O dispensador fiel e o mistério escondido nos séculos

«Ambulate in dilectione»: Paulo, a porta estreita e Maria

Quis, putas, est fidelis dispensator, et prudens, quem constituit dominus supra familiam suam?
Lc 12,42

A liturgia da quarta-feira da vigésima nona semana do Tempo Comum coloca lado a lado duas meditações sobre a mesma palavra. Paulo, cativo por causa do Evangelho, contempla a dispensatio gratiæ Dei (a dispensação da graça de Deus) que lhe foi confiada em Ef 3,2-12. Lucas, no fio da catequese sobre a vigilância, apresenta o fidelis dispensator (o administrador fiel) que o senhor põe à frente da casa em Lc 12,39-48. O salmo tirado de Is 12 canta o júbilo de quem bebe da fonte da salvação. Entre a revelação de um mistério escondido desde os séculos e a exigência de fidelidade até à hora imprevista, corre uma só economia, e é essa economia que a Igreja hoje contempla.

I. A dispensação da graça e o mistério revelado

Paulo não fala de uma ideia sua, mas de um segredo recebido. O Apóstolo apresenta-se como aquele a quem foi dada uma dispensatio, uma administração, em vista dos destinatários, gratiæ Dei, quæ data est mihi in vobis (a graça de Deus que me foi dada a vosso respeito), e o que administra é o sacramentum, o mystérion conhecido secundum revelationem (por revelação). O conteúdo desse mistério é preciso e escandaloso para a mentalidade antiga: os pagãos são cohæredes, et concorporales, et comparticipes promissionis (co-herdeiros, membros do mesmo corpo e associados à mesma promessa) em Cristo Jesus por meio do Evangelho. Não se trata de uma admissão tardia e marginal, mas de um desígnio eterno que agora se descobre. Paulo confessa-se omnium sanctorum minimo (o menor de todos os santos), e contudo encarregado de anunciar aos gentios as investigabiles divitias Christi (as insondáveis riquezas de Cristo). A humildade do ministro é a medida da grandeza do dom.

O que estava velado torna-se manifesto pela Igreja. O mistério estava absconditi a sæculis in Deo (escondido desde os séculos em Deus), e a sua revelação tem por palco não apenas os homens, mas as inteligências celestes, ut innotescat principatibus et potestatibus in cælestibus per Ecclesiam, multiformis sapientia Dei (para que a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida, por meio da Igreja, aos principados e potestades nos céus). A Igreja não é ornamento do plano, é o teatro onde a sabedoria de mil matizes se lê. O ministro nada inventa, apenas dispensa o que recebeu. E o termo dessa dispensação é o acesso confiante ao Pai, fiduciam, et accessum in confidentia per fidem ejus (a liberdade e o acesso com confiança pela fé nele). O tesouro é distribuído para que todos entrem.

II. O servo fiel e a hora que não se sabe

Jesus desloca a vigilância do plano do medo para o plano da responsabilidade. Primeiro vem a imagem do dono da casa que, sabendo a hora do ladrão, vigilaret utique, et non sineret perfodi domum suam (vigiaria e não deixaria arrombar a sua casa), e a aplicação é direta, qua hora non putatis, Filius hominis veniet (o Filho do Homem virá na hora em que não pensais). A pergunta de Pedro, ad nos dicis hanc parabolam, an et ad omnes? (dizes esta parábola para nós ou para todos?), não recebe resposta simples. O Senhor responde com outra imagem, a do fidelis dispensator, et prudens posto sobre a família ut det illis in tempore tritici mensuram (para dar a cada um a ração de trigo no tempo certo). A vigília cristã não é olhar parado para o céu, é distribuir o alimento na hora devida.

O contraste que se segue é implacável. Feliz o servo que o senhor, ao voltar, encontra assim agindo, Beatus ille servus, porque lhe será confiado tudo. Mas se o servo disser no coração Moram facit dominus meus venire (o meu senhor tarda a vir) e começar a espancar os criados e a embriagar-se, o senhor virá in die qua non sperat, et hora qua nescit (no dia que não espera e na hora que não sabe) e o porá com os infiéis. A gradação final fixa o princípio de justiça. O servo que conheceu a vontade e não a cumpriu vapulabit multis (será açoitado muito), o que não a conheceu vapulabit paucis (será açoitado pouco). E a sentença que tudo resume, Omni autem cui multum datum est, multum quæretur ab eo (a quem muito foi dado, muito será pedido). A medida do juízo é a medida do dom recebido.

III. Uma só economia, do mistério à vigília

As duas leituras não se justapõem, comunicam-se pela mesma raiz. Paulo é dispensator do mistério, o servo de Lucas é dispensator da casa, e a palavra grega subjacente é a mesma que faz de todo ministro, na expressão de 1 Cor 4,1, um dispensator mysteriorum Dei (administrador dos mistérios de Deus). A graça não é propriedade, é depósito. Quem a recebe recebe-a para a repartir, e por isso a riqueza insondável de Cristo e a ração de trigo no tempo certo são a mesma economia vista de dois ângulos, o do mistério que se anuncia e o da vigília que se pratica. Guardar o dom é dispensá-lo, e dispensá-lo é vigiar.

Entre a revelação e a parusia abre-se o tempo da Igreja. Nesse intervalo, o critério não é a espera vazia mas a fidelidade laboriosa, não a posse tranquila mas a distribuição atenta. O salmo dá o tom afetivo dessa fidelidade, Ecce Deus salvator meus, fiducialiter agam, et non timebo (eis o Deus, meu Salvador, agirei com confiança e não temerei), porque a mesma fiducia que Paulo diz alcançada pela fé é a que dispensa o servo de todo medo servil. Quem sabe de quem recebeu, sabe a quem prestará contas, e trabalha sem terror e sem preguiça. A hora imprevista deixa de ser ameaça para os que administram bem, e torna-se promessa.

IV. Maria, dispensadora fiel do mistério

Maria é a primeira administradora fiel e prudente do mistério escondido nos séculos. A ela foi dado muito, pois é gratia plena, a kecharitōménē, e dela muito foi requerido, pois lhe foi confiada não uma ração de trigo, mas o Pão vivo descido do céu. Aquilo que Paulo chama sacramentum absconditum a sæculis, o mistério escondido, tomou carne no seu seio, e assim a Virgem foi feita o lugar onde o desígnio eterno se dispensou ao mundo. Ela não anunciou o mistério com palavras primeiro, mas com o corpo, dando ao Verbo a humanidade em que a multiforme sabedoria de Deus se tornaria legível aos homens e aos anjos.

A sua vigilância é o modelo de toda a fidelidade da casa. Maria é a serva que conservabat omnia verba hæc, conferens in corde suo (guardava todas estas palavras, meditando-as no coração), segundo Lc 2,19, e é a mulher da lâmpada acesa que espera o Senhor sem que o coração se embriague. Em Caná, ela dá o alimento no tempo certo, dizendo quodcumque dixerit vobis, facite (fazei tudo o que ele vos disser), e nesse gesto antecipa toda a mediação materna que distribui à Igreja as riquezas insondáveis do Filho. A quem foi dada a plenitude, foi pedida a doação total. O Concílio Vaticano II, na Lumen gentium, chama-lhe cooperadora da salvação pela obediência, e a tradição venera-a como dispensatrix das graças que administra sem as reter. Contemplá-la é aprender a vigília que não teme a hora, porque já entregou tudo ao Senhor que há de vir.

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