Não podeis servir a Deus e ao dinheiro

«Deus faciet vindictam electorum suorum»: João, a viúva persistente e Maria

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Omnia possum in eo qui me confortat.
Fl 4,13

A liturgia da trigésima primeira semana do Tempo Comum coloca diante de nós duas economias que se recusam a coexistir. A Carta aos Filipenses, na sua página final, mostra o Apóstolo preso e desprovido, e todavia senhor de uma liberdade que nenhuma penúria alcança. O Evangelho segundo Lc 16,9-15 traz a sentença cortante de Cristo sobre o dinheiro injusto e sobre a impossibilidade de servir a dois senhores. Entre a autarquia serena de Paulo e a advertência do Mestre sobre a mammona iniquitatis, o dinheiro da injustiça, desenha-se uma só pergunta. A quem pertence, no fundo, o coração do homem. Não é uma questão de economia doméstica, mas de idolatria.

I. A ciência do bastante

Paulo não escreve como um estoico que domou as paixões, mas como um homem cativo que descobriu o segredo da suficiência. O texto grego chama-lhe autárkeia, e a Vulgata verte sufficiens esse, ser bastante em si, mas o Apóstolo desloca imediatamente o eixo. Scio et humiliari, scio et abundare, sei ser humilhado e sei abundar, diz ele, e a paridade é vertiginosa. A abundância é tão perigosa quanto a fome, porque ambas pretendem dizer ao homem quem ele é. Paulo aprendeu, institutus sum, foi iniciado como num mistério, a não deixar que nem a fartura nem a míngua definissem a sua identidade. O segredo não é ter pouco, é não pertencer àquilo que se tem.

Por isso o cume da leitura não está numa fórmula de resignação, mas numa confissão de dependência. Omnia possum in eo qui me confortat, tudo posso naquele que me fortalece. A frase é frequentemente arrancada do seu solo e transformada em divisa de vontade própria, quando diz exatamente o contrário. O poder de Paulo é um poder recebido, um vigor infundido por Outro. E, coerente, ele reconhece o dom concreto dos Filipenses como odorem suavitatis, hostiam acceptam, placentem Deo, perfume suave, sacrifício aceito e agradável a Deus. A esmola dos irmãos torna-se liturgia. O que passou pelas mãos dos pobres subiu ao altar. E a promessa que fecha a leitura, Deus autem meus impleat omne desiderium vestrum, o meu Deus há de suprir toda a vossa necessidade, funda a generosidade não no cálculo, mas na certeza de um Deus que nunca fica em dívida.

II. Fiel no mínimo

O Evangelho parte de uma provocação deliberada. Facite vobis amicos de mammona iniquitatis, fazei-vos amigos com o dinheiro da injustiça, para que ele vos receba nas moradas eternas. Cristo não canoniza a riqueza, chama-lhe injusta pela sua própria raiz, porque nasce quase sempre da desigualdade e da avidez. Mas ensina a subvertê-la. O bem que se reparte compra aquilo que o dinheiro jamais poderia comprar, o acolhimento eterno dos pobres tornados intercessores. A seguir vem o princípio que governa toda a vida espiritual. Qui fidelis est in minimo, et in majori fidelis est, quem é fiel no mínimo também é fiel no muito. A fidelidade não se mede pela grandeza da matéria, mas pela verdade do coração que a administra.

Daqui brota a lógica implacável da leitura. O dinheiro é chamado quod verum est por contraste, é o mínimo, o alheio, o passageiro. Se o homem se mostra infiel no que é pouco e não é seu, quem lhe confiará o verdadeiro bem, o que é seu para sempre. E então a sentença que não admite meio-termo. Nemo servus potest duobus dominis servire, nenhum servo pode servir a dois senhores. Non potestis Deo servire et mammonae, não podeis servir a Deus e ao dinheiro. A palavra mammona aqui não nomeia uma soma, nomeia um senhor rival, um ídolo que exige culto. O dinheiro deixa de ser instrumento e torna-se deus no instante em que o servimos. Os fariseus, qui erant avari, que eram avarentos, riam de Jesus, e o riso denuncia-os. Deus, diz Cristo, novit corda vestra, conhece os corações, e o que é sublime aos olhos dos homens é abominação diante de Deus.

III. O culto e o ídolo

As duas leituras iluminam-se mutuamente porque tratam da mesma fronteira interior. Paulo é o homem que possui sem ser possuído, e por isso pode passar da fome à fartura sem mudar de rosto. O avarento do Evangelho é o homem possuído por aquilo que julga possuir, e por isso não pode servir a Deus, já tem senhor. A diferença não está na quantidade dos bens, está na direção do culto. Um oferece o que recebe e transforma o donativo em perfume de sacrifício. O outro acumula o que rouba e transforma o coração em templo de um ídolo mudo. A fidelidade no mínimo de que fala Lucas é exatamente a suficiência aprendida de que fala Paulo, vista pelo seu avesso ético.

Toda a tradição patrística leu aqui a questão do coração indiviso. Agostinho ensina que a caridade rectamente ordenada faz do dinheiro servo e do homem senhor, ao passo que a cupidez inverte a ordem e escraviza. O verdadeiro bem, quod vestrum est, o que é vosso, não é aquilo que a morte arranca das mãos, mas aquilo que nenhuma morte pode tocar, a comunhão com Deus. Servir a Deus é a única servidão que liberta, porque restitui ao homem a estatura de filho. Servir a mammona é a liberdade aparente que termina em cativeiro, porque submete o filho à criatura. O Tempo Comum, na sua sobriedade, ensina precisamente esta arte cotidiana, ser fiel no mínimo de cada dia até que o mínimo revele quem verdadeiramente possui o coração.

IV. A serva que nada reteve

Nenhuma das leituras nomeia Maria, e todavia ambas a descrevem. A suficiência de Paulo, que sabe ser humilhado e sabe abundar, encontra a sua forma perfeita naquela que se disse ancilla Domini, serva do Senhor, e que por isso pôde cantar a inversão das riquezas. No Magnificat, divites dimisit inanes, despediu os ricos de mãos vazias, e esurientes implevit bonis, encheu de bens os famintos, Maria proclama de antemão a economia do Reino que o Evangelho de hoje enuncia. Ela é a mulher que não serviu a dois senhores, cujo coração indiviso Deus, que conhece os corações, encontrou inteiramente disponível.

Maria é ainda a fiel no mínimo por excelência. Não administrou tesouros nem impérios, guardou um lar em Nazaré, teceu, calou, ponderou no coração as palavras que não entendia. E porque foi fiel naquele mínimo escondido de trinta anos, foi-lhe confiado o máximo, o próprio Verbo encarnado. A que nada reteve para si recebeu Aquele que é tudo. Ela não possuiu o Filho como quem possui um bem, ofereceu-O no templo, entregou-O na cruz, e assim mostrou que o único modo de guardar o dom é devolvê-lo a Deus. A Virgem torna-se, deste modo, a chave de leitura das duas páginas. Nela vemos que a suficiência de Paulo e a fidelidade pedida por Cristo não são virtudes de heróis solitários, mas o rosto concreto de uma criatura que deixou Deus ser o seu único Senhor, e a quem, por isso, tudo foi dado em abundância, secundum divitias suas in gloria in Christo Jesu.

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