A multidão de todos os santos: Ap 7; Jo 3 e as bem-aventuranciás em Mt 5

A multidão de todos os santos: Ap 7; Jo 3 e as bem-aventuranciás em Mt 5

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Beati mundos corde: quoniam ipsi Deum videbunt.
Mt 5,8

A solenidade de Todos os Santos reúne três textos em torno da identidade e do destino dos que pertencem a Deus. Ap 7,2-4.9-14 descreve a multidão incontável de todas as nações e línguas, vestida de branco, de pé diante do trono e do Cordeiro: são os que vieram da grande tribulação e lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro. 1Jo 3,1-3 proclama que somos filhos de Deus, que ainda não se manifestou o que seremos, mas que quando se manifestar seremos semelhantes a ele porque o veremos tal como é. Mt 5,1-12a apresenta as bem-aventuranças: os pobres em espírito, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos, os perseguidos. Os três textos convergem: os santos são os que viveram as bem-aventuranças, que atravessaram a tribulação, que agora veem Deus e são semelhantes a ele.

I. A primeira leitura: Ap 7,2-4.9-14

João vê um anjo que sobe do oriente com o selo do Deus vivo, e sela os servos de Deus na fronte: cento e quarenta e quatro mil, doze mil de cada tribo de Israel. Depois vê uma multidão diferente: «Uma multidão enorme, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro, vestidos de branco, com palmas nas mãos» (Ap 7,9). Um dos anciãos explica: «Estes são os que vêm da grande tribulação: lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro» (v.14). A multidão dos santos não é uma elite: é enorme, incontável, de todos os cantos do mundo. A veste branca não é o resultado do esforço humano: é o sangue do Cordeiro que a branqueia. E a tribulação não é o oposto da santidade: é o caminho por onde os santos passaram. Todos os santos conheceram a tribulação. Nenhum chegou à glória sem a ter atravessado.

II. A segunda leitura: Jo 3,1-3

João proclama com admiração: «Vede que amor o Pai nos deu: somos chamados filhos de Deus, e somos»! (1Jo 3,1). O mundo não nos reconhece como filhos de Deus pela mesma razão que não reconheceu o Filho: a lógica de Deus não é a lógica do mundo. Mas o que somos agora já é real, mesmo que ainda não esteja completo: «Amados, somos agora filhos de Deus, mas o que seremos ainda não se manifestou» (v.2). O que virá é a visão: «Quando se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é» (v.2). A visão de Deus transforma quem vê: seremos semelhantes a ele porque o veremos. E a consequência prática: «Todos os que têm esta esperança nele purificam-se a si mesmos, como ele é puro» (v.3). A esperança da visão gera a purificação presente. Os santos são os que se purificaram porque esperaram ver Deus.

III. O evangelho: Mt 5,1-12a

Jesus sobe ao monte, senta-se, e os discípulos aproximam-se. Começa com oito proclamações de bem-aventurança, que são ao mesmo tempo descrição e promessa. «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus» (Mt 5,3). «Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra» (v.5). «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados» (v.4). «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (v.6). «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (v.7). «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus» (v.8). «Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus» (v.9). «Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus» (v.10). As bem-aventuranças não são um código moral novo: são o retrato dos santos. Quem viu a multidão de Ap 7 reconhece nela os rostos das bem-aventuranças: os que lavaram as vestes na tribulação são os perseguidos por causa da justiça. Os que estão de pé diante do Cordeiro são os puros de coração que agora veem Deus.

IV. Maria e a primeira dos santos

A teologia e a liturgia reconhecem em Maria a primeira e mais perfeita dos santos: não uma entre muitos, mas o modelo que todos os outros refletem. 1Jo 3 diz que seremos semelhantes a Deus quando o virmos tal como é. Maria, pela Assunção e pela sua presença na glória, já vê Deus tal como é: é a criatura que primeiro realizou plenamente o que 1Jo 3 promete. As bem-aventuranças descrevem o seu itinerário: foi pobre em espírito (a serva do Senhor que não reteve nada), foi manso (aprendeu de Cristo que é manso e humilde), chorou (sob a Cruz), teve fome e sede de justiça (esperou a ressurreição do Filho), foi misericordiosa (intercede sem cessar), foi pura de coração (sem pecado, gerou o Filho), foi pacífica (não usou violência, nem sob a Cruz), foi perseguida (a fuga para o Egito, a espada de Simeão, o Calvário). O Apocalipse mostra a multidão vestida de branco: a mesma fonte, Ap 12, mostra a mulher vestida de sol, a figura que a Igreja leu como Maria. Ela está no centro de toda a multidão dos santos porque, no seu seio, o Cordeiro cujo sangue os branqueia tomou carne.

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