicação de João 19,27.
O que diz o grego
A expressão εἰς τὰ ἴδια quer dizer, à letra, «para as coisas próprias», «para o que é seu». João usa-a três vezes. No prólogo, de Jesus: «εἰς τὰ ἴδια ἦλθεν, καὶ οἱ ἴδιοι αὐτὸν οὐ παρέλαβον», «veio para o que era seu, e os seus não o acolheram» (Jo 1,11). No discurso de despedida, dos discípulos que fugirão: «σκορπισθῆτε ἕκαστος εἰς τὰ ἴδια», «sereis dispersos, cada um para o que é seu» (Jo 16,32). E na cruz, do discípulo amado: «ἔλαβεν ὁ μαθητὴς αὐτὴν εἰς τὰ ἴδια», «o discípulo a acolheu no que era seu» (Jo 19,27, NA28).
O paralelo com o prólogo, sublinhado por de la Potterie, é notável. Em Jo 1,11 os «seus» não acolheram o Verbo, mas logo a seguir João diz: «ὅσοι δὲ ἔλαβον αὐτόν», «a todos os que o acolheram», deu o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,12). É o mesmo verbo λαμβάνω, «receber, acolher», que reaparece na cruz. O discípulo faz com a Mãe o que os «seus» não fizeram com o Filho.
A Vulgata, curiosamente, não traduz sempre do mesmo modo. Em Jo 1,11 e 16,32 escreve «in propria», «para o que é próprio». Em Jo 19,27 escreve «accepit eam discipulus in sua», «o discípulo recebeu-a entre as suas coisas». O paralelismo que o grego mostra fica assim menos visível no latim.
Em sua casa ou na sua intimidade?
A tradução mais corrente é «o discípulo levou-a para sua casa». A expressão grega pode de fato designar a casa, a família, os bens de alguém. Mas os comentadores perceberam cedo que a frase pede mais.
Santo Agostinho perguntou-se como podia João receber Maria «nos seus bens», se os apóstolos tinham deixado tudo para seguir Jesus. A resposta dele é que João a recebeu nos seus deveres: «Suscepit ergo eam in sua, non praedia, quae nulla propria possidebat, sed officia, quae propria dispensatione exsequenda curabat», «recebeu-a, pois, no que era seu, não em propriedades, que não possuía, mas em deveres, que cuidava de cumprir por encargo próprio» (AGOSTINHO, In Iohannis Evangelium tractatus 119, 3, PL 35, 1951). Para Agostinho, João tomou sobre si o cuidado filial de Maria.
Santo Ambrósio abriu outra linha. Segundo o exegeta Ignace de la Potterie, que estudou a história desta interpretação, Ambrósio entendia «in sua» como os bens espirituais que o discípulo recebera de Cristo: «Quae ergo habebat sua, nisi ea quae a Christo acceperat?», «que tinha ele de seu, senão o que recebera de Cristo?» (AMBRÓSIO, Exhortatio virginitatis 5, 33, citado por DE LA POTTERIE, 1974, p. 7).
No século XX, de la Potterie defendeu esta leitura com argumentos filológicos. Nota que εἰς τὰ ἴδια significa «em casa» quando vem com um verbo de deslocação, mas que aqui o verbo é λαμβάνω, que em João, quando tem por objeto uma pessoa, exprime o acolhimento na fé (cf. Jo 1,12, 5,43, 13,20). E conclui: «Non si tratta certamente di una casa, ma ciò che appartiene “in proprio” al discepolo», «não se trata certamente de uma casa, mas daquilo que pertence “em próprio” ao discípulo». Retomando uma fórmula do teólogo Charles Journet, que corrige de «tomou» para «acolheu», propõe dizer que o discípulo a acolheu «nella sua intimità», «na sua intimidade», isto é, explica ele, na sua vida interior, na sua vida de fé (DE LA POTTERIE, 1988, p. 244-245). É daqui que vem a tradução que dá título a este artigo. A tese de de la Potterie é, contudo, discutida. O exegeta Frans Neirynck contestou-a em dois artigos (NEIRYNCK, 1979 e 1981, citados por DE LA POTTERIE, 1988, p. 244, n. 31). E pode notar-se que os dois paralelos joânicos, Jo 1,11 e 16,32, usam precisamente verbos de movimento, embora de la Potterie entenda Jo 1,11 como a «propriedade» de Jesus, o povo de Israel, e não um lugar.
