A didascália dos apóstolos

A didascália dos apóstolos

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Si enim liceret a muliere baptizari, profecto Dominus ac magister noster a Maria matre sua baptizatus fuisset.
«Se fosse lícito ser batizado por uma mulher, certamente o Senhor e mestre nosso teria sido batizado por Maria, sua mãe» (Didascalia Apostolorum, versão latina de Verona)

A Didascalia Apostolorum, «Doutrina dos Apóstolos», é uma das mais antigas ordenações eclesiásticas que conhecemos. Nos estudos consultados, só um passo seu nomeia a Mãe do Senhor, e de passagem. Mas essa única frase, escrita no século III, mostra o lugar que a Mãe do Senhor já ocupava no pensamento de uma comunidade cristã antiga.

Uma ordenação eclesiástica do século III

O título completo diz: «Doutrina católica dos doze apóstolos e dos santos discípulos do nosso Salvador». É uma constituição eclesiástica, composta, segundo a patrologia de Johannes Quasten, na primeira parte, talvez nas primeiras décadas, do século III, para uma comunidade de convertidos do paganismo no norte da Síria (QUASTEN, 1980, p. 407). A Theologische Realenzyklopädie precisa que nasceu «wahrscheinlich um 230, im nördlichen Syrien», «provavelmente por volta de 230, no norte da Síria» (BRADSHAW, 1989, p. 665). Trata dos deveres do bispo, dos processos na comunidade, das assembleias, das viúvas, dos diáconos e das diaconisas, da caridade, dos mártires, dos jejuns, da educação dos filhos e das heresias.

O original grego perdeu-se quase por inteiro. Mas não desapareceu sem deixar rastro: foi incorporado, com acrescentos, nos seis primeiros livros das Constituições Apostólicas (QUASTEN, 1980, p. 407), compiladas no fim do século IV (LAURENTIN, 1952, p. 92). O texto completo da Didascalia conserva-se numa tradução siríaca, que Quasten julga pouco posterior ao original e a TRE situa no século IV, talvez um pouco depois, e cujo manuscrito mais antigo é do século VIII (BRADSHAW, 1989, p. 665). Uma antiga tradução latina, que conserva cerca de três oitavos da obra (QUASTEN, 1980, p. 410), dois quintos segundo a TRE, sobrevive num palimpsesto da Biblioteca Capitular de Verona, publicado por E. Hauler em 1900. Existem ainda uma Didascalia árabe e uma etíope, que segundo a TRE derivam dos livros I-VI das Constituições (BRADSHAW, 1989, p. 665).

O passo mariano

Maria aparece no capítulo sobre as viúvas, a propósito do batismo. A Didascalia proíbe que as mulheres batizem e dá como argumento o exemplo do próprio Senhor. No latim de Verona lê-se: «Si enim liceret a muliere baptizari, profecto Dominus ac magister noster a Maria matre sua baptizatus fuisset; baptizatus est autem a Ioanne», «se fosse lícito ser batizado por uma mulher, certamente o Senhor e mestre nosso teria sido batizado por Maria, sua mãe. Foi, porém, batizado por João» (Didascalia XV, Funk 200, segundo CMP II, n. 1123, com tradução italiana em GHARIB et al., 1988, p. 228).

O passo tem várias numerações. É o capítulo XV na tradução de R. H. Connolly (1929, p. 142) e corresponde a III, 9 na edição de F. X. Funk (1905), que dá a Didascalia em latim, em paralelo com o grego das Constituições Apostólicas (LAURENTIN, 1952, p. 92, nota 115, e ALVAREZ CAMPOS, 1970, p. 358). As versões também diferem no início: o latim diz «non approbamus», «não aprovamos», enquanto o siríaco, segundo Connolly, diz «não aconselhamos», como o grego das Constituições: «οὐ συμβουλεύομεν» (PG 1, 781).

