Santa Maria, a nova mulher

«Ecce nova facio omnia». «Eis que faço novas todas as coisas». (Ap 21,5)
I. A nova criação e a mulher nova
A visão do Apocalipse que abre esta Missa, com o anúncio divino de que «tudo» é feito novo, não é uma promessa abstracta sobre um futuro indefinido: é a revelação do que a Encarnação do Filho já começou a realizar. A «nova criação» paulina (2Cor 5,17) e a «nova Jerusalém» joânica (Ap 21,2) convergem numa única afirmação: a vinda de Cristo na carne inaugurou uma ordem nova que não mais retrocederá. O «antigo» que passou não é apenas o regime do pecado: é a condição de toda a humanidade antes da Encarnação, a condição de uma criação que aguardava «com gemidos» a revelação dos filhos de Deus (Rm 8,22).
A «mulher nova» que Maria representa na economia da salvação é o correlato feminino do «homem novo» que é Cristo. Assim como Jesus é o novo Adão que restabelece o que o primeiro Adão havia corrompido (cf. 1Cor 15,45), Maria é a nova Eva que diz «sim» onde a primeira Eva disse «não», que obedece onde Eva desobedeceu, que acolhe o Verbo de Deus onde Eva escutou a voz da serpente. Este paralelismo Eva-Maria, que Justino Mártir e Ireneu de Lião estabeleceram já no segundo século, não é uma especulação tardia: está inscrito na lógica tipológica do Novo Testamento, que apresenta Cristo e Maria como a realização definitiva do que o Génesis havia inaugurado.
II. Da criação corrompida à criação restaurada
O «tudo novo» do Apocalipse pressupõe um «tudo velho» que precisava de ser renovado: uma criação ferida pelo pecado original, uma humanidade fragmentada pela desobediência, uma história marcada pela violência e pela morte. A Encarnação é a resposta de Deus a esta situação: não a destruição do antigo e a sua substituição por algo completamente diferente, mas a restauração do antigo a partir de dentro, a transfiguração da criatura pelo Criador que se faz criatura. E Maria é o primeiro fragmento desta nova criação, a criatura mais plenamente restaurada, a humanidade mais completamente renovada pelo Espírito do Filho que a habitou.
A Imaculada Conceição, dogma definido por Pio IX em 1854, é a formulação dogmática desta intuição: Maria foi preservada de toda a mancha do pecado original em previsão dos méritos de Cristo, tornando-se assim o primeiro fruto pleno da Redenção antes de qualquer outro ser humano. Ela é a «nova criação» antes de todos os outros, a nova mulher que antecipa o que toda a humanidade redimida está chamada a ser. O Apocalipse anuncia o que já aconteceu em Maria e está a acontecer em todos os que se deixam renovar pelo Espírito do Ressuscitado.
III. «Cheia de graça»: a novidade da Anunciação
A saudação do anjo Gabriel a Maria, «cheia de graça» (kecharitomene), é a confirmação da novidade que Maria representa. O particípio perfeito passivo indica um estado já realizado antes deste momento: Maria já foi transformada pela graça, já foi renovada pelo dom divino, já é a «nova mulher» antes de receber o anúncio da maternidade divina. A graça que plenamente a habita não é um acréscimo externo à sua humanidade: é a transfiguração da sua humanidade a partir de dentro, o que faz dela a mais plenamente humana de todas as criaturas, porque é a mais plenamente divina na participação da vida de Deus.
O fiat de Maria é o acto da nova mulher por excelência: onde Eva disse «não» ao mandamento de Deus ao escutar a promessa enganosa da serpente, Maria diz «sim» ao mandamento de Deus ao acolher a promessa verdadeira do anjo. O paralelismo é musical na sua precisão: a árvore do Jardim do Éden, a serpente, a mulher, a palavra que define o destino de toda a humanidade. No Jardim, a palavra foi de recusa e abriu a porta à morte. Em Nazaré, a palavra foi de acolhimento e abriu a porta à vida. A nova criação começou num quarto simples da Galileia, quando uma jovem mulher disse «sim» ao Deus que havia esperado esta resposta desde antes da fundação do mundo.
IV. Maria, primícias da nova humanidade
A vigésima Missa da Coletânea contempla Maria como a «nova mulher» que representa o que toda a humanidade redimida está chamada a ser: uma criatura plenamente transformada pela graça, plenamente disponível para o Espírito, plenamente integrada no projecto divino de renovação universal. Ela não é a excepção na história da salvação: é o modelo, a primícia, a antecipação do que o «tudo novo» do Apocalipse realizará em todos os que se deixam renovar.
A Igreja que celebra esta Missa é convidada a reconhecer em Maria a imagem do seu próprio destino: não um destino de degradação progressiva e de morte definitiva, mas um destino de transfiguração crescente e de plenitude de vida. A «nova Jerusalém» que desce do céu «como uma esposa adornada para o seu esposo» é a imagem da humanidade finalmente convertida, finalmente entregue, finalmente tornada aquilo para que foi criada. E Maria, a nova mulher que antecipou este destino, está no centro desta comunidade glorificada como a que mais plenamente revelou em que consiste a novidade de ser criatura renovada pelo amor de Deus.
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