Marta e Maria, o único necessário e o primado da graça

«Fides per caritatem operans»: Paulo, a taça dos fariseus e Maria

Audistis enim conversationem meam aliquando in Iudaismo, quoniam supra modum persequebar Ecclesiam Dei et expugnabam illam.
Gl 1,13

A vida cristã nasce de uma iniciativa que não parte de nós. Paulo, escrevendo aos Gálatas, e Maria de Betânia, sentada aos pés do Senhor, atestam a mesma verdade sob duas formas, o primado da graça sobre a obra e da escuta sobre o afã. As duas leituras desta terça-feira da 27ª Semana do Tempo Comum, distantes na letra, tocam-se no centro. Uma mostra um homem arrancado do seu próprio zelo, a outra uma mulher que se detém quando tudo a convidava a servir. Ambas nos ensinam que a fé não é conquista, é acolhimento. Antes de agir por Deus, o fiel deixa-se conduzir por Ele.

I. A primeira leitura, a graça que precede o homem

O testemunho autobiográfico de Paulo é a mais límpida confissão do primado da graça em todo o seu epistolário. O Apóstolo recorda o seu passado sem atenuantes, supra modum persequebar Ecclesiam Dei, para além de toda a medida perseguia a Igreja de Deus (Gl 1,13). Não descreve um fervor apenas desviado por acidente, descreve um homem inteiro voltado contra Cristo, cuja própria rectidão religiosa se tornara o instrumento do erro. Paulo era irrepreensível segundo a Lei, e é precisamente aí que reside o drama, a observância pode endurecer o coração quando se fecha à novidade de Deus. A sua conversão não corrige um deslize de conduta, inverte por completo o sentido de uma existência.

O eixo de todo o relato está na origem que Paulo reivindica para a sua vocação. Ele não recebeu o Evangelho de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo, e reconhece que foi Deus quem o separou desde o seio de sua mãe e o chamou pela sua graça (Gl 1,15-16). A expressão ecoa a linguagem dos profetas, de Jeremias e do Servo de Isaías, e inscreve o Apóstolo numa eleição que antecede todo o mérito. Por isso não consultou a carne e o sangue, retirou-se para a Arábia, voltou a Damasco, e só ao cabo de três anos subiu a Jerusalém para conhecer Cefas, permanecendo quinze dias, sem ver outro dos apóstolos além de Tiago, o irmão do Senhor (Gl 1,17-19). A conclusão é uma doxologia, as igrejas da Judeia glorificavam a Deus por causa dele (Gl 1,24). O perseguidor tornado arauto não engrandece a si mesmo, torna-se transparente à obra que o atravessou. A graça não recompensa o homem, refá-lo.

II. O evangelho, a melhor parte de Maria de Betânia

A cena de Betânia é uma parábola vivida sobre a hierarquia dos bens na existência do fiel. Marta acolhe Jesus em sua casa e entrega-se ao serviço da hospitalidade, ocupação santa e necessária, que o próprio Senhor em nenhum momento condena. Maria, sua irmã, senta-se aos pés do Mestre e escuta a sua palavra (Lc 10,39). A tensão não opõe o bem ao mal, opõe o bom ao melhor, e nisto reside a delicadeza do episódio. O reproche do Senhor não recai sobre o trabalho de Marta, recai sobre a inquietação que o corrói por dentro, sollicita es et turbaris erga plurima, andas ansiosa e perturbada com muitas coisas (Lc 10,41).

A palavra decisiva é uma só. Porro unum est necessarium, uma só coisa é necessária, e Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada (Lc 10,42). O termo que a Vulgata verte por optimam partem traduz o grego ἀγαθὴν μερίδα, a porção boa, que na Escritura designa a herança reservada aos que fazem de Deus o seu quinhão. A escuta de Maria não é passividade nem ócio, é o ato mais alto de que a criatura é capaz, deixar que a Palavra a preceda e a plasme. Só quem primeiro se senta pode depois servir sem se perder. A atividade que não brota da contemplação esgota-se em agitação, e a agitação, por mais generosa, acaba por afastar o coração do único que o poderia saciar.

