Catacumbas de prisca, a primeira imagem de Maria na história
As Catacumbas de Priscila, situadas na Via Salária em Roma, constituem o complexo funerário cristão subterrâneo de maior antiguidade e importância mariológica do mundo. Escavadas a partir do século II e utilizadas até ao século V, albergam mais de quarenta mil sepulturas distribuídas por aproximadamente treze quilómetros de galerias. O nome provém da família romana dos Ácios Glabriões, cujos membros, entre eles a matrona Priscila, cederam os seus terrenos à comunidade cristã de Roma para uso funerário. A Tradição associa também o nome à Priscila mencionada por São Paulo (Rm 16,3), colaboradora do apóstolo.
Para a mariologia, as Catacumbas de Priscila têm um valor único e insubstituível: albergam a mais antiga representação iconográfica conhecida de Maria, a chamada Mater Domina (séc. II-III), que antecede em mais de um século todas as outras imagens marianas conservadas. Este fresco, descoberto na Capella Greca, mostra Maria sentada com o Menino ao colo, enquanto um profeta, provavelmente Isaías, aponta para uma estrela, referência à profecia de Is 7,14 (“a virgem conceberá”). A composição iconográfica estabelece desde o início a ligação entre a tipologia veterotestamentária e a pessoa histórica de Maria.
O fresco da Mater Domina nas Catacumbas de Priscila é datado pelos especialistas entre o final do século II e o início do século III. A iconografia combina três elementos fundamentais: Maria sentada em posição frontal (posição de autoridade na arte romana), o Menino Jesus no seu colo com gesto de bênção e uma figura masculina que aponta para uma estrela. Estudiosos como André Grabar e Enrico Josi interpretaram o profeta como Isaías e a estrela como cumprimento da promessa messiânica. Esta leitura tipológica, que vê em Maria o cumprimento da almah de Isaías 7,14, constitui a base de toda a iconografia mariana posterior.
Mater Domina, “Mãe do Senhor”, é o equivalente iconográfico do Theotókos, que a comunidade de Alexandria desenvolverá em termos dogmáticos no mesmo período. A anterioridade da expressão artística em relação à definição dogmática é significativa: a fé da comunidade cristã primitiva em Maria como Mãe de Deus antecede a sua formulação conciliar (Éfeso, 431). As Catacumbas de Priscila são, portanto, o documento mais antigo desta fé vivida.
Outros frescos marianos nas catacumbas de priscila
Além da Mater Domina, as Catacumbas de Priscila conservam outros frescos de relevância mariológica. Na Capella Greca encontra-se igualmente uma Anunciação, considerada a mais antiga representação deste episódio evangélico, onde o arcanjo Gabriel se inclina ante Maria sentada. A disposição hierárquica das figuras e o gesto do anjo reproduzem convenções da arte romana imperial, indicando que os primeiros cristãos adaptaram as linguagens visuais do seu tempo para exprimir a novidade da fé.
Outro fresco relevante representa a Fractio Panis, a fracção do pão eucarístico, onde uma figura feminina preside à ceia, interpretada por alguns especialistas como referência à comunidade orante que se reunia sob a protecção de Maria. Esta leitura eclesial, que associa Maria à Igreja reunida em torno da Eucaristia, antecipa a doutrina que o Concílio Vaticano II formulará no capítulo VIII da Lumen Gentium.
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