O segredo de La Salette: as mensagens de Mélanie e Maximin e a controvérsia de 1879

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
S’ils se convertissent, les pierres et les rochers se changeront en blé.
«Se se converterem, as pedras e os rochedos se mudarão em trigo» (palavras da Virgem em La Salette, 19 de setembro de 1846)
Em 19 de setembro de 1846, nos Alpes franceses, dois pastores disseram ter visto uma Senhora que chorava. A aparição de La Salette foi reconhecida pelo bispo de Grenoble em 1851 e deu origem a um santuário, a uma congregação missionária e a uma devoção espalhada pelo mundo. Mas La Salette ficou também ligada a uma longa controvérsia: a dos «segredos» que a Virgem teria confiado às duas crianças. Este artigo distingue com cuidado o que a Igreja aprovou do que nunca aprovou, a partir dos documentos.
A aparição de 19 de setembro de 1846
O verbete «La Salette» do Dicionário das aparições dirigido por René Laurentin e Patrick Sbalchiero, escrito por Laurentin e Michel Corteville, resume os fatos: «Le 19 septembre 1846, Mélanie Calvat (quatorze ans) et Maximin Giraud (onze ans), deux bergers de Corps, montent ensemble dans les alpages du village de La Salette», «em 19 de setembro de 1846, Mélanie Calvat, de catorze anos, e Maximin Giraud, de onze, dois pastores de Corps, sobem juntos às pastagens de altitude da aldeia de La Salette» (LAURENTIN e CORTEVILLE, 2007, p. 507). A aldeia pertencia à comuna de La Salette-Fallavaux, na diocese de Grenoble. Era um sábado, à hora das primeiras Vésperas da festa de Nossa Senhora das Dores (STERN, 1997, p. 203).
A mensagem pública é dura e simples. A Senhora, que os pastores viram primeiro sentada a chorar, levanta-se e queixa-se de que o domingo não é guardado, de que se blasfema o nome de Deus e de que não se respeita a Quaresma, e anuncia a perda das colheitas: «déjà le blé se gâte, les pommes de terre pourrissent», «já o trigo se estraga, as batatas apodrecem». Fala do «braço do seu Filho», que o pecado torna pesado, e das suas próprias lágrimas: «Depuis le temps que je souffre par vous autres», «há quanto tempo sofro por vós». Mas deixa uma promessa condicional: se o povo se converter, as pedras e os rochedos mudar-se-ão em trigo (LAURENTIN e CORTEVILLE, 2007, p. 507). O Dicionário resume o essencial assim: a mensagem são, antes de tudo, «les larmes silencieuses de la Vierge sur le péché par lequel le monde s’autodétruit», «as lágrimas silenciosas da Virgem sobre o pecado pelo qual o mundo se destrói a si mesmo» (LAURENTIN e CORTEVILLE, 2007, p. 506).
No meio desta mensagem, a Senhora confiou a cada criança, separadamente, algumas palavras que deviam guardar «até nova ordem». São os segredos de La Salette.
O reconhecimento da aparição e os segredos enviados a Pio IX
O bispo de Grenoble, D. Philibert de Bruillard, mandou investigar o caso durante cinco anos. Antes de publicar o seu juízo, fez as crianças escrever os seus segredos para o papa. Segundo Stern, o pedido partiu do cardeal de Bonald, arcebispo de Lyon, e a convicção do bispo sobre a aparição já se tinha formado em 1847 e 1848, independentemente dos segredos (STERN, 2010, p. 537-539). Mélanie e Maximin escreveram-nos em julho de 1851, cada um à parte, e dois sacerdotes da diocese, Rousselot e Gerin, levaram as cartas seladas a Roma. Pio IX leu-as na presença deles, a 18 de julho de 1851 (STERN, 1991, p. 43). Segundo o relato dos dois enviados, o papa mostrou-se comovido e comentou que eram flagelos que ameaçavam a França, mas que também a Alemanha, a Itália e toda a Europa eram culpadas e mereciam castigos (CORTEVILLE e LAURENTIN, 2002, p. 138-139). Outros testemunhos, recolhidos pelo historiador Jean Stern, atribuem-lhe mais tarde juízos francamente negativos sobre as cartas (STERN, 1991, p. 44-49), e os estudiosos continuam a discutir o peso que Pio IX lhes deu.
Uma frase atribuída ao papa ficou célebre. Refere-se a uma audiência de 1874 ao superior dos Missionários de La Salette e foi publicada pelos Anais do santuário em 1891: «Le Secret de la Salette !… mon fils, ce qu’il faut en penser ? Si vous ne faites pénitence, vous périrez tous !», «o Segredo de La Salette!… meu filho, o que pensar dele? Se não fizerdes penitência, perecereis todos!» É uma palavra do Evangelho (Lc 13,5). Mas Stern mostra que, segundo o próprio P. Giraud, numa carta ao bispo de Grenoble e no relato que o engenheiro Dausse anotou em 1875, Pio IX disse então que os segredos nada significavam, e que a versão dos Anais transformou esse juízo numa piedosa exortação (STERN, 1991, p. 48-49).
