Spiritus veritatis testimonium perhibebit: Maria e o testemunho do Espírito

Cum autem venerit Paraclitus (…) Spiritus veritatis (…) ille testimonium perhibebit de me. Et vos testimonium perhibetis.
Jo 15,26-27
«Quando vier o Paráclito (…) o Espírito da Verdade (…) dará testemunho de mim. E vós também dareis testemunho». Jo 15,26-27 articula dois testemunhos distintos mas inseparáveis: o testemunho do Espírito e o testemunho dos discípulos. O Espírito testemunha de dentro, iluminando as mentes e os corações. Os discípulos testemunham de fora, com as suas vidas e as suas palavras. A mariologia encontra neste duplo testemunho o núcleo da missão de Maria na Igreja: ela que recebeu o Espírito de modo singular é a testemunha mais qualificada de Jesus e o modelo de todo o testemunho cristão.
I. O Espírito da verdade como testemunha de Jesus
Jo 15,26 apresenta o Paráclito com um novo título: «Espírito da Verdade» (pneuma tês alêtheias). Este título remete para Jo 16,13: «Quando vier ele, o Espírito da Verdade, vos guiará a toda a verdade». O Espírito não é uma verdade entre outras, é o próprio Espírito da Verdade que é Cristo («Eu sou a Verdade», Jo 14,6). O Espírito testemunha de Jesus precisamente porque é o «Espírito» de Cristo, aquele que Cristo envia «do Pai» (Jo 15,26) e que Jesus «soprou» sobre os discípulos no Cenáculo (Jo 20,22).
O testemunho do Espírito tem uma dimensão interior que distingue o Cristianismo de outras religiões do Livro. O judeu e o muçulmano têm textos sagrados que «testemunham» de Deus. O cristão tem, além dos textos, o Espírito que ilumina de dentro, que faz «entender» o que os textos dizem, que actualiza a revelação em cada geração. Esta dimensão pneumática do testemunho é o que a Tradição viva acrescenta à Escritura: não uma segunda fonte de revelação, mas a força viva que faz que a revelação única de Cristo seja sempre contemporânea.
A relação entre Espírito e Escritura tem uma dimensão mariológica directa. Maria foi o primeiro «veículo» da Escritura viva: ela que «guardou e meditou» as palavras do Filho guardou também a «Escritura viva» que é Jesus. A sua meditação não era sobre textos mortos, era sobre a Palavra viva que ela tinha gerado e que conhecia como mãe conhece o filho. O Espírito que «testemunha» de Jesus actua através desta memória viva de Maria, que a Igreja conserva na sua tradição mariana.
A tradição patrística reconheceu na «Senhora» do Apocalipse (Ap 12) uma figura do testemunho de Maria sobre Cristo: a mulher que dá à luz o Filho que «governará todas as nações» é perseguida pelo dragão, mas «as duas asas da grande águia» a protegem. Esta figura, Maria-Igreja que testemunha e é perseguida, antecipa toda a história do martírio cristão: testemunhar de Cristo é colocar-se no alvo da perseguição do «dragão», mas com a protecção do Espírito que «testemunha» junto com nós.
II. «Vós também dareis testemunho»: Maria como primeira testemunha
Jo 15,27: «Vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio». O testemunho dos discípulos é fundamentado na sua permanência com Jesus «desde o princípio». Quem esteve com Jesus, quem viveu com ele, quem o conheceu de perto, esse é o testemunho mais credível. E nenhum ser humano esteve com Jesus «desde o princípio» mais do que Maria: ela que o concebeu, que o gerou, que conviveu com ele durante trinta anos, é a mais qualificada «testemunha desde o princípio».
A tradição reconheceu esta função de Maria como «testemunha privilegiada» na sua relação com os relatos da Infância em Lucas. «Maria guardava todas estas coisas e as meditava no seu coração» (Lc 2,19.51), esta nota redaccional de Lucas aponta para Maria como a fonte dos relatos dos capítulos 1-2: só ela poderia ter comunicado a Lucas o que se passou na Anunciação na Visitação em Belém, na Apresentação no Templo. Maria é a «testemunha ocular» dos primeiros capítulos do Evangelho.
Esta função de Maria como «testemunha» tem uma dimensão eclesiológica permanente. A Igreja que testemunha de Cristo baseia-se, em última análise, na cadeia de testemunhos que começa em Maria e nos Apóstolos e chega até hoje. O «testemunho» não é apenas o relato de factos históricos, é a transmissão viva de uma experiência de fé que cada geração recebe e transmite. Maria está no início desta cadeia: ela é a «testemunha das testemunhas», aquela a cuja experiência todas as outras se referem como ao fundamento.
A mariologia contemporânea tem redescoberto esta dimensão «testimonial» de Maria com fecundidade crescente. A obra de Hans Urs von Balthasar, em particular o diálogo com Adrienne von Speyr, explorou Maria como a figura da «missão» que é testemunho puro: não o testemunho que procura a própria exaltação, mas o que aponta sempre para o Filho, que se faz transparente ao Filho, que desaparece na medida em que o Filho aparece. Este testemunho «transparente» de Maria é o modelo de todo o testemunho cristão autêntico.
