O Senhor deu, o Senhor tirou, e a criança recebida no meio dos discípulos

«Quis est meus proximus»: Paulo, o bom samaritano e Maria

Dominus dedit, Dominus abstulit. Sicut Domino placuit, ita factum est. Sit nomen Domini benedictum.
Jó 1,21

A liturgia da segunda-feira da 26ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois homens despojados. Jó, o íntegro da terra de Hus, vê ruir num só dia rebanhos, servos e filhos, e não retira da boca a bênção do nome divino. Os discípulos, ao contrário, discutem no caminho quem entre eles seria o maior, e Jesus responde com um gesto, não com um discurso, colocando uma criança junto de si. A primeira leitura em Jó 1,6-22 e o evangelho de Lc 9,46-50 não falam do mesmo episódio, mas medem a mesma distância. A distância que separa a posse da pobreza, a grandeza reivindicada da pequenez recebida. O salmo responsorial, Sl 16(17), oferece a chave da passagem quando pede a Deus que prove o coração durante a noite, igne me examinasti, et non est inventa in me iniquitas, isto é, provaste-me pelo fogo e não encontraste em mim iniquidade. Jó é esse coração provado. A criança é esse coração ainda não corrompido pela ambição. Entre os dois, a mesma fornalha.

I. O muro derrubado e a bênção que permanece

A cena inaugural de Jó desloca o drama para o céu antes de o consumar na terra. Os filhos de Deus apresentam-se diante do Senhor, e entre eles está também Satan, o adversário, cuja pergunta corta como lâmina, numquid Job frustra timet Deum, isto é, será por nada que Jó teme a Deus? A acusação não incide sobre a virtude de Jó, mas sobre a sua raiz. O adversário insinua que a piedade do justo é comércio, cálculo, retorno de um investimento protegido por um muro, nonne tu vallasti eum, não levantaste tu um cerco ao redor dele. A questão que atravessa todo o livro nasce aqui. A fé é gratuita ou é interessada? Deus permite que o muro caia precisamente para que a resposta apareça sem ambiguidade.

Segue-se a demolição em quatro golpes, escalonados com arte terrível pelo narrador. Os sabeus levam os bois, o fogo de Deus consome as ovelhas, os caldeus arrebatam os camelos, e o furacão do deserto derruba a casa sobre os filhos. A repetição da fórmula et effugi ego solus, ut nuntiarem tibi, e só eu escapei para te trazer a notícia, martela a solidão do golpeado. Jó não recebe a dor em doses. Recebe-a inteira, num só dia, sem intervalo de respiração. E então o texto regista o gesto litúrgico do luto oriental, scidit vestimenta sua, et tonso capite corruens in terram, adoravit, rasgou as vestes, rapou a cabeça e, prostrado por terra, adorou. A adoração não vem depois da perda, brota dentro dela. A confissão de Jó, nudus egressus sum de utero matris meae, et nudus revertar illuc, nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá, funda toda a teologia bíblica do despojamento. O homem não possui nada que não tenha recebido, e devolver não é ser roubado, é reconhecer o dono.

II. A criança colocada no meio da ambição

Lucas monta a cena evangélica sobre um pensamento secreto. Intravit autem cogitatio in eos quis eorum major esset, entrou neles a discussão sobre qual seria o maior. O verbo importa. A ambição não é dita em voz alta, é um cogitar interior, e Jesus, escreve o evangelista, videns cogitationes cordis illorum, vendo os pensamentos do coração deles, responde ao invisível com o visível. Toma uma criança, apprehendit puerum, et statuit illum secus se, e coloca-a junto de si. No mundo antigo a criança não é o símbolo doce que a modernidade fabricou. É o ser sem estatuto jurídico, sem voz na assembleia, sem poder de reivindicar lugar. Colocá-la ao lado é derrubar o critério da grandeza que os discípulos acabavam de erguer.

