Filhos da luz e a filha de Abraão libertada no sábado

«Sine paenitentia dona et vocatio dei»: Paulo, o convite aos pobres e Maria

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Estote ergo imitatores Dei, sicut filii carissimi, et ambulate in dilectione.
Ef 5,1-2

A liturgia da segunda-feira da 30ª semana do Tempo Comum ergue diante de nós uma única exigência declinada em dois registros, o da parénese e o do gesto. A primeira leitura, tirada da Carta aos Efésios, ordena que os batizados andem no amor à maneira de Cristo, e o Evangelho de Lucas mostra esse amor em ato, quando o Senhor endireita, num dia de sábado, a mulher que dezoito anos de enfermidade tinham dobrado. Entre a palavra que manda imitar Deus e o toque que solta a cativa de Satanás corre uma só corrente, a caridade que não se contenta com o conselho e desce até ao corpo. O salmo responsorial, ao proclamar feliz o homem que medita a lei de Deus dia e noite, dá a estas duas páginas a sua raiz comum, a vida enraizada junto à torrente. Ler estes textos é aprender que a santidade cristã não é uma doutrina sobre a luz, mas um caminhar dentro dela.

I. Imitadores de Deus, filhos da luz

A exortação de Paulo aos Efésios funda a moral cristã não sobre um preceito, mas sobre uma filiação. O Apóstolo não diz apenas fazei o bem, diz estote imitatores Dei, sicut filii carissimi, sede imitadores de Deus, como filhos muito amados (Ef 5,1). A imitação de que fala não é cópia externa de um modelo distante, é o transbordar de uma semelhança já recebida no batismo. Porque somos filhos, imitamos, e não imitamos para nos tornarmos filhos. O verbo que rege toda a passagem é ambulate, andai, caminhai, e o seu complemento é in dilectione, no amor, medido pela entrega de Cristo que se ofereceu oblationem et hostiam Deo in odorem suavitatis, em oblação e sacrifício de suave odor (Ef 5,2). A caridade cristã tem aqui a sua forma sacrificial, não sentimento, mas dom que se consome.

Contra este perfume da oblação, o Apóstolo alinha os odores contrários, a devassidão, a impureza, a cobiça, que nem sequer devem ser nomeadas entre os santos. A lista não é moralismo, é discernimento de dois mundos. Paulo condensa a antítese numa fórmula que atravessa toda a teologia joânica e paulina, eratis enim aliquando tenebrae, nunc autem lux in Domino, outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor (Ef 5,8). Note-se a audácia da linguagem. O fiel não está apenas nas trevas ou na luz, ele foi trevas e agora é luz. A metamorfose atinge o ser, não só o comportamento. Não temos a luz, tornámo-nos luz. Por isso a conclusão não pode ser outra senão o imperativo do caminho, ut filii lucis ambulate, andai como filhos da luz. A ética brota da ontologia da graça, e o salmo confirma-o, pois a árvore plantada junto à torrente dá fruto porque está plantada, não para vir a sê-lo.

II. A mulher encurvada e o Senhor do sábado

O Evangelho de Lucas traduz em carne aquilo que Efésios enuncia em doutrina. Jesus ensina numa sinagoga, e ecce mulier, quae habebat spiritum infirmitatis annis decem et octo, eis uma mulher que, havia dezoito anos, tinha um espírito de enfermidade (Lc 13,11). O texto acrescenta um pormenor de crueza física, ela estava encurvada e nec omnino poterat sursum respicere, e de modo nenhum podia olhar para o alto. Aqui está a imagem da humanidade sob o peso do mal, dobrada sobre a terra, incapaz do gesto religioso por excelência, levantar os olhos. O que Satanás fez não foi apenas adoecer um corpo, foi impedir o olhar para o céu. A doença é figura da servidão, e a servidão tem nome, quam alligavit Satanas, que Satanás amarrou (Lc 13,16).