O mandamento de reconhecimento, datado de 19 de setembro de 1851 e publicado em novembro desse ano, diz no artigo 1.º: «Nous jugeons que l’Apparition de la Sainte Vierge à deux Bergers, le 19 septembre 1846 […] porte en elle-même tous les caractères de la vérité, et que les fidèles sont fondés à la croire indubitable et certaine», «julgamos que a Aparição da Santíssima Virgem a dois Pastores, em 19 de setembro de 1846, traz em si mesma todos os caracteres da verdade, e que os fiéis têm fundamento para a crer indubitável e certa». E no artigo 3.º: «nous autorisons le culte de Notre-Dame de la Salette», «autorizamos o culto de Nossa Senhora de La Salette» (CARLIER, 1912, p. 316-317). O preâmbulo menciona o envio dos segredos ao papa, mas os artigos do mandamento só tratam da aparição e do culto. O bispo, que lera os segredos antes de os selar (CORTEVILLE e LAURENTIN, 2002, p. 47-48), aprovou a aparição. Não aprovou o conteúdo dos segredos. Em 1852 começou a construção do santuário e nasceram os Missionários de Nossa Senhora de La Salette.
Sobre a natureza dos segredos, há duas leituras. Jean Stern, missionário de La Salette e editor dos documentos do santuário, vê neles, na origem, conselhos pessoais a cada criança, que só depois se transformaram em profecias sobre o mundo (STERN, 2010, p. 536-537). Michel Corteville e René Laurentin consideram-nos uma mensagem profética, que Mélanie descrevia como recebida mais em imagens do que em palavras: «Un grand voile s’était levé, les événements se découvraient à mes yeux», «um grande véu se tinha levantado, os acontecimentos descobriam-se aos meus olhos» (LAURENTIN e CORTEVILLE, 2007, p. 510).
As redações sucessivas e a edição de 1879
Os segredos foram escritos várias vezes. O Dicionário conta oito redações entre 1851 e 1878, e nota que os videntes as fizeram, em geral, sem ter à vista as anteriores. A mais longa é a de Mélanie, que, vivendo em Itália, deixou divulgar extratos a partir de 1870 e depois, em 1879, publicou em Lecce o relato completo da aparição com o segredo transcrito por inteiro. A publicação levava o imprimatur do bispo de Lecce, D. Luigi Zola, de 15 de novembro de 1879 (CORTEVILLE e LAURENTIN, 2002, p. 55 e 241). Não levava aprovação do papa.
O papa Leão XIII tinha recebido Mélanie em audiência em 3 de dezembro de 1878, para falar sobretudo da regra religiosa que ela dizia ter recebido. Em 1879 concedeu ao santuário o título de basílica menor e mandou coroar a estátua da Virgem, o que confirma a devoção, não o segredo. E foi no seu pontificado que o Santo Ofício reagiu à edição de Lecce. Em 1880 mandou retirar o opúsculo «de la main des fidèles», «das mãos dos fiéis», e transmitiu ao bispo Zola uma decisão, confirmada pelo papa, de não se ocupar mais de Mélanie (STERN, 1997, p. 217). A própria Mélanie foi proibida de comentar o segredo e, em 1881, ameaçada de excomunhão se voltasse a falar dele (CORTEVILLE e LAURENTIN, 2002, p. 241-242).
O decreto de 1915 e a condenação de 1923
A polêmica continuou, com livros e artigos que aplicavam o segredo aos acontecimentos do tempo. Em 21 de dezembro de 1915, já no pontificado de Bento XV, o Santo Ofício publicou um decreto. O texto, nas Acta Apostolicae Sedis, manda a todos os fiéis «ne sub quovis praetextu vel quavis forma, nempe per libros, opuscula aut articulos sive subscriptos sive sine nomine, vel alio quovis modo, de memorato subiecto disserant aut pertractent», «que sob nenhum pretexto nem de nenhuma forma, isto é, por livros, opúsculos ou artigos, assinados ou sem nome, ou por qualquer outro modo, discorram ou tratem do referido assunto», o «chamado Segredo de La Salette». E acrescenta logo: «Hoc autem decretum devotionem non vetat erga Beatissimam Virginem sub titulo Reconciliatricis vulgo de la Salette nuncupatam», «este decreto, porém, não proíbe a devoção à Beatíssima Virgem sob o título de Reconciliadora, chamada de La Salette» (AAS 7 (1915), p. 594).
Em 9 de maio de 1923, o Santo Ofício condenou uma reimpressão do texto de Mélanie publicada em 1922, e mandou retirar os exemplares das mãos dos fiéis. O papa Pio XI aprovou a decisão no mesmo dia (AAS 15 (1923), p. 287-288).
Depois das reformas do século XX, o decreto de 1915 já não tem força de lei em sentido próprio, mas, segundo Stern, a prática da Congregação para a Doutrina da Fé continuou a inspirar-se nele (STERN, 1997, p. 221).