A sentença que se segue inverte a lógica do reino terreno. Nam qui minor est inter vos omnes, hic major est, aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior. Não se trata de uma pedagogia da modéstia, mas de uma revelação sobre Deus. Receber a criança é receber Cristo, e receber Cristo é receber o Pai que o enviou, numa cadeia de acolhimento que sobe do menor ao maior sem interrupção. João, ainda preso à lógica do grupo fechado, denuncia o exorcista estranho, vidimus quemdam in nomine tuo ejicientem daemonia, et prohibuimus eum, vimos alguém a expulsar demónios em teu nome e proibimo-lo. A resposta desfaz o clericalismo nascente, qui enim non est adversum vos, pro vobis est, quem não está contra vós está a vosso favor. A comunidade dos discípulos não é um muro que protege privilégios. É uma porta que se abre à pequenez de fora.

III. A fornalha comum das duas leituras

As duas passagens partilham uma mesma gramática, a gramática do despojamento que revela o coração. Jó perde tudo e permanece íntegro. Os discípulos possuem a proximidade do Mestre e disputam quem a possui melhor. O primeiro é grande porque nada reivindica. Os segundos são pequenos porque tudo querem medir. O salmo articula os dois quadros com uma imagem única, a prova pelo fogo noturno, probasti cor meum, et visitasti nocte, provaste o meu coração e visitaste-me durante a noite. A noite de Jó é a noite dos quatro mensageiros. A noite dos discípulos é a opacidade do seu próprio orgulho, que só o olhar de Cristo penetra. Em ambos, Deus não tira para empobrecer, tira para revelar o que já estava lá, a pureza no justo, a ambição no aprendiz.

A tradição patrística leu Jó como figura de Cristo paciente, o justo que padece sem culpa e bendiz na dor. Gregório Magno, nos Moralia in Job, viu no despojamento do patriarca o prelúdio do despojamento maior do Calvário, onde o Filho, nu na cruz, entrega o espírito. A criança de Lucas prolonga a mesma linha. Cristo, que se fez o menor de todos, é a criança colocada no meio da história, aquele cujo nome se recebe recebendo os pequenos. O maior do reino é o que se deixou reduzir a nada. Assim as duas leituras convergem numa só cristologia, a do kénosis, o esvaziamento, que faz do menor o lugar onde Deus se torna presente.

IV. Maria, a nua que bendiz e a que recebe a criança

Maria não é nomeada nem em Jó nem no evangelho deste dia, e todavia é a chave que abre ambos. Ela é a mulher do despojamento que bendiz, e é a mulher que recebe a criança em nome de Deus. No Calvário, de pé junto à cruz, stabat juxta crucem, Maria vê tirar-lhe o Filho como a Jó foram tirados os filhos, e a sua fé não se rompe. O fiat da anunciação já continha o sit nomen Domini benedictum de Jó, pois quem aceita receber tudo de Deus aceita também devolver-lhe tudo. A Virgem não possui o Filho como propriedade, guarda-o como dom, e por isso pode entregá-lo sem blasfemar. Onde os fiéis vacilam diante da perda, ela permanece, e a sua permanência é a forma acabada da bênção que Jó apenas esboçou na terra de Hus.

O evangelho aprofunda a figura. Maria é, antes de qualquer discípulo, aquela que recebeu a criança em nome do Senhor, pois recebeu no ventre o próprio Cristo que Lucas coloca no meio dos que disputam a grandeza. O Magnificat é a exegese antecipada de Lc 9,48, quando canta que Deus deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles, derrubou os poderosos do trono e exaltou os humildes. Ela é a menor que se tornou a maior, não por reivindicação, mas por acolhimento. A ambição dos discípulos encontra o seu antídoto na ancilla Domini, a serva do Senhor, que se chamou pequena para que Deus a fizesse grande. Contemplar Maria é aprender que a única grandeza é a de quem se deixa receber como criança nas mãos de Deus. Nela, o despojamento de Jó e a pequenez do evangelho tornam-se rosto, e o nome do Senhor, dado e retirado, permanece para sempre bendito.

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