«Expurgate vetus fermentum»: o fermento velho, a mão paralisada e a massa nova

«Díc verbum tantum»: a fé do centurião, a eucaristia e o Fiat de Maria

Expurgate vetus fermentum, ut sitis nova conspersio. […] Extende manum tuam.
1Cor 5,7 e Lc 6,10

A segunda-feira da Semana XXIII do Tempo Comum junta dois textos sobre a integridade daquilo que se apresenta a Deus. Paulo enfrenta um escândalo público em Corinto e usa a imagem do fermento que leveda toda a massa para dizer que nenhuma corrupção fica contida onde nasceu. Lucas mostra um homem de mão paralisada a quem Jesus manda estender precisamente a mão que não se estende. Um texto pede que se tire o que corrompe. O outro pede que se ofereça o que está aleijado. As duas coisas são o mesmo movimento.

I. A primeira leitura: 1Cor 5,1-8

Paulo trata aqui de um caso concreto e grave, e o que o indigna não é apenas o pecado mas a reação da comunidade: «e vós andais cheios de orgulho, quando deveríeis andar tristes» (v.2). A tolerância de Corinto não vinha de misericórdia, vinha de uma ideia inflada de liberdade espiritual que julgava estar acima destas coisas. É a jactância, e não a fraqueza, que o apóstolo ataca.

A imagem que organiza todo o trecho é doméstica e vem da Páscoa judaica: «não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa?» (v.6). Antes da Páscoa, a casa era vasculhada e todo o fermento antigo eliminado, porque bastava um resto para contaminar a massa nova. Paulo transporta o rito para dentro da comunidade e dá-lhe o fundamento cristológico: «Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado» (v.7). A purificação não é um esforço moral autônomo, é a consequência de uma Páscoa que já aconteceu. E o objetivo não é a comunidade impecável, é a festa: «celebremos a festa, não com fermento velho, nem com fermento de malícia e perversidade, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade» (v.8).

II. O evangelho: Lc 6,6-11

Lucas anota um detalhe que Marcos não dá, e que muda o peso da cena. A mão paralisada é a direita (v.6), isto é, a mão do trabalho, do ofício, do sustento. Aquele homem não tinha uma limitação incômoda, tinha a vida inteira comprometida.

Jesus percebe que está a ser observado e, em vez de curar discretamente, expõe tudo: «levanta-te e põe-te de pé, aí no meio» (v.8). Coloca o homem no centro da sinagoga antes de o curar, o que é uma escolha deliberada. A pergunta que se segue não admite fuga: «é permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la» (v.9). E o gesto pedido é o mais improvável de todos: «estende a mão» (v.10). Manda-lhe fazer aquilo que ele não pode fazer, e é ao tentar que a cura acontece. A graça não substitui o movimento do homem. Pede-o primeiro, e depois torna-o possível.

III. Tirar o velho, estender o que resta

As duas leituras descrevem a mesma operação em direções opostas. Paulo manda deitar fora o que corrompe. Jesus manda apresentar o que está inutilizado. Falta uma coisa a Corinto e falta outra ao homem da sinagoga, mas o obstáculo é o mesmo, e chama-se recusa de expor a verdade da própria situação.

Note-se que ninguém é convidado a esperar por melhorias antes de se apresentar. O homem não estende a mão depois de curada, estende-a paralisada. É a diferença entre a vida cristã real e a sua caricatura devota, que adia o encontro com Deus até estar em condições de o merecer. A liturgia da Igreja repete todos os dias este princípio quando põe na boca do fiel, antes da comunhão, a confissão de que não é digno e o pedido de uma palavra que cure. Estender a mão aleijada é o ato de fé.

IV. Maria, a massa nova

Se «um pouco de fermento leveda toda a massa» descreve a solidariedade do mal, então a mariologia tem aqui um dos seus lugares próprios. A fé da Igreja confessa que houve uma criatura em quem esse fermento nunca entrou. Maria foi preservada imune de toda a mancha do pecado original desde o primeiro instante da sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus, em vista dos méritos de Cristo Salvador (PIO IX. Ineffabilis Deus, 1854).

Convém dizer com exatidão o que isto significa e o que não significa. Não significa que Maria esteja fora da redenção. Significa que foi redimida de modo mais perfeito, preservada em vez de curada, e que o foi em vista da mesma Páscoa que Paulo invoca. O Cordeiro imolado que purifica Corinto é o mesmo que preservou a sua Mãe antes de nascer. Ela é a massa nova precisamente porque o Cordeiro é anterior a ela na ordem da graça, embora ela lhe seja anterior na ordem do tempo.

E há o gesto do evangelho. Aquilo que Jesus pede ao homem da mão paralisada, Maria fê-lo sem que ninguém lho pedisse duas vezes. Quando o anjo lhe anuncia o impossível, ela não apresenta as suas condições, apresenta-se a si mesma: «eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). O Concílio recorda que ela não foi instrumento puramente passivo nas mãos de Deus, mas cooperou na salvação dos homens com fé e obediência livres (LG 56). Estendeu o que tinha, e o que tinha era uma vida inteira ainda por gastar.

A segunda-feira da Semana XXIII deixa portanto duas tarefas que não se separam. Vasculhar a casa à procura do fermento velho, e apresentar a Deus a mão que não se estende, sem esperar por conseguir estendê-la sozinho.

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