1999: a descoberta das cartas de 1851
Em 1998, os arquivos da Congregação para a Doutrina da Fé anteriores à morte de Leão XIII foram abertos aos investigadores. Em 2 de outubro de 1999, o padre Michel Corteville encontrou lá as cartas originais que Maximin e Mélanie tinham escrito para Pio IX em julho de 1851. Corteville e Laurentin publicaram-nas em 2002, com a ortografia regularizada, no livro Découverte du secret de La Salette.
O texto de Maximin anuncia, entre outras coisas: «La foi s’éteindra dans la France», «a fé apagar-se-á na França», e fala de um papa perseguido e de um sucessor «que personne [n’attend]», «que ninguém espera». O de Mélanie começa: «Le temps de la colère de Dieu est arrivé!», «chegou o tempo da ira de Deus!», e fala da destruição de Paris e de Marselha e de um papa perseguido, sobre quem dispararão, mas que triunfará (CORTEVILLE e LAURENTIN, 2002, p. 47-49).
A descoberta renovou o debate histórico. Para Corteville e Laurentin, mostra que o núcleo profético existia desde 1851. Para Stern, o juízo negativo de Pio IX incidiu sobre as próprias cartas de 1851, que dependem já da literatura profética da época, e não toca a mensagem pública da aparição (STERN, 2010, p. 538-542). Importa sublinhar o que não aconteceu: não se conhece nenhum ato da Congregação para a Doutrina da Fé, em 1999 ou depois, que aprove o segredo ou encerre a questão.
O que a Igreja aprovou
A Igreja distingue duas coisas. A aparição de 19 de setembro de 1846 foi reconhecida pelo bispo de Grenoble em 1851, o seu culto foi autorizado e os papas favoreceram-no, por exemplo ao elevar o santuário a basílica menor e mandar coroar a estátua em 1879, sem que isso seja um juízo pontifício sobre a aparição, cujo reconhecimento é o do bispo diocesano. Pio XII, ao aproximar-se o centenário, numa carta de 8 de outubro de 1945, escreveu sobre «l’Apparition de Notre-Dame de la Salette, dont le procès canonique, institué en son temps par l’autorité diocésaine, s’avéra favorable», «a Aparição de Nossa Senhora de La Salette, cujo processo canónico, instruído a seu tempo pela autoridade diocesana, se revelou favorável», e lembrou a Madona em lágrimas que, «ainsi qu’on le rapporte», «como se relata», vinha pedir aos seus filhos que entrassem decididamente no caminho da conversão (PIO XII, AAS 38 (1946), p. 155-156).
O segredo, pelo contrário, nunca recebeu aprovação. Bento XV, segundo um relato de Jacques Maritain sobre uma audiência de 1918, resumia assim a questão: a aparição está fora de dúvida, mas quanto ao segredo, «quoad substantiam concedo, quoad singula verba nego», «quanto à substância concedo, quanto às palavras singulares nego» (CORTEVILLE e LAURENTIN, 2002, p. 140). É um relato privado, não um ato de magistério, mas exprime bem a prudência da Igreja.
O que fica de La Salette, para os fiéis, é a mensagem pública: as lágrimas de uma Mãe pelo pecado dos seus filhos, o chamamento a guardar o domingo, a respeitar o nome de Deus e a fazer penitência, e a promessa de que a conversão muda a terra. Foi isso que o bispo aprovou em 1851 e que a Igreja continua a propor.
Referências
ACTA APOSTOLICAE SEDIS. Suprema Sacra Congregatio S. Officii. Decretum circa vulgo dictum «Secret de La Salette», 21 dez. 1915. Acta Apostolicae Sedis, Romae, v. 7, p. 594, 1915.
ACTA APOSTOLICAE SEDIS. Suprema Sacra Congregatio S. Officii. Damnatur opusculum «L’apparition de la très sainte Vierge sur la montagne de La Salette», 9 maio 1923. Acta Apostolicae Sedis, Romae, v. 15, p. 287-288, 1923.
CARLIER, Louis. Histoire de l’apparition de la Mère de Dieu sur la montagne de La Salette. Tournai: Missionnaires de La Salette, 1912. p. 315-318.
CORTEVILLE, Michel e LAURENTIN, René. Découverte du secret de La Salette. Paris: Fayard, 2002.
LAURENTIN, René e CORTEVILLE, Michel. La Salette. In: LAURENTIN, René e SBALCHIERO, Patrick (dir.). Dictionnaire des «apparitions» de la Vierge Marie. Paris: Fayard, 2007. p. 505-511.
PIO XII. Lettre au R. P. Cruveiller, 8 oct. 1945. Acta Apostolicae Sedis, Città del Vaticano, v. 38, p. 155-156, 1946.
STERN, Jean. La Salette. Documents authentiques. Paris: Cerf, 1991. v. 3.
STERN, Jean. La Salette depuis Vatican II. Marianum, Roma, v. 59, p. 203-245, 1997.
STERN, Jean. La Salette: une affaire de discernement. Marianum, Roma, v. 72, p. 535-546, 2010.
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