A mulher vestida de sol: Ap 12, 1Cor 15 e Lc 1, solenidade da Assunção de Nossa Senhora

Signum magnum apparuit in caelo: mulier amicta sole.
«Apareceu no céu um sinal grandioso: uma mulher vestida de sol». (Ap 12,1)
I. A mulher vestida de sol e o dragão vencido
A primeira leitura da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora pertence ao Livro do Apocalipse e apresenta uma das visões mais grandiosas de toda a Escritura. «Apareceu no céu um sinal grandioso: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava grávida e gritava com as dores do parto e a angústia de dar à luz». Esta mulher cósmica, revestida de luz solar e coroada pelas estrelas, tem sido interpretada de modos diferentes ao longo da história da exegese. Ela é simultaneamente imagem de Israel que dá à luz o Messias, tipo da Igreja que gera filhos na fé e figura de Maria.
O dragão vermelho com sete cabeças e dez cornos espera devorar a criança logo que nasça. Mas a criança é arrebatada para Deus e para o seu trono. E a mulher foge para o deserto onde Deus lhe preparou um lugar de refúgio. O conflito cósmico entre a mulher e o dragão evoca a promessa do Génesis: «Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Ela esmagar-te-á a cabeça». A mulher do Apocalipse é a Nova Eva, aquela que em Cristo supera definitivamente a antiga derrota do jardim.
A proclamação final da visão, «agora chegou a salvação, o poder e o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo», situa o destino da mulher no contexto da vitória escatológica de Cristo. A Assunção de Maria não é um evento isolado. É parte integrante da vitória de Cristo sobre a morte e o pecado. A mulher que deu à luz o Filho que reina sobre todas as nações partilha, por graça singular, da glorificação do Filho que ressuscitou. Onde o Filho chegou, a Mãe foi introduzida.
II. Cristo primícias, Maria primícias da Igreja glorificada
A segunda leitura da primeira carta aos Coríntios apresenta a teologia paulina da ressurreição como fundamento da Assunção de Maria. «Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Pois como a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um na sua própria ordem: Cristo como primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda». Esta sequência paulina, Cristo ressuscitado como primícias e os que são de Cristo a seguir, é o quadro teológico em que a Assunção de Maria se insere.
Paulo afirma que a ressurreição é uma realidade que começou em Cristo e se estende a todos os que estão em Cristo. A Assunção de Maria, definida dogmaticamente por Pio XII na constituição apostólica Munificentissimus Deus de 1950, afirma que Maria foi introduzida desde já na glorificação corporal que todos os cristãos aguardam no fim dos tempos. Ela é a primeira entre «os que são de Cristo» a partilhar plenamente da vitória da ressurreição. Em Maria, a promessa paulina já se cumpriu: o que era corruptível revestiu a incorruptibilidade, o que era mortal revestiu a imortalidade.
Cristo destrói todo o principado, toda a autoridade e todo o poder, colocando os inimigos debaixo dos seus pés. «O último inimigo a ser destruído é a morte». A Assunção de Maria é o sinal de que este inimigo foi verdadeiramente vencido. O corpo de Maria, formado pelo Espírito Santo para ser o tabernáculo do Filho de Deus, não podia permanecer sujeito à corrupção do sepulcro. A mesma lógica que fundamenta a ressurreição de Cristo fundamenta a Assunção da Mãe: onde o amor de Deus chega, a morte não tem a última palavra.
III. O magnificat no dia da Assunção: alegria cumprida
A liturgia da Assunção escolhe o Magnificat como evangelho do dia, colocando na boca de Maria, no dia da sua glorificação, as mesmas palavras que ela pronunciou na Visitação. Esta escolha é de uma beleza e de uma profundidade teológica extraordinárias. O Magnificat que Maria cantou no tempo da gravidão de Isabel é agora lido à luz da sua Assunção ao céu: o que ela proclamou como esperança realizou-se definitivamente. «O poderoso fez em mim grandes coisas». Sim. O poderoso fez em Maria as maiores coisas que alguma vez fez numa criatura humana.
«Desde agora me chamarão bem-aventurada todas as gerações». Esta profecia do Magnificat cumpre-se em cada geração que celebra a Assunção, em cada rosário rezado, em cada santuário mariano visitado, em cada oração dirigida a Maria como «bem-aventurada». O Magnificat é ao mesmo tempo o cântico da jovem que recebeu a graça e o cântico da glorificada que entrou na plenitude do que a graça prometia. A continuidade entre a Maria de Nazaré e a Maria Assumpta é a continuidade da fidelidade: ela que disse «faça-se» na Anunciação está agora no lugar onde o «faça-se» de Deus se cumpriu para sempre.
O Magnificat proclama que Deus encheu de bens os famintos e despediu de mãos vazias os ricos. A Assunção é a confirmação definitiva desta verdade: os humildes, os que esperaram, os que fizeram a vontade de Deus sem calcular recompensas, são exaltados. Maria, que foi a mais humilde e a mais fiel, foi a mais exaltada. A sua Assunção não é um privilégio que a separa dos outros fiéis. É a antecipação do destino que Deus preparou para todos os que amam o seu nome.
IV. A Assunção na mariologia, corpo e alma para a glória
A definição dogmática da Assunção de Maria, proclamada em 1950 por Pio XII, afirma que Maria foi «assunta em corpo e alma à glória celeste» após ter completado o curso da sua vida terrena. A formulação é deliberadamente precisa sobre a dimensão corporal e cuidadosamente aberta quanto à questão da morte: não define se Maria morreu antes de ser assumida ou se foi assumida sem morrer. A tradição oriental fala de «dormição» (koimesis), a tradição ocidental tende a falar de «morte», mas a definição dogmática não resolve o debate.
O que a definição afirma com plena autoridade é a glorificação corporal de Maria. Este ponto tem uma importância fundamental para a teologia cristã: o corpo é parte constitutiva da pessoa humana e o destino do corpo é parte do destino eterno do ser humano. A ressurreição de Cristo e a Assunção de Maria são os dois primeiros casos históricos desta glorificação corporal que todos os cristãos aguardam. Eles não são excepções à regra mas o cumprimento antecipado do que a regra promete.
A Solenidade da Assunção é a festa mais rica do calendário mariano e uma das mais celebradas de toda a liturgia cristã. Ela convida cada fiel a olhar para Maria assumida como para o espelho do seu próprio destino: o que aconteceu a Maria é o que Deus quer que aconteça a cada filho seu. O Magnificat que ela canta eternamente na glória é o convite a começar já a cantar, na fé e na esperança, a mesma canção. Porque a vitória de Cristo sobre a morte, da qual a Assunção de Maria é o primeiro fruto maduro, estende-se a todos os que crêem.
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