Nossa Senhora das Dores: a memória litúrgica de 15 de setembro

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Stabat mater dolorosa iuxta crucem lacrimosa, dum pendebat Filius.
«Estava a Mãe dolorosa junto da cruz, em lágrimas, enquanto o Filho pendia» (sequência Stabat Mater)
A Igreja celebra em 15 de setembro a memória da Bem-aventurada Virgem Maria das Dores, que o Missal Romano chama Beata Maria Virgo Perdolens. A data vem logo depois da festa da Exaltação da Santa Cruz. Paulo VI contou esta memória entre as celebrações em que Maria aparece estreitamente unida ao Filho, e viu nela uma ocasião para recordar momentum maximum et quasi decretorium historiae salutis, «o momento máximo e quase decisivo da história da salvação», e venerar a Mãe que estava junto do Filho elevado na cruz (MC 7). Maria Marcellina Pedico, que estudou a liturgia e a piedade popular das Dores, observa que a proximidade das duas datas, 14 e 15 de setembro, põe a memória mariana numa moldura fortemente cristológica: celebra-se a Mãe das Dores não em si mesma, mas com Cristo e em Cristo (PEDICO, 2015, p. 51).
Da devoção à memória
A celebração litúrgica das dores de Maria nasceu na Idade Média. O primeiro documento seguro é um decreto do concílio provincial de Colônia, de 22 de abril de 1423, que mandou celebrar todos os anos a comemoração da angústia e da dor da Virgem, em honra da dor que ela sofreu quando Jesus, na cruz, a confiou ao discípulo amado (MAGGIANI, 1986, p. 11). Segundo o liturgista Silvano Maggiani, a festa das Sete Dores da sexta-feira da Paixão, a que precede a Semana Santa, foi concedida à Ordem dos Servos de Maria em 1714 e estendida por Bento XIII, a pedido da mesma Ordem, a toda a Igreja latina em 1727. Em 1814, Pio VII estendeu a festa das Sete Dores do terceiro domingo de setembro, com os textos que os Servos já usavam, e a reforma de Pio X, em 1913, fixou-a em 15 de setembro, para valorizar o domingo (MAGGIANI, 1986, p. 12 e 16). A reforma das rubricas de 1960 reduziu a festa da sexta-feira a simples comemoração, e o calendário de 1969 suprimiu essa comemoração e reduziu a celebração de 15 de setembro ao grau de memória (MAGGIANI, 1986, p. 12).
O Missal de 1962 ainda trazia a festa Septem Dolorum Beatae Mariae Virginis, das Sete Dores, e a sua coleta falava da espada que trespassou dulcissimam animam gloriosae Virginis et Matris Mariae, «a dulcíssima alma da gloriosa Virgem e Mãe Maria», segundo a profecia de Simeão (MISSALE ROMANUM, 1962, p. 656). O Missal de Paulo VI renovou quase todos os textos. Mudou a antífona de entrada, que em 1962 era Stabant iuxta Crucem Iesu mater eius (Jo 19,25), e manteve o Evangelho de Maria junto da cruz e a sequência Stabat Mater, agora facultativa e com alguns versos retocados (MISSALE ROMANUM, 1962, p. 656-657, MISSALE ROMANUM, 1977, p. 699-704).
A missa de 15 de setembro
A antífona de entrada é hoje a profecia de Simeão: Dixit Simeon ad Mariam: Ecce, positus est hic in ruinam et in resurrectionem multorum in Israel, et in signum cui contradicetur, et tuam ipsius animam pertransibit gladius, «Simeão disse a Maria: Eis que este está posto para queda e ressurreição de muitos em Israel, e como sinal de contradição, e uma espada atravessará a tua própria alma» (Lc 2,34-35). A coleta pede: Deus, qui Filio tuo in cruce exaltato compatientem Matrem astare voluisti, da Ecclesiae tuae, ut, Christi passionis cum ipsa consors effecta, eiusdem resurrectionis particeps esse mereatur, «Ó Deus, que quisestes que junto do vosso Filho elevado na cruz estivesse a sua Mãe, sofrendo com ele, concedei à vossa Igreja que, associada com ela à paixão de Cristo, mereça participar da sua ressurreição» (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 699).
Essa oração não é antiga. Ignazio Calabuig e Rosella Barbieri mostraram que as duas primeiras linhas da coleta vêm de uma oração do Próprio da Ordem dos Servos de Maria de 1965, a da sexta-feira depois do primeiro domingo da Paixão, com uma só mudança: pendenti, «pendente», passou a exaltato, «elevado», palavra que convinha a uma memória celebrada no dia seguinte à Exaltação da Santa Cruz. A oração depois da comunhão vem da que o mesmo Próprio tinha para 15 de setembro, com vários retoques: a fórmula que chamava Maria humani generis Reparatrix, «Reparadora do gênero humano», deu lugar a compassionem beatae Mariae Virginis recolentes, e só o final tirado de Cl 1,24 passou sem mudança (CALABUIG e BARBIERI, 1979, p. 533-536). As três orações da antiga festa das Sete Dores, a coleta, a oração sobre as oferendas e a oração depois da comunhão, foram todas substituídas (CALABUIG e BARBIERI, 1979, p. 532-533).
