«Fizeram-se umas bodas em Caná» (Jo 2,1)

Introdução
Em Caná, foram celebradas as famosas bodas, das quais no Evangelho não foi mencionado o nome dos esposos. Alguns viram nessa omissão um sinal para uma interpretação espiritual mariana do episódio: Jesus e Maria são os verdadeiros ‘esposos’ dos quais em Caná foram celebradas as ‘místicas bodas’.

Caná da Galileia
Na verdade, não há unanimidade sobre a localização da cidade evangélica de Caná. Entre as várias candidatas, no entanto, a cidade galileiana de Kafar Kanna, a apenas 10 quilómetros de Nazaré, parece ostentar os maiores títulos de autenticidade e tradição. A cidade apresenta-se como um pequeno aglomerado urbano situado numa encosta suave que desce em direcção às férteis planícies da Galileia, hoje amplamente exploradas pela agricultura avançada do Estado de Israel.
Foi o relato de um peregrino do século VI que identificou essa cidade com a cidade evangélica, já que a situava a um dia de viagem de Séforis. O peregrino anónimo afirmava ter sido capaz até mesmo de usar o próprio assento em que Jesus se sentou nas famosas bodas e de ter visto e tocado os dois jarros do milagre, embora seja impossível expressar com certeza esse relato. O que sabemos com certeza é que, a partir do século XVI, o local onde está localizado o actual ‘Santuário do Milagre’ foi reconhecido como o local do banquete de casamento evangélico, pois algumas escavações haviam revelado uma sala com colunas que imediatamente fez pensar numa basílica bizantina ou numa construção cruzada e, portanto, num local de culto cristão.
No entanto, estudos arqueológicos recentes tendem a reconhecer naquela sala mais um ambiente sinagogal, um edifício sagrado judaico, dos primeiros séculos após Cristo do que um local de culto bizantino ou cruzado, embora haja também sepulturas cristãs posteriores. Em outras palavras, não é possível afirmar com certeza que este foi um local de culto cristão e se corresponde ao visitado pelo peregrino anónimo.
Portanto, ainda menos será possível afirmar com certeza a correspondência deste local com o das bodas evangélicas. No entanto, isso não deve tirar a importância deste monumento que, no final do século XIX, foi construído pelos Franciscanos no terreno recém-adquirido e usado pela pequena comunidade cristã de rito latino ali presente, como um memorial e lembrança do episódio evangélico do milagre de Caná.
«Houve uma festa de casamento» (Jo 2,1)
Mais do que nos determos nos detalhes específicos deste local, convém lembrar que as colunas e capitéis da antiga sinagoga, o ambiente descoberto no século XVI, foram utilizados para sustentar o átrio da actual igreja, que, em seu estilo bastante ecléctico, mas de certa monumentalidade, transmite uma certa serenidade. No santuário dedicado ao Milagre de Caná, podemos ver a própria figura de Maria: não procuraremos sua presença em algum lugar sagrado ou em alguma parte da igreja, mas, ao entrar nela, deixar-nos-emos abraçar pela Virgem que se tornou Igreja.
Não é por acaso que partes de uma antiga sinagoga foram usadas como base para o átrio do templo cristão. Se reconhecemos na Igreja a figura da Virgem, não é estranho pensar que os elementos autênticos da religião e culto judaico serviram como preparação e apoio sobre os quais Maria Santíssima construiu sua monumental fé e o culto ao verdadeiro Deus, cuja revelação definitiva ocorreu através de Jesus Cristo.
Deve-se lembrar, no entanto, que o episódio de Caná da Galileia tem muito a ensinar-nos sobre nossa fé. Um detalhe inicial que surpreendeu alguns Padres da Igreja é que o episódio evangélico, embora descrito com riqueza de detalhes, omite completamente a identidade dos dois esposos. Nessa omissão, podemos ver o sinal de uma interpretação espiritual do episódio: fala-se apenas de Maria e Jesus, indicando que eles são os verdadeiros esposos místicos, cujas bodas são celebradas em Caná.
O milagre de Caná marca o início do ministério público de Jesus, um ministério de ensino da verdade e santificação das almas, que é a missão confiada a Ele pelo Pai. No entanto, esse ministério estabelece a Nova Aliança, que, assim como os profetas descreveram em relação à antiga aliança com YHWH, é bem representada pela metáfora nupcial: assim como YHWH se casou com o povo de Israel, agora Jesus se casa com Maria, que ocupa o lugar e representa toda a Igreja, o povo místico dos verdadeiros adoradores de Deus em espírito e verdade (Jo 4,23).
É verdade que a Igreja só seria gerada com a morte na cruz, o cumprimento da missão salvífica e redentora de Jesus, mas Maria já antecipava a Igreja, sendo preservada de qualquer mancha de pecado, e ocupando seu lugar no início da vida pública de Jesus. Não é por acaso que um evidente paralelismo é observado entre o episódio de Caná e o da morte na cruz: a resposta enigmática de Jesus à Mulher (Minha hora ainda não chegou, Jo 2,4) está relacionada ao cumprimento daquela hora na Cruz (A hora chegou, Mc 14,41), diante da Mulher (Jo 19,26).
