O demônio e a Virgem Maria nos exorcismos: o relato do padre Bamonte

Revelações do demónio sobre Maria: pe. bamonte

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Ille homicida erat ab initio et in veritate non stetit, quia non est veritas in eo. Cum loquitur mendacium, ex propriis loquitur, quia mendax est et pater eius.
«Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade. Quando diz a mentira, fala do que é seu, porque é mentiroso e pai da mentira» (Jo 8,44, Vulgata)

O padre Francesco Bamonte, exorcista, publicou em 2010 o livro La Vergine Maria e il diavolo negli esorcismi, com prefácio de Renzo Lavatori (2. ed. revista e ampliada, 2011). Nele reuniu frases sobre a Virgem Maria que, segundo o seu relato, os demônios disseram durante exorcismos, recolhidas, diz ele, dalla mia stessa esperienza e da altri esorcisti, «da minha própria experiência e da de outros exorcistas» (BAMONTE, 2011, p. 45). As frases abaixo vêm desse livro, traduzidas do italiano (BAMONTE, 2011, p. 61-63). Antes de lê-las, é preciso dizer o que elas são e o que não são.

O que vale a palavra do demônio

O Evangelho chama o diabo de «pai da mentira» (Jo 8,44), e o Ritual Romano dos exorcismos, na edição de 1999, retoma esse título quando o descreve como mendax et pater mendacii, qui callide et false agit, «mentiroso e pai da mentira, que age com astúcia e falsidade» (RITUALE ROMANUM, 2005, p. 5). O mesmo Ritual pede ao exorcista necessariam et maximam circumspectionem ac prudentiam, «a necessária e máxima circunspecção e prudência», e que não se deixe enganar pelas artibus ac fraudibus, quibus utitur diabolus ad decipiendum hominem, «artes e fraudes de que o diabo se serve para enganar o homem» (RITUALE ROMANUM, 2005, p. 11). As regras do Ritual antigo eram ainda mais explícitas: o exorcista não se perca em conversas nem em perguntas curiosas, mande calar o espírito impuro e o faça responder só ao que lhe for perguntado, e não lhe dê crédito se ele fingir ser a alma de um santo, de um defunto ou um anjo bom, neque ei credatur si daemon simularet se esse animam alicuius Sancti, vel defuncti, vel Angelum bonum (CARDI, 1733, p. 446). O Ritual atual pede também discrição: o que se passa num exorcismo não deve ser divulgado (RITUALE ROMANUM, 2005, p. 12-13), recomendação que os bispos do Brasil repetem (CNBB, [2019], p. 28). O livro de Bamonte saiu com imprimatur do Vicariato de Roma e, nas falas aqui citadas, não identifica as pessoas exorcizadas.

O próprio Bamonte adverte que o fato de os demônios afirmarem, às vezes, verdades da fé non significa affatto che possiamo attingere la nostra istruzione religiosa anche dal demonio. Sarebbe errato pensare ciò, «não significa de modo algum que possamos tirar a nossa instrução religiosa também do demônio. Seria errado pensar isso». E continua: Non è certo il demonio che ci deve istruire, ma l’insegnamento della Sacra Scrittura, «Não é certamente o demônio quem nos deve instruir, mas o ensinamento da Sagrada Escritura» (BAMONTE, 2011, p. 50). A sua explicação é que, nos exorcismos, o demônio é às vezes costretto, suo malgrado, a testimoniare quello che non vorrebbe, «obrigado, contra a vontade, a testemunhar o que não quereria» (BAMONTE, 2011, p. 45). Ele a apoia nas confissões que os demônios fazem de Jesus nos Evangelhos, como «Eu sei quem tu és: o Santo de Deus» (Mc 1,24) (BAMONTE, 2011, p. 49). Ainda assim, é uma interpretação do autor, não um ensinamento da Igreja, e, embora veja nessas falas «confirmações involuntárias», ele mesmo reconhece que isso non aggiunge nulla a quello che già sappiamo e crediamo, «nada acrescenta ao que já sabemos e cremos» (BAMONTE, 2011, p. 46-47). O que segue é, portanto, o relato de um exorcista, sem verificação independente.

As frases relatadas por Bamonte

Bamonte apresenta estas falas como confirmação de uma tese que expõe antes, apoiada na Mística Cidade de Deus de Maria de Ágreda: o pecado de Lúcifer teria sido recusar a Encarnação e a Mulher de quem o Verbo nasceria (BAMONTE, 2011, p. 60-61). É uma opinião teológica, não doutrina definida. O primeiro relato liga a revolta do demônio à Encarnação: Io sono Lucifero, il più luminoso di tutti gli angeli del cielo, mi sono ribellato alla volontà di Dio, perché non ho voluto sottostare alla maestà del Nazareno, «Eu sou Lúcifer, o mais luminoso de todos os anjos do céu, me revoltei contra a vontade de Deus, porque não quis me sujeitar à majestade do Nazareno». E acrescenta que «por mim, também estava bem» estar sob o poder de Deus, mas não sob o Nazareno, che doveva nascere da una Donna, «que devia nascer de uma Mulher»: O mi fai come Te o io combatterò contro di Te, «Ou me fazes como Tu, ou combaterei contra Ti» (BAMONTE, 2011, p. 61).