A primeira leitura é da Carta aos Hebreus, sobre Cristo que, nos dias da sua carne, ofereceu preces e súplicas com forte clamor e lágrimas e aprendeu a obediência pelo que sofreu (Hb 5,7-9). O salmo responsorial é o Sl 30, com o refrão Salvum me fac, Domine, in misericordia tua, «Salvai-me, Senhor, pela vossa misericórdia», e com o versículo que Jesus rezou na cruz (Lc 23,46), In manus tuas commendo spiritum meum, «Em vossas mãos entrego o meu espírito» (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 700-701). A sequência Stabat Mater é facultativa e pode ser dita inteira ou na forma breve, a partir de Sancta mater (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 701). A aclamação ao Evangelho diz: Felix est beata Maria Virgo, quae sine morte meruit martyrii palmam sub cruce Domini, «Feliz é a bem-aventurada Virgem Maria, que sem morrer mereceu a palma do martírio sob a cruz do Senhor» (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 703).
O Evangelho é Jo 19,25-27: Εἱστήκεισαν δὲ παρὰ τῷ σταυρῷ τοῦ Ἰησοῦ ἡ μήτηρ αὐτοῦ, «junto da cruz de Jesus estava a sua mãe», e Jesus lhe diz γύναι, ἴδε ὁ υἱός σου, «Mulher, eis o teu filho», e ao discípulo ἴδε ἡ μήτηρ σου, «eis a tua mãe» (Jo 19,25-27). O Missal oferece em alternativa a cena da apresentação no Templo, Lc 2,33-35 (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 703-704).
A oração sobre as oferendas lembra que Deus, na sua clemência, nos deu Maria como mãe quando ela estava junto da cruz de Jesus: quam, stantem iuxta crucem Iesu, clementer nobis Matrem piissimam providisti, «que, estando junto da cruz de Jesus, nos destes clementemente como Mãe piíssima» (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 704). E a oração depois da comunhão aplica à Igreja a palavra de São Paulo em Cl 1,24: ut, compassionem beatae Mariae Virginis recolentes, ea in nobis pro Ecclesia adimpleamus, quae desunt Christi passionum, «para que, recordando a compaixão da bem-aventurada Virgem Maria, completemos em nós, pela Igreja, o que falta aos sofrimentos de Cristo» (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 704).
O sentido da memória
Pedico resume os três textos de oração: todos unem o mistério da Mãe das Dores à vocação da Igreja de se associar ao mistério pascal de Cristo (PEDICO, 2015, p. 55). A memória não fecha Maria num sentimento privado. Mostra a Mãe que esteve junto da cruz e foi dada ao discípulo como mãe, imagem da Igreja que também é mãe (PEDICO, 2015, p. 50-51). O Concílio ensinou que Maria esteve junto da cruz non sine divino consilio, «não sem desígnio divino», vehementer cum Unigenito suo condoluit et sacrificio Eius se materno animo sociavit, «sofreu profundamente com o seu Unigênito e se associou com ânimo materno ao seu sacrifício» (LG 58). A memória de 15 de setembro celebra essa associação, e a coleta pede para a Igreja a mesma sorte: participar da paixão com Maria para participar com ela da ressurreição.
Referências
CALABUIG, Ignazio M. e BARBIERI, Rosella. Tracce del Proprium dei Servi di Maria nel Missale Romanum di Paolo VI. Marianum, Roma, v. 41, p. 522-540, 1979.
CONCÍLIO VATICANO II. Constitutio dogmatica Lumen gentium, n. 58. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 57, p. 61-62, 1965.
MAGGIANI, Silvano. Addolorata. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 3-16.
MISSALE ROMANUM ex decreto SS. Concilii Tridentini restitutum. Editio typica. Cidade do Vaticano: Typis Vaticanis, 1962. p. 656-657.
MISSALE ROMANUM cum lectionibus ex decreto sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum. v. 4. [S.l.: s.n.], 1977. p. 699-704.
NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece. 28. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.
PAULO VI. Adhortatio apostolica Marialis cultus, n. 7. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 66, p. 121, 1974.
PEDICO, Maria Marcellina. Mater dolorosa: l’Addolorata nella pietà popolare. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2015. p. 49-56.
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