III. «Enviado do pai»: origem trinitária do testemunho
Jo 15,26: «O Paráclito que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade que procede do Pai». O Espírito que «testemunha» tem uma origem trinitária precisa: é enviado pelo Filho, procede do Pai. Esta fórmula, que está no coração da controvérsia do filioque entre Oriente e Ocidente, aponta para uma verdade fundamental: o testemunho que o Espírito dá de Jesus não é arbitrário nem autónomo, mas radica na vida intratrinitária. O Espírito testemunha de Jesus porque ele é o Espírito de Jesus, o vínculo de amor entre o Pai e o Filho.
A dimensão trinitária do testemunho tem implicações mariológicas. Maria, que recebeu o Espírito enviado pelo Filho e que «procede do Pai», participa desta origem trinitária do testemunho. O seu testemunho de Jesus não é apenas o testemunho de uma testemunha ocular, é o testemunho de alguém que o Espírito formou, iluminou e equipou para esta função. O seu «fiat» na Anunciação foi o início de um testemunho que o Espírito sustenta e guia ao longo de toda a história.
A mariologia pneumatológica, que coloca a relação de Maria com o Espírito no centro da compreensão da sua identidade, encontra aqui um dos seus textos de fundamento. Maria não é apenas a «mãe do Filho», é a «esposa do Espírito», a que recebeu o Espírito mais plenamente do que qualquer outro ser humano e que por isso pode testemunhar de Cristo com a autoridade do Espírito que a habita. O seu testemunho é, no fundo, o testemunho do Espírito através dela.
S. Maximilian Kolbe, que desenvolveu com mais profundidade a relação de Maria com o Espírito Santo na mariologia do século XX, insistia que a missão de Maria na Igreja é a missão do Espírito: ela que é o instrumento mais perfeito do Espírito, que se deixou mover pelo Espírito mais completamente do que qualquer outro ser humano, «testemunha» de Cristo com o Espírito e pelo Espírito. Esta compreensão pneumatológica de Maria supera os impasses de uma mariologia excessivamente cristológica ou devocional.
IV. Pentecostes como pleno equipamento para o testemunho
Act 1,8: «Recebereis a força do Espírito Santo que virá sobre vós, e sereis minhas testemunhas». Esta promessa de Jesus antes da Ascensão é a preparação para Pentecostes: o Espírito que «testemunha» de Jesus (Jo 15,26) equipa os discípulos para que também eles «dêem testemunho» (Jo 15,27). E Maria estava presente quando este equipamento se realizou: Act 1,14 coloca-a explicitamente no Cenáculo, orando com os Apóstolos, aguardando o Espírito prometido.
A presença de Maria em Pentecostes não é um detalhe biográfico irrelevante, é teologicamente significativa. Ela que recebeu o Espírito na Anunciação («o Espírito Santo virá sobre ti», Lc 1,35) está presente quando o Espírito «vem sobre» toda a comunidade apostólica. A sua presença é simultaneamente o sinal da continuidade (o mesmo Espírito que a habitou desde o princípio habita agora toda a Igreja) e o modelo do acolhimento (a comunidade que ora com Maria está na disposição mais perfeita para receber o Espírito).
O dom das línguas em Pentecostes, a capacidade de «testemunhar» de Jesus em todas as línguas, tem uma dimensão mariana que a tradição raramente explorou: todas as línguas em que o Evangelho foi anunciado depois de Pentecostes descendem da primeira língua do Evangelho, que é o «fiat» de Maria. A primeira «palavra» do Novo Testamento é a resposta de Maria ao anjo. Todas as outras palavras do Evangelho, incluindo os tongues de Pentecostes, são o eco e o desenvolvimento desse primeiro «sim».
A missão da Igreja como «testemunha» de Cristo no mundo tem em Maria a sua figura e a sua intercessora. Cada missionário que parte, cada leigo que testemunha no ambiente de trabalho, cada cristão que «dá razão da sua esperança» (1Pe 3,15) participa no testemunho duplo de que Jo 15,26-27 fala: o testemunho do Espírito e o testemunho humano. E Maria, que foi a primeira a dar este testemunho duplo, o do Espírito nela e o dela própria no «fiat» e no Magnificat é a intercessora por todos os que continuam este testemunho na história.
Maria, a testemunha mais qualificada «desde o princípio», equipa a Igreja para o testemunho duplo que Jo 15,26-27 pede: o do Espírito que habita e o da vida que proclama.
Referências
- João Paulo II, Redemptoris Matern. 26-27 (1987).
- Concílio Vaticano II, Dei Verbumn. 8-10 (1965).
- H. U. von Balthasar, Pneuma und Institution (1974).
- M. Kolbe, Scritti di Massimiliano Kolbevol. II.
- R. Laurentin, L’Esprit Saint et Marie (1975).
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