A paz que derruba o muro e a lâmpada que não se apaga

«Ad aedificationem corporis christi»: Paulo, o grão e o fermento

Quoniam loquetur pacem in plebem suam, et super sanctos suos, et in eos qui convertuntur ad cor. (Porque Ele anunciará a paz ao seu povo, aos seus santos, e aos que se convertem de coração)
Ef 2,9 e Sl 84(85),9a

A liturgia da terça-feira da 29ª Semana do Tempo Comum coloca-nos diante de duas palavras que parecem distantes e que a Igreja lê como uma só. A primeira é a paz que reconcilia, a segunda é a vigília que espera. Entre a carta de Paulo aos Ephesii e a parábola dos servos que aguardam o senhor, corre uma linha única, o dom que Deus faz e a resposta que o fiel oferece. Não são dois temas justapostos, mas um só mistério visto de dois ângulos.

I. A primeira leitura: Ef 2,12-22

O Apóstolo abre a passagem com uma memória dura, quase cruel na sua lucidez. Antes de Cristo, escreve, estáveis sine Christo, alienati a conversatione Israel, et hospites testamentorum, promissionis spem non habentes, et sine Deo in hoc mundo (sem Cristo, alheios à comunidade de Israel, estrangeiros às alianças, sem esperança da promessa, e sem Deus no mundo). Paulo não descreve uma imperfeição, descreve um exílio. O gentio não era um cidadão diminuído, era um homem sem cidade, sem templo, sem aliança, sem Deus. A distância entre o pagão e a promessa não era uma questão de grau, era um abismo.

Sobre esse abismo Paulo lança a única ponte possível, e essa ponte tem um nome. Ipse enim est pax nostra, qui fecit utraque unum (Ele mesmo é a nossa paz, que dos dois fez um só). O Apóstolo não diz que Cristo trouxe a paz, diz que Cristo é a paz. A distinção é decisiva. A paz do Evangelho não é um bem que Ele distribui a partir de fora, é a sua própria pessoa oferecida no corpo entregue na cruz. O grego é aqui de uma precisão que a tradução mal contém, pois autós gár estin hē eirēnē hēmōn faz da segunda Pessoa da Trindade o próprio conteúdo da reconciliação. O muro que separava, o medium parietem maceriae (a parede intermédia de separação), cai não por decreto mas por sangue.

A paz de Cristo não é um tratado entre inimigos, é a morte da inimizade na sua carne.

Deste modo os que estavam longe e os que estavam perto são edificados numa só construção. Paulo desliza da imagem da cidade para a imagem do corpo, e do corpo para a imagem do templo. Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos dos santos e familiares de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a pedra angular. A metáfora culmina onde a liturgia quer que o nosso olhar repouse, no templum sanctum in Domino (templo santo no Senhor) que crescemos a ser. A graça de Cristo não produz apenas indivíduos salvos, produz uma habitação, um lugar onde Deus mora entre os homens.

II. O evangelho: Lc 12,35-38

Lucas passa da arquitetura à vigília, e o tom muda mas o coração é o mesmo. Cristo dirige aos discípulos uma ordem que tem a brevidade de um mandamento militar. Sint lumbi vestri praecincti, et lucernae ardentes in manibus vestris (Estejam os vossos rins cingidos e as lâmpadas acesas nas vossas mãos). Os rins cingidos são a túnica presa para o trabalho e para a marcha, a imagem antiga do homem que não descansa porque espera. A lâmpada acesa é a vigília do coração que não deixa apagar a chama recebida no batismo.

A parábola tem uma delicadeza que se perde na leitura apressada. Os servos aguardam o senhor que volta das núpcias, donec revertatur a nuptiis, e a hora é incerta. Pode vir na segunda vigília, pode vir na terceira. A incerteza não é ameaça, é dilatação da esperança. Quem espera com amor não conta as horas como quem teme, conta-as como quem deseja. E então vem a inversão que faz tremer toda expectativa humana. Bem-aventurados aqueles servos que o senhor, ao chegar, encontrar velando, porque em verdade vos digo que ele se cingirá, os fará sentar à mesa, e passando os servirá. O grego parelthōn diakonēsei autois diz literalmente que Ele passará no meio deles e os servirá.

