Iconografia mariana, a representação de Maria na arte cristã
A iconografia mariana é o conjunto de tipos, temas e convenções visuais que a arte cristã desenvolveu ao longo de vinte séculos para representar a Virgem Maria. O termo “iconografia” (do grego εἰκών, “imagem”, + γραφή, “escrita/descrição”) designa o estudo sistemático dos temas e símbolos de uma tradição pictórica. No caso mariano, a iconografia articula dogma e devoção: cada tipo iconográfico expressa uma verdade teológica, a maternidade divina, a virgindade, a mediação, a glória escatológica de Maria.
A mais antiga representação conhecida de Maria encontra-se nas Catacumbas de Priscila, em Roma, datada do séc. II-III. O fresco da Capella Greca mostra uma mulher com criança ao colo e uma figura que aponta para uma estrela, interpretada como a Anunciação ou como Maria com o Menino Jesus. A representação de Maria em busto, sedenta com o Filho, corresponde ao tipo que a tradição grega chamará de Theotókos ou Hodegetria. Estas imagens primitivas são catequéticas: representam dogmas antes de serem definidos formalmente.
Hodegetria (“Aquela que Guia o Caminho”): Maria segura o Menino Jesus com o braço esquerdo e aponta para Ele com a mão direita. O Filho é representado como Pantokrator em miniatura, já com gestos de adulto, segurando um rolo. Este tipo, atribuído ao Evangelista Lucas, é o modelo iconográfico de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e de numerosas imagens medievais e bizantinas.
Eleousa (“A Misericordiosa” ou “A Ternura”): As faces de Maria e do Menino tocam-se. Este tipo, de origem bizantina, exprime a intimidade entre Mãe e Filho. A mais famosa é a Madona de Vladimir (séc. XII), actualmente na Galeria Tretiakov, em Moscovo.
Glykophilousa (“A Doce que Beija”): Variante da Eleousa onde o beijo entre Maria e o Menino é mais explícito. Exprime o amor materno no seu aspecto mais humano e terno.
Orantes (“A que Reza”): Maria de braços estendidos e levantados em posição de oração. Sem o Menino, representa Maria como intercessora. Com o Menino no peito (dentro de um medalhão, tipo Platytera), representa a maternidade divina.
Regina Caeli (Rainha dos Céus): Maria coroada, entronizada, com o Menino ao colo ou rodeada de anjos. Expressa a doutrina da sua glória escatológica e da mediação régia.
As Madonas Negras (Vierges Noires) são imagens de Maria e do Menino Jesus de cor escura, encontradas sobretudo na Europa mediterrânica medieval. A escuridão é atribuída a: (1) oxidação do verniz ao longo dos séculos. (2) uso deliberado de madeiras escuras. (3) influência do Cântico dos Cânticos 1,5 (“Sou morena, mas formosa”). Entre as mais veneradas: Nossa Senhora de Montserrat (Catalunha), Nossa Senhora de Częstochowa (Jasna Góra, Polónia) e Nossa Senhora de Loreto (Itália).
O Concílio de Niceia II (787) definiu dogmaticamente a licitude da veneração de imagens sagradas (ícones), pondo fim à controvérsia iconoclasta. Distinguiu entre latreia (adoração, devida só a Deus) e proskynesis ou timē (veneração relativa, devida às imagens sagradas). As imagens marianas recebem a veneração de hyperdulia, o grau mais elevado de veneração entre as criaturas, inferior apenas à latria divina. Niceia II é o fundamento dogmático de toda a iconografia cristã.
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