«Omnia tempus habent»: o tempo de cada coisa, a pergunta de Cesareia e a hora de Caná

«Qui vos spernit me spernit»: baruc, o juízo e Maria intercessora dos pecadores

Omnia tempus habent, et suis spatiis transeunt universa sub caelo. […] Vos autem quem me esse dicitis?
Ecl 3,1 e Lc 9,20

A sexta-feira da Semana XXV do Tempo Comum junta o poema mais famoso do Eclesiastes e a pergunta decisiva do evangelho de Lucas. Coélet enumera catorze pares de tempos opostos e conclui que Deus pôs no coração do homem a sucessão dos séculos sem lhe dar a chave para a compreender. Jesus, depois de orar sozinho, pergunta aos discípulos quem eles dizem que ele é, recebe a resposta certa de Pedro e imediatamente a corrige com o anúncio da Paixão. Um texto diz que há um tempo para tudo. O outro mostra que reconhecer o Messias não é o mesmo que aceitar o tempo dele.

I. A primeira leitura: Ecl 3,1-11

O poema é construído com uma simetria implacável. «Tudo tem o seu tempo, tudo tem a sua hora debaixo do céu» (v.1), e seguem-se os pares: nascer e morrer, plantar e arrancar, matar e curar, demolir e construir, chorar e rir, gemer e dançar, calar e falar, amar e odiar, guerra e paz. Não há aqui nenhuma preferência moral. O sábio não está a dizer que é melhor rir do que chorar, está a dizer que ambos têm hora e que a hora não é escolhida por nós.

O verdadeiro centro do trecho vem no fim e é uma das frases mais densas do Antigo Testamento: Deus «fez todas as coisas apropriadas ao seu tempo e pôs no coração do homem a sucessão dos séculos, sem que ele possa compreender o princípio e o fim da obra de Deus» (v.11). O termo hebraico traduzido por sucessão dos séculos é olam, que significa também eternidade ou duração sem termo. Deus colocou no homem o sentido do todo, e negou-lhe a visão do todo. Daqui nasce a inquietação humana, que não é um defeito a corrigir mas a marca de uma criatura feita para mais do que aquilo que alcança.

II. O evangelho: Lc 9,18-22

Lucas antecede a cena com uma nota que só ele dá: «um dia, Jesus orava sozinho, estando com ele apenas os discípulos» (v.18). As grandes perguntas, neste evangelho, nascem sempre da oração. E a pergunta vem em duas etapas, primeiro «quem dizem as multidões que eu sou?», depois, sem transição, «e vós, quem dizeis que eu sou?» (v.20).

As respostas da multidão são as mesmas que Herodes ouvira poucos versículos antes, João Batista, Elias, um dos antigos profetas. Pedro rompe a série: «és o Messias de Deus». E então acontece o que não se espera. Jesus proíbe severamente que o digam a quem quer que seja, e explica porquê ao acrescentar o primeiro anúncio da Paixão: «o Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia» (v.22).

A ordem de silêncio não protege um segredo, protege o significado. A palavra Messias, dita naquele momento e naquele ambiente, evocaria um libertador político. Antes de poder ser pronunciada em público, tinha de ser corrigida pela cruz. Pedro acertou no título e ainda não sabia o que ele continha.

III. O tempo que não se antecipa

As duas leituras dizem, por caminhos diferentes, que o homem não manda no calendário de Deus. Coélet constata-o do lado da sabedoria, olhando para os ciclos da vida. Jesus impõe-no do lado da revelação, adiando o anúncio até que ele possa ser entendido sem equívoco.

Isto tem uma aplicação espiritual que se aprende devagar. Há verdades que se possuem antes de se compreenderem, e anunciá-las cedo demais é deformá-las. Há sofrimentos que não se explicam no momento em que acontecem. E há consolações que só chegam depois de a hora ter passado. Aquilo que Deus pôs no coração do homem, segundo Coélet, foi o sentido da totalidade sem o mapa dela, e a vida de fé consiste em grande parte em suportar essa desproporção sem a resolver artificialmente.

IV. Maria, a que guardou os tempos sem os forçar

Se existe na Escritura alguém que viveu todos os pares de Coélet sem antecipar nenhum deles, é a mãe de Jesus. Teve tempo de dançar, quando Isabel a proclamou bendita e ela respondeu com o Magnificat (Lc 1,46-55). Teve tempo de calar, durante os trinta anos de Nazaré que os evangelhos resumem numa linha. Teve tempo de chorar, de pé junto à cruz (Jo 19,25). Não confundiu as horas, e é isso que distingue a fé da impaciência religiosa.

O evangelho de João guarda a cena em que isso se vê melhor. Em Caná, Maria constata a falta e apresenta-a, «não têm vinho» (Jo 2,3). A resposta do Filho é aparentemente um travão, «ainda não chegou a minha hora» (Jo 2,4). Ela não insiste nem discute. Diz aos serventes «fazei tudo o que ele vos disser» (Jo 2,5) e sai de cena. Apresentou a necessidade e entregou o tempo. É a definição exata da intercessão cristã, e é o oposto da oração que exige prazo.

Quanto à pergunta «e vós, quem dizeis que eu sou?», Maria respondeu-lhe antes de ela ser feita e sem usar títulos. Respondeu com «faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38), que é uma confissão de fé em forma de disponibilidade. O Concílio recorda que ela conservou fielmente a união com o Filho até à cruz (LG 58), o que significa que a sua resposta incluía já aquilo que Pedro ainda não conseguia ouvir. Ela disse sim ao Messias antes de saber o preço, e continuou a dizer sim depois de o conhecer.

A sexta-feira da Semana XXV deixa portanto uma tarefa que não é intelectual. Não se trata de descobrir o plano de Deus antes do tempo. Trata-se de reconhecer a hora que está a correr e de não a trocar por outra.

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