Nem todos os exegetas excluem o sentido material. O mariólogo Aristide Serra, que segue de la Potterie, cita o exegeta inglês John McHugh, para quem o versículo pede uma tradução que inclua ao mesmo tempo o sentido físico e o espiritual, e admite, numa nota, que João parece jogar com o duplo sentido, a casa material e, sobretudo, o espaço espiritual (SERRA, 1991, p. 112, n. 61). A leitura mais equilibrada é, por isso, a que une os dois: João recebeu Maria em sua casa, e esse gesto exterior exprime um acolhimento interior, na fé.
Acolher Maria para entender o Evangelho
Muito antes destas discussões, Orígenes, no século III, tinha tirado da cena uma consequência espiritual. Para ele, o Evangelho de João é as primícias dos Evangelhos, e ninguém o pode compreender sem fazer o que o discípulo amado fez: «οὗ τὸν νοῦν οὐδεὶς δύναται λαβεῖν μὴ ἀναπεσὼν ἐπὶ τὸ στῆθος Ἰησοῦ μηδὲ λαβὼν ἀπὸ Ἰησοῦ τὴν Μαρίαν γινομένην καὶ αὐτοῦ μητέρα», «cujo sentido ninguém pode apreender se não se reclinou sobre o peito de Jesus e não recebeu de Jesus Maria, que se torna também sua mãe» (ORÍGENES, Commentarii in Iohannem I, 23, SC 120, p. 70).
O discípulo que repousou sobre o peito de Jesus na Ceia (Jo 13,25) é o mesmo que recebe a sua Mãe na cruz. Para Orígenes, as duas coisas andam juntas: a intimidade com Cristo e o acolhimento de Maria.
O que ensina o Magistério
São João Paulo II, na encíclica Redemptoris Mater, ao comentar «accepit eam discipulus in sua», afirma que a expressão «sine dubio significat discipulo filii munus traditum esse eumque curam Matris dilecti Magistri suscepisse», «significa sem dúvida que ao discípulo foi confiado o encargo de filho e que ele assumiu o cuidado da Mãe do Mestre amado» (Redemptoris Mater 45, AAS 79, p. 423). E acrescenta a dimensão interior: «Fidelis, se filii in modum dedens Mariae, ut Ioannes apostolus, accipit “in sua” Matrem Christi atque in omnia inducit, quae eius propriam vitam interiorem constituunt, videlicet in suum “ego” humanum et christianum», «o fiel, entregando-se como filho a Maria, como o apóstolo João, acolhe “no que é seu” a Mãe de Cristo e introdu-la em tudo o que constitui a sua vida interior, isto é, no seu “eu” humano e cristão» (Redemptoris Mater 45, AAS 79 (1987), p. 423). E acrescenta em nota que, no texto grego, εἰς τὰ ἴδια significa mais do que hospedar Maria e cuidar dela em casa: significa uma comunhão de vida entre os dois, nascida das palavras de Cristo moribundo (n. 45, nota 130).
O mesmo papa voltou ao tema numa audiência geral de 23 de novembro de 1988, sobre as últimas palavras de Cristo na cruz. Segundo a transcrição de Salvatore Perrella (não consultámos o original), disse que Jesus, despojado de tudo na Paixão, tinha ainda no Calvário a Mãe, e que, com um gesto de supremo desprendimento, a deu também ao mundo inteiro, querendo que entre as coisas «consumadas» (Jo 19,28) estivesse também este dom da Mãe à Igreja e ao mundo (Insegnamenti XI/4, p. 1636-1637, citado por PERRELLA, 2007, p. 486-487).
O discípulo que Jesus amava
O evangelista não diz o nome do discípulo. A tradição identifica-o com João, filho de Zebedeu, e os exegetas discutem essa identificação. Para o sentido da cena, o que importa é o título que o texto lhe dá: é «o discípulo que Jesus amava» (Jo 19,26). Não é escolhido pelo que fez, mas pelo amor que recebeu. Por isso a tradição viu nele a figura de todo o discípulo. Jesus tinha prometido: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos morada» (Jo 14,23). Quem se sabe amado por Cristo é chamado, como o discípulo amado, a acolher a sua Mãe.