III. O único necessário

As duas leituras convergem numa mesma sabedoria, a de que a existência do fiel se decide não na quantidade das obras, mas na qualidade da sua raiz. Paulo é conquistado por uma graça que o precede e o reorienta por inteiro. Maria é louvada por acolher uma presença que vale mais do que todo o serviço. Num caso e no outro, o protagonista verdadeiro é Deus que se dá, e o homem alcança a sua grandeza quando consente em receber antes de dar. A tradição espiritual da Igreja, de Agostinho a Bérulle, leu nestes textos a mesma lição, o amor não se mede pela febre da ação, mede-se pela profundidade da adesão.

Daqui nasce um discernimento que atravessa toda a vida cristã. O serviço de Marta é indispensável, e sem ele o Evangelho não teria mãos. A escuta de Maria, porém, é anterior e superior, porque dela o serviço recebe a sua alma. Quando o fazer se emancipa da escuta, converte-se em ruído, e o fiel, julgando honrar o Senhor, esquece-o no próprio zelo com que o serve. A ordem correta não suprime a obra, ordena-a. Primeiro sentar-se, depois levantar-se. Primeiro escutar a Palavra, depois anunciá-la, como fez Paulo, que só pregou aquilo que primeiro recebeu por revelação.

IV. Maria de Nazaré, a escuta perfeita

Maria de Betânia é figura de outra Maria, aquela em quem a escuta atingiu a sua plenitude. A Virgem de Nazaré não aparece nomeada nas leituras de hoje, mas nenhuma delas se compreende plenamente sem Ela, porque foi a primeira a viver o que ambas ensinam. No mesmo Evangelho, Lucas põe nos lábios de Jesus a bem-aventurança que a define, beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud, felizes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam (Lc 11,28). Maria ouviu a palavra do anjo, guardou todas as coisas meditando-as no coração (Lc 2,19), e ao seu fiat, faça-se, ligou o próprio Verbo que se fez carne. Ela é, antes de qualquer outra, a mulher da porção boa que não lhe foi tirada.

O Concílio Vaticano II fez desta escuta obediente o fundamento da associação da Virgem à Igreja. Maria, ao consentir na palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, abraçando de todo o coração a vontade salvífica de Deus, dedicou-se totalmente à pessoa e à obra do Filho (Lumen Gentium, 56, 21 de novembro de 1964). Por isso a mesma Constituição a proclama modelo da Igreja, quando afirma que a Mãe do Senhor in ordine fidei, caritatis et perfectae cum Christo unionis Ecclesiae typum praefulget, resplandece como figura da Igreja na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo (Lumen Gentium, 63). A escuta não a torna passiva, torna-a fecunda. É a atenção do coração que faz da criatura Theotokos, Mãe de Deus.

O magistério mariano posterior aprofundou este mesmo veio. A exortação Marialis Cultus recorda que a Virgem é mestra de vida espiritual precisamente porque foi a discípula que primeiro escutou e guardou (Paulo VI, Marialis Cultus, 35, 2 de fevereiro de 1974), e a encíclica Redemptoris Mater percorre toda a peregrinação da fé de Maria como o caminhar de quem avança na obediência à Palavra recebida (João Paulo II, Redemptoris Mater, 2, 25 de março de 1987). O ensinamento é uno e constante. Diante de um mundo que nos incita a uma atividade sem descanso e nos julga pela medida do que produzimos, Marta e Maria de Betânia devolvem-nos a única hierarquia que salva. Que possamos, com a Virgem fiel, escolher a melhor parte, sentar-nos aos pés do Senhor e guardar a sua palavra, sabendo que dessa escuta, e só dela, nasce todo o serviço que verdadeiramente permanece.

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