A juventude, a cruz e o coração que guarda o mistério

«In hac hora exsultavit iesus»: baruc, o regresso dos setenta e dois e Maria

Lætare ergo, juvenis, in adolescentia tua, et in bono sit cor tuum in diebus juventutis tuæ
Qo 11,9

I. A alegria da juventude e a memória do Criador

O Eclesiastes não é o livro do desengano, é o livro da lucidez. Aquele que se apresenta como Qohélet, o que convoca a assembleia, não nos entrega uma filosofia do tédio, entrega-nos a arte de olhar a existência sem ilusão e ainda assim amá-la. A palavra que percorre todo o livro, hével, que a Vulgata verte por vanitas e que significa sopro, hálito, vapor que se desfaz, não condena a vida, mede-a. E porque a vida é breve, o sábio não a despreza, celebra-a. Por isso a exortação do capítulo onze não é um freio à juventude, é uma bênção sobre ela. Lætare ergo, juvenis, in adolescentia tua, alegra-te, jovem, na tua adolescência, escreve o autor sagrado em Qo 11,9. A alegria não é adversária da sabedoria, é o seu primeiro fruto quando nasce diante de Deus.

A esta alegria, porém, o texto ata imediatamente uma memória. Memento Creatoris tui in diebus juventutis tuæ, lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, ordena Qo 12,1, antes que cheguem os dias maus. E abre-se então um dos mais belos poemas do Antigo Testamento, a alegoria do corpo que envelhece. Os guardas da casa que tremem, os moedores que rareiam, a amendoeira que floresce em brancura, o gafanhoto que se arrasta pesado, a alcaparra que perde o seu efeito, tudo canta a passagem inexorável do tempo. Depois o cântaro que se quebra sobre a fonte e a roda partida sobre o poço, até ao verso que sela o livro, et revertatur pulvis in terram suam, et spiritus redeat ad Deum qui dedit illum, e o pó volte à terra donde veio, e o sopro regresse a Deus que o deu, em Qo 12,7. A vida é breve para que a levemos a sério.

II. O Filho do homem entregue às mãos dos homens

O Evangelho de hoje coloca-nos num instante de contraste violento. A multidão estava, diz Lucas, tomada de espanto diante da grandeza de Deus, o verbo grego ekplēssō exprime esse assombro que arrebata os sentidos. E é precisamente sobre esse cume de admiração pelos prodígios que Jesus pronuncia o segundo anúncio da sua paixão. Ponde vós nestas palavras nos vossos ouvidos, adverte, com uma solenidade que em grego pesa como um selo, o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, em Lc 9,44. O verbo paradídosthai, ser entregue, é a mesma raiz da tradição e da traição, e atravessará toda a narrativa da Paixão. No auge da glória, o Mestre nomeia a cruz.

Os discípulos, porém, não compreendem. Lucas anota com rara delicadeza que aquela palavra lhes estava velada, parakekalymménon ap’ autōn, encoberta como por um véu que os impedia de a alcançar, e que temiam interrogá-lo sobre ela, em Lc 9,45. Este medo é revelador. Não é a ignorância dos simples, é a resistência dos que já viram muito e não querem ver o que os feriria. O esplendor dos milagres torna-se, para eles, obstáculo à inteligência da cruz. Há uma cegueira que nasce do excesso de luz. O coração que só quer o Messias triunfante fecha-se ao Messias entregue, e assim o discípulo permanece à porta do mistério que já lhe foi confiado.

III. A brevidade da vida e o temor que é sabedoria

As duas leituras convergem num só ponto, o da verdade que o homem prefere não olhar. O Qohélet obriga-nos a fixar a morte que nos espera, e Cristo obriga os seus a fixar a morte que o espera a Ele. Num caso é a lei universal da carne que volta ao pó, no outro é a entrega livre daquele que não devia à morte coisa alguma. Mas em ambos a mesma pedagogia divina trabalha, arrancar-nos à embriaguez do presente para nos abrir ao que permanece. O sábio de Israel conclui o seu livro com uma sentença que resume tudo, Deum time et mandata ejus observa, hoc est enim omnis homo, teme a Deus e guarda os seus mandamentos, porque nisto está o homem todo, em Qo 12,13.

Este temor não é o medo servil que afasta, é a reverência filial que aproxima, o mesmo que os Padres chamaram princípio da sabedoria. E é justamente esse temor que falta aos discípulos, que temem a pergunta em vez de temerem a Deus. A meditação sobre a brevidade da existência e o anúncio da Paixão dizem, portanto, uma só coisa. Não bebas a vida como quem a possui, recebe-a como quem a deve. A juventude que se lembra do Criador e o discípulo que acolhe a cruz habitam a mesma sabedoria, aquela que atravessa a vaidade das coisas e ancora o coração no eterno. Só quem conta os seus dias aprende de coração a sabedoria.

IV. Maria, que guardava a Palavra velada

O que faltou aos discípulos foi precisamente o que a Virgem possuiu em plenitude. Diante do mesmo mistério que se lhes velava, Maria não temeu, guardou. Por duas vezes Lucas usa dela o verbo symbállousa, ela conservava todas estas palavras, confrontando-as no seu coração, em Lc 2,19 e Lc 2,51. O termo grego evoca o ato de lançar juntas as coisas, de as pôr em confronto até que o sentido emerja. Enquanto o discípulo teme interrogar e por isso nada entende, a Mãe acolhe o que não entende e por isso tudo penetra. Onde eles recuam diante da palavra encoberta, ela avança dentro dela.

Este avançar tem um nome na tradição da Igreja. O Concílio Vaticano II ensina que «Beata Virgo in peregrinatione fidei processit, suamque cum Filio unionem fideliter sustinuit usque ad crucem», a bem-aventurada Virgem avançou na peregrinação da fé e manteve fielmente a sua união com o Filho até à cruz, em Lumen Gentium, n. 58. A peregrinatio fidei, a peregrinação da fé, é exatamente o caminho que os discípulos ainda não iniciaram e que Maria já percorre. Ela é a jovem de Nazaré que se lembrou do seu Criador, e é a Mãe que esteve de pé no Calvário quando o Filho do homem foi enfim entregue às mãos dos homens. O anúncio que os Doze não suportaram ouvir, ela suportou vê-lo cumprir-se.

Assim a Theotokos torna-se, para nós, mestra de uma sabedoria que nem o Qohélet alcançou plenamente. O sábio de Israel sabia que o sopro regressa a Deus, mas foi Maria quem, aos pés da cruz, entregou o seu próprio Filho a esse regresso e o recebeu de volta na manhã da ressurreição. O seu fiat não foi um consentimento de um instante, foi a forma permanente do seu coração diante de toda a palavra velada. Aprender de Maria é isto, não fugir da cruz anunciada nem embriagar-se com a glória que a precede, mas guardar no coração, na obediência da fé, o mistério inteiro do Filho entregue e glorificado.

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