A vinha e a pedra angular: Is 5, 1-3 e a parábola dos vinhateiros em Mt 21

A vinha e a pedra angular: Is 5, 1-3 e a parábola dos vinhateiros em Mt 21
Lapidem qui reprobaverunt aedificantes, hic factus est in caput anguli.
Mt 21,42

O vigésimo sétimo domingo do Tempo Comum do Ano A articula três textos em torno da vinha de Deus e da pedra rejeitada que se torna angular. Is 5,1-7 canta a vinha que o amado cultivou com todo o cuidado mas que produziu uvas silvestres: é Israel que defraudou as esperanças de Deus. Fil 4,6-9 convida à paz que ultrapassa todo o entendimento e ao cultivo do que é verdadeiro, honesto, justo e puro. Mt 21,33-43 conta a parábola dos vinhateiros que matam os servos e o filho do dono: a vinha será dada a outros, e a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. Os três textos convergem: Deus investiu na sua vinha com generosidade, mas os que a cultivam têm responsabilidade pelos frutos, e a pedra rejeitada é sempre o centro que os construtores não souberam ver.

I. A primeira leitura: Is 5,1-7

O profeta canta em nome do seu amigo: «Cantarei ao meu amado o cântico do seu amor pela vinha. O meu amado tinha uma vinha num outeiro fértil» (Is 5,1). O amigo preparou tudo: cavou a terra, a limpou de pedras, plantou a melhor videira, construiu uma torre no meio e escavou um lagar. «E esperava que ela produzisse uvas, mas ela produziu uvas silvestres» (v.2). A pergunta que se segue é uma interpelação ao povo: o que mais podia fazer pela vinha? E a conclusão: «A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá a sua plantação predilecta. Esperava direito, e eis iniquidade. Esperava justiça, e eis o clamor» (v.7). A comparação das palavras hebraicas é perfeita: mishpat/mispach (direito/derramamento de sangue), tsedaqah/tsaeqah (justiça/clamor). A vinha não produziu o que deveria. Mas o amado não abandona a vinha: remove a sua proteção e deixa que ela experiencie as consequências.

II. A segunda leitura: fl 4,6-9

Em contraste com a ansiedade que o contexto poderia gerar, Paulo convida: «Não vos preocupeis com nada. Mas em tudo, pela oração e pela súplica com acção de graças, apresentai as vossas petições a Deus» (Fil 4,6). E a promessa: «E a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus» (v.7). A paz que ultrapassa o entendimento não é a paz da ausência de problemas: é a paz que subsiste no meio dos problemas, que o entendimento não consegue produzir mas que Deus oferece. E o convite ao discernimento: «Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa reputação, se há alguma virtude e se há algum louvor, pensai nessas coisas» (v.8). A vinha que produz estes frutos é a vinha que não decepciona.

III. O evangelho: Mt 21,33-43

Jesus retoma a imagem da vinha de Isaías e acrescenta-lhe os vinhateiros: «Havia um homem que era proprietário de terras. Plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, construiu uma torre e alugou-a a vinhateiros. Depois foi para longe» (Mt 21,33). No tempo da colheita, o dono manda servos buscar os frutos. Os vinhateiros espancam uns, matam outros, apedrejam outros. Manda mais servos: o mesmo. Finalmente manda o seu filho, pensando que o respeitariam. Os vinhateiros reconhecem-no: «Este é o herdeiro. Vinde, matemo-lo e apoderarmo-nos da sua herança» (v.38). Matam-no. Jesus pergunta o que fará o dono aos vinhateiros. A resposta dos ouvintes: «Dará um fim mau aos malfeitores e alugará a vinha a outros vinhateiros que lhe darão os frutos nas épocas próprias» (v.41). E a citação do Salmo: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular» (v.42). A parábola termina com uma transferência: «O Reino de Deus ser-vos-á tirado e dado a um povo que lhe dê os seus frutos» (v.43).

IV. Maria e a vinha fiel

Isaías canta uma vinha que decepcionou o amado. Maria é, na tradição patrística, a exceção dentro da vinha de Israel: a parte da vinha que não produziu uvas silvestres, a que deu o fruto mais precioso que a vinha jamais produzira, o Filho de Deus. Nela, o cântico de Isaías 5 encontrou a sua resposta positiva: o amado esperava direito e em Maria encontrou direito; esperava justiça e em Maria encontrou justiça. A pedra angular de Mt 21,42 é Cristo. Maria é a que ficou ao pé da pedra angular quando todos fugiam: quando os construtores rejeitavam a pedra, ela reconhecia-a. Fil 4,6-9 fala de um coração guardado pela paz de Deus que ultrapassa o entendimento. O coração de Maria, que «guardava todas estas coisas e as meditava» (Lc 2,19), é o modelo desse coração guardado pela paz. Não a paz da ausência de dor (a espada atravessou-o), mas a paz que subsiste quando tudo o resto falha, a paz que é fruto não do entendimento mas da confiança no amado que plantou a vinha.

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