Paulo VI – confronto col’Inferno (15 de novembro de 1972): o discurso magistral sobre o diabo
O discurso de Paulo VI na Audiência Geral de 15 novembro 1972, conhecido na história como «Confronto col Diavolo» ou pela frase célebre «Si è creduto vedere il fumo di Satana entrare nel tempio di Dio» (proferida em 29 junho 1972), é a intervenção mais famosa do magistério contemporâneo sobre o Diabo. Texto integral em L’Osservatore Romano 16 novembro 1972.
| Papa | Beato Paulo VI |
| Documento | Audiência Geral, «Confronto col diavolo» |
| Data | 15 novembro 1972 |
| Tema | A existência pessoal do Diabo contra o silêncio e a desmitologização |
| Fonte | Insegnamenti di Paolo VI X (1972) 1166-1170: L’Osservatore Romano 16.11.1972 |
Contexto: o famoso «Fumo de satanás»
Em 29 junho 1972, na Missa de São Pedro e São Paulo, Paulo VI havia proferido uma frase que abalou a Igreja:
«Si è creduto che dopo il Concilio sarebbe venuta una giornata di sole per la storia della Chiesa. È venuta invece una giornata di nuvole, di tempesta, di buio, di ricerca, di incertezza… Crediamo in qualcosa di preternaturale venuto nel mondo proprio per turbare, per soffocare i frutti del Concilio Ecumenico, e per impedire che la Chiesa prorompesse nell’inno della sua gioia di aver riavuto in pienezza la coscienza di se stessa. Si è creduto vedere il fumo di Satana entrare nel tempio di Dio».
Português: «Acreditava-se que após o Concílio viria um dia de sol para a história da Igreja. Veio antes um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza… Cremos em alguma coisa preternatural vinda ao mundo precisamente para perturbar, para sufocar os frutos do Concílio Ecuménico, e para impedir que a Igreja irrompesse no hino da sua alegria por ter recuperado plenamente a consciência de si mesma. Acredita-se ver o fumo de Satanás entrar no templo de Deus.»
Esta frase deu origem a inúmeras especulações. Em 15 novembro 1972, Paulo VI dedicou inteiramente uma Audiência Geral ao tema do Diabo para clarificar a sua posição.
Texto italiano, audiência 15 novembro 1972
Quali sono oggi i bisogni più grandi della Chiesa? Non vi stupisca, come semplicistica, anzi superstiziosa e irreale, la nostra risposta: uno dei bisogni maggiori è la difesa da quel male, che chiamiamo il Demonio.
Permettete che apriamo gli occhi sulla realtà del mondo, sulla quale il giudizio della Sacra Scrittura, la Chiesa e la nostra esperienza umana ci illuminano. La Sacra Scrittura ci avverte: «Il vostro avversario, il diavolo, come leone ruggente sta in agguato per divorarvi» (1Pe 5, 8). Anzi tutto il prologo del vangelo di Giovanni… contiene questa formula misteriosa: «mundus eum non cognovit», il mondo non lo conobbe: e ad essa fa eco il discorso di Gesù nell’ultima cena: «mondo» significa «coloro che si oppongono a Cristo, alla sua fede e alla sua redenzione».
Il male non è solamente una deficienza, ma una efficienza, un essere vivo, spirituale, pervertito e pervertitore. Terribile realtà. Misteriosa e paurosa. Esce dai quadri dell’insegnamento biblico ed ecclesiastico chi rifiuta di riconoscerla esistente: o ne fa un principio a se stante, non avente, come ogni creatura, origine da Dio: ovvero la spiega come una pseudo-realtà, una personificazione concettuale e fantastica delle cause ignote dei nostri malanni.
Tradução portuguesa
Quais são hoje as maiores necessidades da Igreja? Não vos pareça, como simplista, até mesmo supersticiosa e irreal, a nossa resposta: uma das maiores necessidades é a defesa daquele mal que chamamos o Demónio.
Permitam-nos abrir os olhos sobre a realidade do mundo, sobre a qual o juízo da Sagrada Escritura, a Igreja e a nossa experiência humana nos iluminam. A Sagrada Escritura adverte-nos: «O vosso adversário, o diabo, como leão a rugir, anda em redor procurando a quem devorar» (1Pe 5, 8). Também todo o prólogo do Evangelho de João… contém esta fórmula misteriosa: «mundus eum non cognovit», o mundo não o conheceu: e a ela faz eco o discurso de Jesus na última ceia: «mundo» significa «aqueles que se opõem a Cristo, à sua fé e à sua redenção».
O mal não é somente uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual, pervertido e pervertedor. Terrível realidade. Misteriosa e assustadora. Sai dos quadros do ensino bíblico e eclesiástico quem recusa reconhecer a sua existência: ou faz dela um princípio em si, não tendo, como cada criatura, origem em Deus: ou a explica como uma pseudo-realidade, uma personificação conceptual e fantástica das causas desconhecidas das nossas tribulações.
O início liberaci dal male
Italiano: Quale è dunque la difesa? Liberaci dal male, prega il Signore. La nostra maggiore difesa è la grazia, e l’innocenza, e l’inesperata vittoria del Bene sul Male, che è diventata accessibile per virtù della preghiera, dei sacramenti e della testimonianza personale di vita.
Português: Qual é portanto a defesa? Livrai-nos do mal, ora ao Senhor. A nossa maior defesa é a graça, e a inocência, e a inesperada vitória do Bem sobre o Mal, que se tornou acessível pela virtude da oração, dos sacramentos e do testemunho pessoal de vida.
As quatro afirmações magnas
- O Diabo existe como ser pessoal. Não é símbolo, não é mito, não é personificação.
- O Diabo age no mundo. Perturba a Igreja, ataca os fiéis, perverte as estruturas.
- O Diabo já foi vencido por Cristo, mas continua a agir até ao fim dos tempos.
- O cristão tem armas para resistir: graça, inocência, oração, sacramentos, testemunho.
Recepção do discurso
O discurso de 15 de novembro de 1972 foi um dos mais comentados do pontificado de Paulo VI. A maioria dos teólogos católicos «desmitologizadores» (Herbert Haag entre eles) viu-se contradita publicamente pelo Papa. Os tradicionalistas viram nele uma reafirmação bem-vinda da doutrina antiga. A imprensa secular ridicularizou. Mas o Vaticano, com este discurso, fixou a posição oficial da Igreja em demonologia para o pós-conciliar.
Herança
O discurso de Paulo VI foi a base para:
- CDF, Fé cristiana e demonologia 1975
- Catequeses de João Paulo II sobre o Diabo (1986)
- Novo Rito do Exorcismo (1999)
- CCC (1992) secção sobre demónios
- Conferências episcopais que renovaram exorcistas diocesanos nos anos 1980-2000
Leitura complementar
CDF, Fé e Demonologia 1975 | IV Concílio de Latrão 1215
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