O Senhor que esperamos não vem para ser servido, vem para nos servir à sua própria mesa.

Aqui a vigília deixa de ser tensão e torna-se festa antecipada. O empregado que velou não recebe apenas um salário, recebe o mestre ajoelhado diante dele com a toalha à cintura, como na noite da Ceia. A recompensa da espera é a comunhão, e a comunhão tem a forma do serviço divino.

III. A paz que une e a vigília que espera

As duas leituras convergem num ponto que só a fé percebe. Efésios anuncia a paz já dada, Lucas exige a vigília ainda pedida. Paulo olha para trás, para a cruz onde o muro caiu, Lucas olha para diante, para a porta onde o Senhor baterá. Entre o já e o ainda não vive toda a existência cristã, e essa existência tem três notas que a liturgia entrelaça, a reconciliação recebida, a unidade construída, a vigilância mantida.

Quem entendeu que Cristo é a sua paz não pode dormir como quem nada espera. A paz recebida não é um travesseiro, é uma lâmpada. Ela não dispensa a vigília, ela a sustenta, porque só quem já foi reconciliado sabe o que aguarda, e só quem aguarda com amor guarda intacta a reconciliação. A paz de Efésios é a razão da vigília de Lucas, e a vigília de Lucas é a prova da paz de Efésios. Separar as duas coisas é perder ambas.

Deste modo o templo santo que Paulo descreve e a mesa servida que Lucas promete são a mesma realidade em dois tempos. O templum sanctum que somos hoje é a antecâmara da mesa onde seremos servidos amanhã. A Igreja é a construção que espera acesa, e a sua espera não é vazia, é habitada pelo Espírito que nela mora.

IV. Maria, a morada da paz

Maria não aparece nas leituras deste dia, e no entanto elas parecem escritas a pensar nela. Quando Paulo chama a Igreja habitaculum Dei in Spiritu (habitação de Deus no Espírito) e domus Dei viventis pela força da mesma imagem, descreve por antecipação aquela que primeiro foi feita morada. Antes de ser templo o povo, foi templo a Virgem. O muro que separava o céu da terra caiu de modo definitivo quando o Verbo tomou carne no seu ventre, e a paz que é Cristo teve na sua fé a primeira cidade que a acolheu.

Ela é também a imagem exata do servo vigilante de Lucas. Ninguém teve os rins mais cingidos para o serviço, ninguém guardou a lâmpada mais acesa na longa noite entre a Anunciação e a cruz. Maria esperou sem contar as horas como quem teme, esperou como quem deseja, e por isso foi encontrada velando na hora em que a espada lhe atravessou a alma. Nela a vigília não foi tensão angustiada, foi fiat permanente, disponibilidade que não se apaga.

Perguntemos então a nós mesmos, com a franqueza que a liturgia pede. Em que medida deixamos que a paz de Cristo derrube em nós os muros que ainda erguemos contra o irmão, e em que medida guardamos acesa a lâmpada que Ele nos confiou? Que a intercessão daquela que foi morada e vigília nos ensine a ser as duas coisas, casa reconciliada onde Deus habita e serva atenta que espera o Senhor, certa de que Ele, ao chegar, se cingirá e nos servirá à sua mesa.

Pós-graduação em mariologia (especialização)

Quer aprofundar sua formação em mariologia? A pós-graduação da Locus Mariologicus é uma especialização que une rigor teológico, vida espiritual e a tradição viva da Igreja. A próxima turma começa em 2027.

Entrar na lista de espera da turma de 2027 →

Ebook Consagração a Jesus por MariaEbook · ConsagraçãoConsagração a Jesus por MariaFundamentos bíblicos, teológicos e práticas espirituais para viver a consagração.Quero o ebook →

Artigos relacionados

Respostas