E o fruto deste acolhimento vê-se pouco depois. Depois da Ascensão, a Mãe de Jesus está no andar superior de Jerusalém, em oração com os apóstolos e as mulheres, à espera do Espírito (At 1,14). Aquela que o discípulo acolheu ficou no meio da Igreja nascente.
Acolher Maria no que é nosso
A dimensão mariana não é, portanto, um acessório na vida do discípulo. Segundo João Paulo II, nestas palavras da cruz funda-se a dimensão mariana da vida dos discípulos de Cristo, não só de João, mas de cada discípulo, de cada cristão (Redemptoris Mater 45, AAS 79, p. 422). O mariólogo Michele Giulio Masciarelli, aplicando à cruz uma imagem que Aristide Serra usara para a maternidade virginal, diz assim como a maternidade de Maria se alargou naquela hora: junto à cruz, à maternidade em relação a Cristo juntou-se a maternidade em relação à Igreja, e, «a somiglianza delle giare di Cana (cf Gv 2,7), il suo grembo è stato riempito “fino all’orlo”», «à semelhança das talhas de Caná, o seu seio foi enchido “até à borda”» (MASCIARELLI, La discepola, p. 45).
Acolher Maria é deixá-la entrar no que temos de mais nosso: a fé, a oração, as decisões, as provações. É olhar para ela como mãe e aprender com ela, discípula perfeita, a seguir o Filho. Este versículo está no centro da espiritualidade mariana de São João Paulo II, cujo lema Totus tuus vem da consagração de São Luís Maria Grignion de Montfort, como explicamos no artigo sobre Totus tuus e São João Paulo II.
Referências
AGOSTINHO DE HIPONA. In Iohannis Evangelium tractatus 119, 3. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Latina. Paris: J.-P. Migne, [1844-1855]. v. 35, col. 1951.
BIBLIA SACRA VULGATA. [S.l.: s.n.], 2003. Edição eletrônica. Jo 1,11, 16,32 e 19,27.
DE LA POTTERIE, Ignace. La parole de Jésus «Voici ta Mère» et l’accueil du Disciple (Jn 19,27b). Marianum, Roma, v. 36, p. 1-39, 1974.
DE LA POTTERIE, Ignace. Maria nel mistero dell’alleanza. Trad. Fabrizio Tosolini. Genova: Marietti, 1988. p. 243-245.
JOÃO PAULO II. Litterae encyclicae Redemptoris Mater. Acta Apostolicae Sedis, Città del Vaticano, v. 79, 1987. n. 45, p. 422-423.
MASCIARELLI, Michele Giulio. La discepola: Maria di Nazaret beata perché ha creduto. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2001. p. 45.
NEIRYNCK, Frans. ΕΙΣ ΤΑ ΙΔΙΑ: Jn 19,27 (et 16,32). Ephemerides Theologicae Lovanienses, Leuven, v. 55, p. 357-363, 1979. Citado por DE LA POTTERIE, 1988, p. 244, n. 31.
NEIRYNCK, Frans. La traduction d’un verset johannique: Jn 19,27b. Ephemerides Theologicae Lovanienses, Leuven, v. 57, p. 83-106, 1981. Citado por DE LA POTTERIE, 1988, p. 244, n. 31.
NOVUM Testamentum Graece. Nestle-Aland. 28. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012. Jo 1,11, 16,32 e 19,27, At 1,14.
ORIGÈNE. Commentaire sur saint Jean. Ed. Cécile Blanc. Paris: Cerf, 1966. t. 1. (Sources Chrétiennes, 120). I, 23, p. 70-71.
PERRELLA, Salvatore M. Ecco tua Madre (Gv 19,27): la Madre di Gesù nel magistero di Giovanni Paolo II e nell’oggi della Chiesa e del mondo. Cinisello Balsamo: San Paolo, 2007. p. 484-487.
SERRA, Aristide M. Maria a Cana e presso la Croce: saggio di mariologia giovannea (Gv 2,1-12 e Gv 19,25-27). 3. ed. Roma: Centro di Cultura Mariana «Madre della Chiesa», 1991. p. 106-115.
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