O que o passo diz e o que não diz

O texto não é um hino nem uma oração. É um argumento. René Laurentin vê nele «un argument à fortiori»: se alguma mulher pudesse batizar, seria a Mãe do Senhor, e se nem ela o fez, nenhuma o deve fazer (LAURENTIN, 1952, p. 92). A força do argumento está precisamente no lugar que se reconhece a Maria. Georges Jouassard, no primeiro volume da Maria dirigida por Hubert du Manoir, observa que, sem ser muito mais explícita, a Didascalia «place du moins la Vierge en un rang très élevé, au-dessus de saint Jean Baptiste apparemment», «coloca ao menos a Virgem num lugar muito elevado, ao que parece acima de São João Batista» (JOUASSARD, 1949, p. 84).

Não se deve pedir ao passo mais do que ele dá. Não fala de culto nem de oração a Maria, e nenhum dos estudos consultados lhe aponta um passo sobre o parto virginal. Também não inclui a Mãe do Senhor na lista das mulheres discípulas: só as Constituições Apostólicas, mais de um século depois, acrescentam a essa lista «ἥ τε Μήτηρ τοῦ Κυρίου καὶ αἱ ἀδελφαὶ αὐτοῦ», «a mãe do Senhor e suas irmãs» (Constituições Apostólicas III, 6, 2, PG 1, 769). Laurentin nota que o passo correspondente da Didascalia «ne fait point mention de la Vierge, mais seulement des saintes femmes», «não faz nenhuma menção da Virgem, mas só das santas mulheres» (LAURENTIN, 1952, p. 92, nota 117).

As Constituições retomaram também o argumento do batismo, alargando-o: «Εἰ δὲ καὶ ἔδει ὑπὸ γυναικῶν βαπτίζεσθαι, πάντως ἂν καὶ ὁ Κύριος ὑπὸ τῆς ἰδίας μητρὸς ἐβαπτίζετο, καὶ οὐχ ὑπὸ Ἰωάννου», «se fosse necessário ser batizado por mulheres, o Senhor teria sido batizado, sem dúvida, por sua própria mãe, e não por João» (Constituições Apostólicas III, 9, 4, PG 1, 785-788). Laurentin observa que a ideia «est généralisée et renforcée dans les Constitutions apostoliques», «é generalizada e reforçada» (LAURENTIN, 1952, p. 92).

Conclusão

A frase da Didascalia é breve, mas é um testemunho precioso. Numa ordenação prática do século III, escrita para regular a vida de uma comunidade síria, Maria aparece como a mulher de quem se diria primeiro, se tal fosse possível, que poderia ter batizado o próprio Senhor. A comunidade que assim raciocinava punha-a, ao que parece, num lugar muito elevado, fundado no simples fato de ser a mãe de Jesus.

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Referências

ALVAREZ CAMPOS, Sergio (ed.). Corpus Marianum Patristicum. Burgos: Ediciones Aldecoa, 1970. v. 2, p. 358-360, n. 1121-1132 (Constitutiones Apostolorum).

BRADSHAW, Paul Frederick. Kirchenordnungen I: Altkirchliche. In: MÜLLER, Gerhard (ed.). Theologische Realenzyklopädie. Berlin, New York: Walter de Gruyter, 1989. v. 18, p. 662-670.

GHARIB, Georges et al. (org.). Testi mariani del primo millennio. Roma: Città Nuova, 1988. v. 1: Padri e altri autori greci, p. 228.

JOUASSARD, Georges. Marie à travers la patristique: maternité divine, virginité, sainteté. In: DU MANOIR, Hubert (dir.). Maria: études sur la Sainte Vierge. Paris: Beauchesne et ses fils, 1949. t. 1, p. 69-157.

LAURENTIN, René. Marie, l’Église et le sacerdoce. v. 1: Maria, Ecclesia, Sacerdotium: essai sur le développement d’une idée religieuse. Paris: Nouvelles Éditions Latines, [1952].

MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Graeca. Paris: J.-P. Migne, 1857. v. 1, col. 769 e 781-788 (Constitutiones Apostolicae III, 6 e III, 9).

QUASTEN, Johannes. Patrologia. Tradução de Nello Beghin. [Casale Monferrato]: Marietti, 1980 (reimpr. 2000). v. 1: Fino al Concilio di Nicea, p. 407-411.

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