São Jerônimo e o Deus que reclama o homem por inteiro

«Dominé, docé-nos ora ré»: Paulo, o Pai nosso e Maria no cenáculo

Vere scio quod ita sit, et quod non justificetur homo compositus Deo.
Jó 9,2

A liturgia desta quarta-feira, na memória de São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja, dispõe diante da fé dois abismos que se correspondem. O primeiro é o da miséria humana que se descobre pó frente à imensidão do Criador. O segundo é o da exigência de Cristo, que não reclama uma parte do homem, mas o homem inteiro. Jó interroga do fundo da dor, o Evangelho convoca do alto do caminho, e a Igreja lê ambos os textos no dia em que celebra aquele que consagrou a vida a decifrar a Escritura na Escritura. Maria, embora não nomeada, percorre em silêncio estas páginas, porque nela a fragilidade da criatura e a entrega radical ao chamado divino se reconciliam sem resíduo.

I. A miséria do justo diante da grandeza de Deus

O livro de Jó não instaura o processo de Deus, mas o processo da justiça humana diante de Deus. Jó é o homem íntegro que o sofrimento não corrompeu na fé, ainda que o tenha lançado no assombro. A sua pergunta não brota da incredulidade, brota de uma consciência que se sabe reta e que, apesar disso, não consegue justificar-se perante o seu Senhor. Vere scio quod ita sit, na verdade sei que assim é, confessa Jó, reconhecendo que non justificetur homo compositus Deo, que o homem posto em confronto com Deus não pode declarar-se justo (Jó 9,2). Não é a derrota da inocência, é a descoberta de que a inocência humana nada pesa na balança da transcendência.

A poesia que se segue é uma litania do poder divino. Deus remove as montanhas sem que elas o percebam, abala a terra dos seus fundamentos, ordena ao sol que não se levante e sela as estrelas, estende os céus e caminha sobre as ondas do mar, faz a Ursa e o Órion e obras grandiosas que não têm número (Jó 9,5-10). Diante deste Deus que passa e não se deixa ver, que arrebata e ninguém o detém, Jó formula a vertigem do fiel autêntico. Si repente interroget, quis respondebit ei?, se de repente ele interrogar, quem lhe responderá (Jó 9,12). A oração torna-se então súplica que não exige, apenas implora ser ouvida (Jó 9,14-16). Deus não deve explicações à sua criatura. E, contudo, a criatura que anui a este mistério já está, sem o saber, no limiar da salvação.

II. A radicalidade do seguimento

O Evangelho de Lucas transforma o assombro de Jó em decisão. Enquanto caminham, três homens se aproximam de Jesus, e cada resposta do Senhor desnuda uma ilusão do coração que quer segui-lo sem o custo do seguimento. Ao primeiro, que promete acompanhá-lo por onde for, Cristo responde que as raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Lc 9,57-58). O discipulado não oferece abrigo, oferece a partilha da precariedade do Mestre. Quem procura em Cristo um lugar seguro não compreendeu ainda quem é Cristo.

Aos outros dois, o Senhor opõe a mesma exigência de primazia absoluta. A um, que pede primeiro sepultar o pai, ordena que deixe os mortos sepultarem os seus mortos e vá anunciar o Reino de Deus (Lc 9,59-60). A outro, que quer despedir-se dos seus, responde com a imagem lapidar do lavrador. Nemo mittens manum suam ad aratrum, et respiciens retro, aptus est regno Dei, ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus (Lc 9,62). O sulco reto exige o olhar fixo adiante, porque o passado que se contempla com nostalgia torto o presente que se deveria semear. Cristo não recruta espectadores, convoca discípulos. A radicalidade não é dureza, é a lucidez do amor que sabe que meio coração não basta.

III. Jerônimo, as letras sagradas e a verdade

A memória de São Jerônimo ilumina a convergência destas duas leituras, porque nele a miséria confessada e o seguimento radical se encontraram sobre as páginas da Escritura. Nascido em Estridão, na Dalmácia, por volta de 347, Jerônimo consumiu a existência no trabalho paciente de verter a Palavra de Deus para a língua latina, a Vulgata, monumento que a Igreja rezaria durante mais de um milênio. O deserto de Cálcis e a gruta de Belém foram o seu arado, a filologia sacra a sua oração, a renúncia ao mundo o preço do sulco reto que não olhou para trás. A sua austeridade não foi fuga do humano, foi a forma concreta de anuir àquele Deus que Jó adorou no assombro e que Cristo revelou no chamado.

Do doutor de Belém a tradição guarda uma sentença que resume o dia inteiro. Ignoratio Scripturarum ignoratio Christi est, o desconhecimento das Escrituras é o desconhecimento de Cristo, escreve ele no prólogo do comentário a Isaías. É a mesma verdade que Jó tateava na noite e que os discípulos hesitavam em abraçar à luz do dia. A Palavra não é objeto de curiosidade erudita, é o rosto de um Deus que se dá a conhecer para ser seguido. Quem ignora a Escritura ignora Cristo. O sofrimento de Jó, a exigência de Lucas e o labor de Jerônimo dizem, cada um à sua maneira, que só se conhece verdadeiramente aquilo a que se entrega a vida inteira.

IV. Maria, o fiat que não olha para trás

Onde as leituras calam o nome de Maria, a teologia reconhece a sua presença como fundamento, medida e cume da resposta humana a Deus. Jó suplica ser ouvido no meio da provação, os discípulos vacilam diante do custo do Reino, e há uma criatura em quem a súplica se fez confiança perfeita e o chamado se fez entrega sem reserva. A kecharitomene, a cheia de graça, respondeu ao anúncio do impossível com o fiat mihi secundum verbum tuum, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38). No seu sim não há a interrogação angustiada de Jó nem a hesitação dos que pedem prazo, há a adesão límpida daquela que compreendeu que a justiça diante de Deus não se mede pela razão que explica, mas pelo amor que se abandona.

Maria é, por isso, o arado que jamais olhou para trás. A Theotokos percorreu a estrada da fé por entre a espada anunciada por Simeão, a fuga para o Egito, a incompreensão de Nazaré e a solidão do Calvário, e em nenhum destes desertos voltou o rosto ao que deixara. A escola de Bérulle e de Grignion de Montfort viu com razão nela a forma acabada do discipulado, porque aderir a Cristo é aderir ao seu modo de nascer no mundo, e Cristo nasceu de uma entrega. O fiat não olha para trás. Diante da grandeza que assombrou Jó e da radicalidade que interpelou os discípulos, a Igreja aprende de Maria que a única resposta digna do Deus vivo é a que se dá por inteiro, e que essa entrega, longe de esmagar a criatura, é o caminho da sua verdadeira grandeza.

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