A cidadania dos céus e a prudência do administrador fiel

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Nostra autem conversatio in cælis est: unde etiam Salvatorem exspectamus Dominum nostrum Jesum Christum.
Fl 3,20
A liturgia da trigésima primeira semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois modos de habitar o mundo. Paulo, aos Filipenses, desenha o retrato do fiel cuja pátria está nos céus e que dali aguarda o Salvador. Lucas, no evangelho, apresenta a figura desconcertante do administrador que dilapida os bens do senhor e depois se salva pela astúcia. Entre a carta e a parábola corre uma só pergunta, a pergunta sobre onde repousa o tesouro do coração humano. O salmo responsorial, ao cantar a alegria de quem sobe à casa do Senhor, oferece a chave, porque a cidadania celeste de que fala Paulo tem um nome concreto e um endereço, e esse nome é Jerusalém, a cidade bem edificada num conjunto harmonioso. As três leituras, lidas em conjunto, ensinam que a prudência do fiel não consiste em fugir do tempo, mas em administrá-lo em vista da eternidade.
I. A cidadania dos céus e a coroa do apóstolo
Paulo escreve chorando, e o choro é o primeiro dado exegético desta leitura. O apóstolo não denuncia inimigos abstractos, mas inimicos crucis Christi, inimigos da cruz de Cristo, homens cujo Deus venter est, cujo deus é o ventre, e cuja glória está na própria vergonha. A oposição que estrutura toda a passagem não é entre judeu e gentio, mas entre o terreno e o celeste, entre os que terrena sapiunt, que só saboreiam as coisas da terra, e aqueles cuja conversatio in cælis est. A palavra conversatio traduz o grego políteuma, e não designa apenas um sentimento devoto, mas o estatuto jurídico do cidadão, o pertencer a uma cidade cujas leis nos governam ainda quando vivemos longe dela. O fiel é um estrangeiro residente que nunca deixou de ser cidadão. Desta cidadania brota a esperança do corpo transfigurado, pois o Salvador reformabit corpus humilitatis nostræ, configuratum corpori claritatis suæ, refará o corpo da nossa humilhação, configurando-o ao corpo da sua glória. A carne não é abandonada, mas reformada. E Paulo, no versículo que abre o capítulo quarto, chama os fiéis de gaudium meum, et corona mea, sua alegria e sua coroa, porque a comunidade perseverante é o único troféu que o apóstolo apresentará no dia da vinda. A firmeza no Senhor, o sic state in Domino, é o modo próprio de habitar o intervalo entre a promessa e o cumprimento.
II. A astúcia do administrador infiel
A parábola do administrador desonesto é das mais ásperas do evangelho, porque nela um senhor elogia quem o defraudou. Convém não suavizar o escândalo. O homem é diffamatus, acusado de dissipasset bona ipsius, de ter dilapidado os bens do patrão, e a sentença cai imediata, redde rationem villicationis tuæ, presta contas da tua administração. O drama interior explode num monólogo de rara nudez, Fodere non valeo, mendicare erubesco, para cavar não tenho força, de mendigar tenho vergonha. Entre o trabalho braçal que o corpo recusa e a esmola que o orgulho não suporta, o administrador encontra uma terceira via, a fraude calculada que lhe compra amigos para o dia da queda. Reduz as dívidas alheias, cem barris de óleo tornam-se cinquenta, cem medidas de trigo tornam-se oitenta, e assim garante recipiant me in domos suas, que o recebam em suas casas. O que o senhor louva não é a desonestidade, mas a prudentia, a lucidez de quem lê o tempo que resta e age sem demora. A sentença final é diagnóstico e não elogio moral, filii hujus sæculi prudentiores filiis lucis in generatione sua sunt, os filhos deste mundo são mais prudentes, na sua geração, do que os filhos da luz. Cristo censura nos seus não a inocência, mas a lentidão. O mundano investe com urgência o que possui num futuro que sabe frágil. O fiel, que possui um futuro eterno, adia.
III. A prudência que compra o eterno
As duas leituras convergem no verbo administrar. Paulo declara que somos cidadãos de uma pátria que ainda não vemos, e Lucas mostra um homem que administra bens que não lhe pertencem. É precisamente esta a condição do fiel, administrador de bens alheios num tempo que se esgota. Tudo o que possuímos, o corpo que será reformado, os dons, o próprio tempo, foi recebido em depósito, e de tudo será pedida a ratio, a conta. A parábola torna-se então parábola da conversão, porque a astúcia condenável do administrador, transposta para o registro da graça, converte-se na virtude que a tradição chama prudência sobrenatural, a arte de ordenar os meios ao fim último. O salmo dá a esta administração o seu horizonte, Lætatus sum in his quæ dicta sunt mihi, In domum Domini ibimus, alegrei-me quando me disseram, iremos à casa do Senhor. A cidadania celeste de Paulo, a urgência do administrador de Lucas e a subida gozosa do salmo compõem um só movimento. Não somos convocados a desprezar os bens do tempo, mas a convertê-los em bilhete para a cidade que não passa. A firmeza paulina e a esperteza lucana não se opõem, antes se completam, porque firme no Senhor está quem soube negociar o presente em vista do eterno.
IV. Maria, administradora fidelíssima da graça
Onde a parábola exibe a infidelidade astuta, a fé contempla a fidelidade luminosa, e essa fidelidade tem rosto de mulher. Maria é a administradora que nunca dilapidou os bens do Senhor, a villica fidelis a quem foi confiado o maior de todos os depósitos, o próprio Verbo feito carne no seu seio. Se o administrador de Lucas guarda no coração o cálculo da fraude, dela escreve o evangelista que conservabat omnia verba hæc, conferens in corde suo, guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração, e este guardar é a administração perfeita, a que nada perde e tudo faz render. A cidadania celeste que Paulo apenas aguarda, ela já a possui em plenitude, pois a Assunta é a primeira criatura cujo corpus humilitatis foi de fato configuratum corpori claritatis, refeito à imagem do corpo glorioso do Filho. Nela a esperança da carne transfigurada deixou de ser promessa e tornou-se antecipação cumprida. Por isso a chamamos coroa, retomando a palavra que Paulo dava aos Filipenses, coroa não do apóstolo mas de toda a Igreja, a mulher coroada de doze estrelas que a tradição joânica contempla no Apocalipse. Aprender de Maria é aprender a prudência dos filhos da luz que os filhos deste mundo desconhecem, a de quem administra o breve tempo terreno com os olhos fixos na casa do Senhor, para que, chegada a hora de prestar contas, sejamos recebidos não nas casas dos homens, mas nas moradas eternas.
Pós-graduação em mariologia (especialização)
Quer aprofundar sua formação em mariologia? A pós-graduação da Locus Mariologicus é uma especialização que une rigor teológico, vida espiritual e a tradição viva da Igreja. A próxima turma começa em 2027.
Respostas