Feliz o ventre que te trouxe, mais feliz quem escuta

«Quae sit spes vocationis eius»: Paulo, o Espírito e Maria tipo da Igreja

Quinimmo beati, qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud.
Lc 11,28

A liturgia da féria da vigésima sétima semana do Tempo Comum coloca diante de nós duas palavras que se buscam através dos séculos. De um lado, o apóstolo Paulo declara aos Gálatas que a filiação divina não se herda pelo sangue nem se conquista pela Lei, mas se recebe pela fé em Cristo Jesus. Do outro, uma mulher anônima levanta a voz no meio da multidão e proclama feliz o ventre que gerou o Senhor, e o próprio Senhor desloca a bem-aventurança do ventre para o ouvido, da carne que carrega para o coração que escuta. Entre a promessa feita a Abraão e a resposta dada àquela mulher da turba, abre-se todo o espaço da economia da graça. Não se trata de duas leituras justapostas, mas de uma única confissão, que a Escritura semeia em Paulo e faz florescer em Lucas.

I. A Lei como pedagogo e a promessa dos herdeiros

Paulo escreve aos Gálatas para arrancar-lhes uma tentação antiga, a de fazer da Lei o fundamento da salvação. A Escritura, diz ele, conclusit Scriptura omnia sub peccato, encerrou tudo sob o pecado, ut promissio ex fide Jesu Christi daretur credentibus, para que a promessa fosse dada aos que creem pela fé em Jesus Cristo (Gl 3,22). O apóstolo não desonra a Lei, ele a situa. A Lei foi pædagogus noster in Christo, o pedagogo que nos conduziu até Cristo (Gl 3,24), aquele servo que, na casa antiga, levava o menino à escola sem ser ele mesmo o mestre. A imagem é precisa e tríplice, a Lei guarda, a Lei acompanha, a Lei entrega. Cumprida a sua função, o pedagogo cede o lugar, at ubi venit fides, jam non sumus sub pædagogo, mas, chegada a fé, já não estamos sob o pedagogo (Gl 3,25).

O centro da leitura irrompe então como um anúncio nupcial. Omnes enim filii Dei estis per fidem, quæ est in Christo Jesu, todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus (Gl 3,26). A filiação não é privilégio de estirpe, é dom de imersão, pois quicumque in Christo baptizati estis, Christum induistis, todos vós que fostes baptizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl 3,27). E o apóstolo desfaz então as três muralhas que dividiam a humanidade antiga, a raça, a condição, o sexo, non est Judæus, neque Græcus, non est servus, neque liber, non est masculus, neque femina (Gl 3,28). Quem se reveste de Cristo torna-se, pela fé, semen Abrahæ, descendência de Abraão e herdeiro segundo a promessa (Gl 3,29). A promessa não descansa sobre a carne de Abraão, mas sobre a fé que Abraão teve. O salmo do dia confirma esta linhagem quando chama Israel semen Abraham servi ejus, descendência de Abraão seu servo (Sl 104,6), e ordena buscar sempre a face do Senhor, quærite faciem ejus semper (Sl 104,4).

II. A bem-aventurança que desce do ventre ao ouvido

O evangelho de Lucas conserva um episódio brevíssimo e de força desmedida. Enquanto Jesus falava, uma mulher da multidão levanta a voz e exclama, beatus venter qui te portavit, et ubera quæ suxisti, feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram (Lc 11,27). É uma bem-aventurança maternal, quente, popular, que louva o Senhor louvando aquela que o gerou. A mulher não erra, e Jesus não a corrige, ele a aprofunda. Quinimmo beati, qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud, muito mais felizes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam (Lc 11,28).

O advérbio grego menoûn, que a Vulgata verte por quinimmo, não nega, antes eleva. Jesus não diz que o ventre não é bem-aventurado, diz que existe uma bem-aventurança maior, e que essa maior está escondida na primeira. Não é a bem-aventurança da carne contra a do espírito, mas a da carne assumida pelo espírito, a do ventre que gerou porque o coração escutou. A construção lucana é deliberada. Duas vezes o mesmo verbo, ouvir e guardar, audiunt et custodiunt, ecoa o mesmo custodiebamur que Paulo usara para descrever a guarda da Lei (Gl 3,23). O que a Lei guardava por fora, a fé passa a guardar por dentro. Bem-aventurado não é primeiro o ventre que carrega, mas o ouvido que acolhe.

III. A promessa gerada na escuta da fé

As duas leituras convergem num único ponto, o modo pelo qual o homem se torna herdeiro de Deus. Paulo o nomeia fé, Lucas o nomeia escuta que guarda, e é a mesma realidade vista de dois ângulos. A fé de que fala o apóstolo não é assentimento frio, é o audire verbum Dei que se faz obediência, o ouvir que se converte em revestir-se de Cristo. Quem crê ouve, quem ouve guarda, quem guarda gera. A filiação divina anunciada aos Gálatas realiza-se concretamente no gesto descrito por Lucas, acolher a palavra e cumpri-la.

Há uma pedagogia comum às duas páginas. A Lei conduzia de fora, como pedagogo que leva pela mão, a palavra escutada conduz de dentro, como semente que fructifica. O termo do caminho não é a emancipação de qualquer vínculo, mas a passagem de uma guarda exterior a uma guarda interior, de sub lege custodiebamur a custodiunt illud. Deus não deixou o homem sem regra, transferiu a regra do código à consciência fiel. Aquilo que Abraão inaugurou pela fé, aquilo que o batizado recebe pelo revestimento de Cristo, cada fiel o repete cada vez que ouve a palavra e a põe em prática. O herdeiro segundo a promessa é, precisamente, o que escuta e guarda.

IV. Maria, o ventre bem-aventurado porque coração que escuta

Nenhuma das leituras nomeia Maria, e contudo ela é a chave que abre as duas. A mulher da turba louva o ventre que trouxe o Senhor, e esse ventre tem um nome, é o de Maria de Nazaré. Jesus não retira à sua Mãe a bem-aventurança do ventre, ele revela o fundamento dela, pois Maria foi bem-aventurada no ventre por ter sido primeiro bem-aventurada no ouvido. Antes de conceber o Verbo na carne, concebeu-o na fé, quando disse fiat mihi secundum verbum tuum, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38). Santo Agostinho o formulou com exactidão perene, prius concepit mente quam ventre, concebeu antes na mente do que no ventre. A bem-aventurança que Jesus prefere não afasta a Mãe, coroa-a, porque nela o ouvir e o gerar coincidem sem resto.

Maria é também a primeira herdeira da promessa de que fala Paulo. Se todos os que creem são semen Abrahæ, descendência de Abraão segundo a fé, ela o é de modo sumo, pois no seu fiat a fé de Abraão chega à sua plenitude, e o ventre que carregou o Filho fez-se o lugar onde a promessa a Abraão tomou carne. O salmo pedia buscar sempre a face do Senhor, e ela contemplou essa face antes de todos, primeiro na fé e depois nos braços. Toda a Igreja aprende de Maria que se gera Cristo escutando-o primeiro. A ela olha o fiel que ouve a palavra e a guarda, porque nela vê realizado o que a bem-aventurança promete, a escuta que se faz vida, a fé que se faz fecundidade, o ouvido que se torna ventre. Assim, ao féria comum do Tempo Comum, a mariologia devolve a sua altura, pois onde a Escritura fala de fé que gera herdeiros, ali fala, sem a nomear, daquela que gerou o próprio Herdeiro por ter sido a mais fiel dos ouvintes.

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