A iniciativa é toda de Cristo. Ninguém pede, ninguém intercede. Quam cum videret Jesus, vocavit eam ad se, tendo-a visto, Jesus chamou-a a si (Lc 13,12). O verbo do amor que Efésios mandava imitar cumpre-se neste ver que se faz chamar e neste chamar que se faz toque. A palavra dimissa es ab infirmitate tua, estás livre da tua enfermidade, e a imposição das mãos operam juntas, e confestim erecta est, imediatamente ela se endireitou (Lc 13,13). Aquela que não podia olhar para cima ergue-se e glorifica a Deus. O chefe da sinagoga indigna-se, e o Senhor desmascara a hipocrisia com um argumento de proporção. Se cada um solta o boi ou o jumento no sábado para os levar a beber, quanto mais esta filiam Abrahae, filha de Abraão, devia ser solta do seu vínculo em dia de sábado. O sábado não foi violado, foi finalmente cumprido. O descanso de Deus é precisamente a libertação do cativo, e a multidão inteira alegra-se com as maravilhas que Ele faz.

III. A libertação como forma do amor

As duas leituras convergem numa só teologia da caridade libertadora. O que Paulo chama passar das trevas à luz, Lucas mostra como passar da postura encurvada à posição ereta. Três termos ligam os textos, a filiação, a luz e o endireitar-se. Somos filhos da luz porque Aquele que é a Luz nos chamou a si, e o sinal desse chamamento é que o homem, antes dobrado sobre si, se ergue e olha para o alto. A mulher que glorifica a Deus depois de erguida é a imagem exata do fiel de Efésios que, tendo sido trevas, anda agora como filho da luz. A moral cristã não é um esforço de quem se dobra ainda mais sobre a lei, é o fruto de quem foi libertado para poder olhar para cima.

Há, nesta convergência, uma correção decisiva de toda a religião reduzida a preceito. O chefe da sinagoga possui a lei, mas está tão curvado sobre a letra do sábado quanto a mulher o estava sob o espírito da enfermidade. Ele não pode olhar para o alto, não pode reconhecer no gesto de Cristo o próprio coração do sábado. A verdadeira observância não é abster-se, é libertar. Por isso o salmo situa a bem-aventurança não na simples fuga do caminho dos perversos, mas no enraizamento junto à torrente, na meditação amorosa da lei que dá fruto no seu tempo. O amor de que fala Paulo e o toque de que fala Lucas são a mesma água que corre para a árvore e o mesmo fôlego que endireita a cativa.

IV. Maria, a mulher que se ergue

Maria não é nomeada nestas leituras, e todavia é a sua chave. A mulher encurvada há dezoito anos, incapaz de levantar os olhos, é a figura de toda a humanidade cativa, e a Virgem é aquela em quem essa cativa foi, desde o primeiro instante, libertada. O que Cristo faz na sinagoga, soltar do vínculo de Satanás uma filha de Abraão, foi realizado plenamente e por antecipação em Maria, a filha de Sião preservada de todo o laço da culpa. Ela é a criatura que nunca esteve encurvada, aquela cujo olhar nunca deixou de mirar o alto, tota pulchra e sem mácula que a dobrasse sobre a terra.

E Maria é também a plena realização do imperativo de Efésios. Se o fiel é chamado a andar no amor e a ser filho da luz, ela é a que caminhou toda a vida in dilectione, oferecendo com o Filho a oblação de suave odor junto à cruz. Aquela que respondeu fiat é a imitadora perfeita de Deus, porque acolheu sem reserva o dom e o devolveu sem medida. Contemplar a mulher que se endireita e glorifica a Deus é contemplar em esboço a Assunta, erguida em corpo e alma para olhar eternamente a Luz. Maria é a humanidade que se pôs de pé. Quem a toma por Mãe aprende dela o gesto que os dezoito anos de servidão tinham roubado, levantar os olhos e andar como filho da luz.

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