A hora que ainda não havia chegado, ou seja, o cumprimento da Redenção, realiza-se no Calvário com o nascimento da Igreja, que é tirada do lado de Jesus, assim como Eva foi tirada do lado de Adão.
Maria e a graça
Ao contemplar Maria, a “Virgem feita Igreja“, de acordo com a famosa expressão de São Francisco de Assis, podemos perceber que o episódio de Caná tem algo mais a ensinar-nos. Se a Virgem Maria representa a verdadeira fé do povo escolhido, que se cumpre na revelação definitiva do Messias anunciado, não é menos verdade que a nova Lei é principalmente, como ensina São Tomás de Aquino, “uma lei de graça“. Jesus não veio apenas revelar o rosto completo de Deus, revelando Sua Unidade e Trindade, um mistério de amor desconhecido pelos judeus, mas também nos elevar a uma nova condição, a condição de filhos de Deus por adopção pela graça: essa é a essência da nova Aliança.
O relato evangélico de Caná é um dos textos das Escrituras que melhor revela como, na economia da graça sobrenatural, a Virgem Maria ocupa um lugar de grande destaque, o de “Intercessora universal”. Maria não é a fonte da graça, uma vez que a graça sobrenatural pode vir apenas de Deus e não de Maria, que é uma criatura como nós. No entanto, por disposição divina, é Maria quem medeia a graça, tirando-a do seio da Santíssima Trindade para dispensá-la a todos os homens.
Por um lado, é ela quem leva as orações e as aflições dos homens, neste caso, os verdadeiros esposos de Caná, envergonhados pela falta de vinho, ao Coração amoroso de Jesus, mediando assim, de baixo para cima, os anseios dos homens. Por outro lado, de cima para baixo, é ela quem obtém de seu amado Filho as intercessões para todos os homens, incluindo as graças ou ajudas materiais, como no caso das bodas de Caná com o milagre do vinho, e a graça propriamente dita, aquela que nos torna filhos de Deus.
Não é por acaso que o próprio milagre do vinho pode ser objecto de uma interpretação espiritual: a água transformada em vinho pode representar nossa humanidade (a água) que, através da acção sobrenatural da graça infundida em nossos corações, é divinizada, no sentido de que se torna uma com a filiação divina, “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1,4) e templo da Santíssima Trindade, elevando-se assim a alturas inatingíveis para nossa natureza humana.
A Mãe da Igreja
Neste contexto, descobrimos que aquilo que até agora considerámos como a “Virgem feita Igreja“, um modelo e exemplo perfeito da própria Igreja, revela-se, devido à mediação de todas as graças realizada por ela em favor de todos os seres humanos, como a “Mãe da Igreja“. O relato evangélico de Caná começa chamando a Virgem Maria de “mãe“, embora isso seja entendido no sentido de mãe de Jesus (cf. Jo 2,1).
Além disso, o milagre de Caná foi interpretado pelos Padres e Doutores da Igreja como uma prefiguração de pelo menos três sacramentos. Em primeiro lugar, o matrimónio, que, partindo de sua forma natural de consentimento entre homem e mulher (a simples água), se torna um sacramento, ou seja, um sinal eficaz da união entre Cristo e a Igreja (ou seja, o vinho). O Baptismo também pode ser bem representado, tanto pela transformação que realiza na natureza humana, divinizando-a com a graça santificante, quanto pelo facto de o próprio Evangelho nos informar que os recipientes usados para o milagre eram ânforas de purificação (Jo 2,6), uma bela imagem do baptismo em que o pecado é removido.
Finalmente, a Eucaristia também é bem representada pelo milagre de Caná, tanto devido à referência comum ao vinho quanto à transformação da substância que ocorre em ambos os casos. Portanto, o episódio de Caná fala dos sacramentos da Igreja Católica, que são o dom e a principal missão que Nosso Senhor deixou à Igreja para salvar e santificar os seres humanos. No momento em que a Igreja nasce, ou seja, no Calvário, a água e o vinho que fluem do lado de Jesus, de onde a Igreja é tirada como a nova Eva, não são eles o sinal dos sacramentos, em particular do Baptismo e da Eucaristia?
Os sacramentos são o dom nupcial deixado por Cristo para a Igreja, Sua esposa, mas antes de tudo foram dados a Maria, como Mãe da Igreja. É ela que sempre e até o fim dos tempos lembra à Igreja e aos seus membros o chamado feito pela primeira vez em Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). No santuário do milagre de Caná, assim como em todas as outras igrejas da Terra, permitamo-nos, portanto, ser abraçados pela Mãe da Igreja, por Aquela que gerou a Igreja com Cristo e que a assistirá com Sua materna protecção até o fim dos tempos.
O episódio das bodas de Caná é central na reflexão sobre a mediação de Maria. A encíclica Redemptoris Mater de João Paulo II dedica uma análise aprofundada a este texto joânico como revelação do papel intercessor de Maria.
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