Em outra ocasião, quando o exorcista lhe ordenava que adorasse a Deus, o demônio protestou contra a Encarnação: È andato a incarnarsi in voi, quanto di più schifoso e umiliante potesse fare, «foi se encarnar em vós, a coisa mais repugnante e humilhante que podia fazer». E, em outro dia, enquanto Bamonte rezava a Nossa Senhora: Io sono spirito puro: perché non io, perché non io spirito puro? […] Perché Quella sì?, «Eu sou espírito puro: por que não eu, por que não eu espírito puro? […] Por que Aquela sim?». E pouco depois: È Lei che è una creatura, non io, io sono “dio” e Lei è stata messa sopra di me, «É Ela que é uma criatura, não eu, eu sou “deus” e Ela foi posta acima de mim» (BAMONTE, 2011, p. 62). Bamonte comenta, numa nota, que a expressão «espírito puro diante de Deus» não significa que o demônio tenha gozado da visão beatífica, que recusou, mas que era, na escala dos seres, o mais semelhante a Deus (BAMONTE, 2011, p. 62, n. 9).

A frase mais forte é sobre a Imaculada: L’Immacolata è l’affronto più grande che il tuo Dio ci abbia fatto. Far concepire uno di voi senza quel peccato che noi abbiamo creato è un affronto insopportabile. Tutti avevamo marchiato, tutti avevamo marchiato con il nostro segno, tutti, meno Lei! Non doveva farci questo!, «A Imaculada é a maior afronta que o teu Deus nos fez. Fazer conceber um de vós sem aquele pecado que nós criamos é uma afronta insuportável. Todos tínhamos marcado, todos tínhamos marcado com o nosso sinal, todos, menos Ela! Ele não devia ter feito isso conosco!» (BAMONTE, 2011, p. 62-63). O sujeito de Non doveva farci questo não vem expresso, mas a frase retoma il tuo Dio ci abbia fatto: é de Deus que o demônio se queixa.

O que a Igreja ensina

A doutrina sobre a vitória de Maria sobre o demônio não depende de nenhuma destas frases. Vem da Escritura e do Magistério. A Vulgata traduziu Gn 3,15 assim: inimicitias ponam inter te et mulierem et semen tuum et semen illius, ipsa conteret caput tuum, «porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela, ela te esmagará a cabeça». O texto original fala da descendência, e a Vulgata pôs a mulher como sujeito. Pio IX, na bula que define a Imaculada Conceição, recolhe o ensinamento dos Padres, que professaram que a Virgem foi anunciada por Deus quando disse à serpente «porei inimizade entre ti e a mulher», quae procul dubio venenatum eiusdem serpentis caput contrivit, «a qual sem dúvida esmagou a cabeça venenosa da mesma serpente» (PIO IX, 1854, p. 37). O Concílio Vaticano II vê Maria profeticamente esboçada in promissione […] de victoria super serpentem, «na promessa da vitória sobre a serpente» (CONCÍLIO VATICANO II, 1965, p. 59, LG 55). E João Paulo II, na Redemptoris Mater, diz que Maria está in ipso veluti centro […] eius inimicitiae, «como que no próprio centro daquela inimizade», que atravessa toda a história humana (JOÃO PAULO II, 1987, p. 373, RM 11), enquanto atribui ao Filho o esmagar da cabeça da serpente (JOÃO PAULO II, 1987, p. 391, RM 24).

O próprio Ritual dá como um dos sinais da ação do demônio a aversionem vehementem a Deo, Sanctissimo Nomine Iesu, Beata Virgine Maria et Sanctis, «a aversão veemente a Deus, ao Santíssimo Nome de Jesus, à Bem-aventurada Virgem Maria e aos Santos» (RITUALE ROMANUM, 2005, p. 12). A Igreja não precisa da voz do inimigo para saber quem é Maria. O que os exorcistas relatam sobre o ódio do demônio a Maria nada acrescenta à inimizade que a Escritura anunciou desde Gn 3,15.

Referências

BAMONTE, Francesco. La Vergine Maria e il diavolo negli esorcismi. Pref. Renzo Lavatori. 2. ed. Milano: Paoline, 2011.

CARDI, Paulus Maria. Ritualis Romani documenta de exorcizandis obsessis a daemonio commentariis ex SS. Patribus et ecclesiasticis scriptoribus potissimum depromptis illustrata. Venetiis: apud Josephum Corona, 1733.

CONCÍLIO VATICANO II. Constitutio dogmatica Lumen gentium, n. 55. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 57, p. 59-60, 1965.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé. Exorcismos: reflexões teológicas e orientações pastorais. [Brasília: CNBB, 2019]. (Subsídios Doutrinais da CNBB).

JOÃO PAULO II. Litterae encyclicae Redemptoris Mater, n. 11 e 24. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 79, p. 373, 391, 1987.

PIO IX. Bulla Ineffabilis Deus, 8 dez. 1854. Edição bilíngue latim e italiano. [S.l.: s.n., s.d.]. p. 37. Latim segundo Pii IX Pontificis Maximi Acta, pars prima, Romae, 1857, p. 597-619, e tradução segundo Enchiridion delle Encicliche, v. 2, Bologna: EDB, 1996.

RITUALE ROMANUM. De exorcismis et supplicationibus quibusdam. Editio typica 1999, emendata 2004. Città del Vaticano: Typis Vaticanis, 2005 (reimpr.).

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