Ofanins: o que são as rodas de Ezequiel e qual a relação com os anjos tronos

Painel de Fra Angelico com a roda dentro da roda de Ezequiel, na roda exterior doze figuras do Antigo Testamento e na interior os oito autores do Novo Testamento, com o profeta Ezequiel e São Gregório Magno sentados em baixo (pormenor)

Em resumo

As rodas de Ezequiel, chamadas ofanins (do hebraico ofan, «roda»), são as rodas do trono de Deus, junto aos seres viventes. Cada uma parece uma roda dentro de outra (Ez 1,16), com aros altos, temíveis e cheios de olhos (Ez 1,18). Significam que a glória do Senhor é soberanamente livre, vê tudo e acompanha o povo no exílio.

Ofanins (do hebraico אוֹפַנִּים, ofanim, «rodas») são as rodas que o profeta Ezequiel viu junto aos querubins, por baixo do trono de Deus: altas, temíveis, como «uma roda no meio de outra roda», com os aros cheios de olhos (Ez 1,15-21 e 10,9-13). Parte da tradição associou-as ao coro dos Tronos, mas a Bíblia não as chama de anjos.

As rodas de Ezequiel são um dos elementos mais enigmáticos da Escritura. Não são invenção da internet nem figura esotérica: estão no texto sagrado, na visão inaugural do profeta (Ez 1) e na visão da glória que deixa o templo (Ez 10). Nos últimos anos, ganharam fama inesperada com o meme dos «biblically accurate angels». Este artigo explica o que o texto hebraico diz de fato, como a tradição judaica e a cristã leram essas rodas, qual a relação com o coro angélico dos Tronos e o que a fé católica afirma, e o que deixa em aberto.

O que são os ofanins

No livro de Ezequiel, os ofanins são as quatro rodas que acompanham os quatro seres viventes (em hebraico chayyot), que o próprio profeta depois identifica como querubins (Ez 10,20). Cada roda está junto a um dos viventes, move-se com ele em qualquer direção sem precisar virar e se eleva da terra quando ele se eleva. Por cima de tudo há uma plataforma como cristal, e sobre ela a semelhança de um trono. O conjunto é o carro-trono da glória de Deus, que a tradição judaica chamou de merkabá.

Três traços tornam as rodas inesquecíveis: o brilho de pedra preciosa, a estrutura de «roda dentro de roda» e os aros cheios de olhos ao redor. No texto, elas não falam, não louvam e não recebem missão: o que as move é o espírito dos seres viventes, que «estava nas rodas» (Ez 1,20-21). A pergunta se os ofanins são anjos nasce depois, na leitura judaica tardia e na tradição cristã, e será tratada mais abaixo.

Xilogravura da visão de Ezequiel com Deus coroado, sentado sobre nuvens num halo de luz, com globo e cetro, à esquerda quatro seres alados, um com rosto de homem, outro de águia, outro de touro e outro de leão, e à direita, entre chamas, a roda dentro da roda com olhos no aro
Hans Holbein, o Jovem (desenho) e Veit Rudolf Specklin (talha), «A visão de Ezequiel (Ez 1)», xilogravura, Lyon, 1538, Rijksmuseum, Amsterdam

Ofanim em hebraico: o significado da palavra

Em hebraico, ofan (אוֹפַן) é a palavra comum para a roda de um carro, e ofanim (אוֹפַנִּים) é o seu plural. Em português usam-se as formas ofanins e ofanim, e em inglês ophanim. O nome, portanto, não designa por si mesmo um ser vivo: designa uma roda. Foi a literatura judaica posterior que transformou o plural ofanim em nome próprio de uma classe de seres celestes.

Ezequiel usa ainda outra palavra. No capítulo 10, o profeta escuta como as rodas são chamadas: «לָאוֹפַנִּים לָהֶם קוֹרָא הַגַּלְגַּל בְּאׇזְנָי», literalmente «às rodas, a elas foi chamado “o turbilhão” aos meus ouvidos» (Ez 10,13). Galgal (גַּלְגַּל) é a roda que gira, o rodamoinho. É dessa palavra que vem o nome «Gel Gel» que o Pseudo-Dionísio comenta, e a forma galgalim que aparece em algumas listas angélicas modernas.

Ezequiel 1: as rodas junto aos seres viventes

A visão acontece no exílio da Babilônia, junto ao rio Quebar, no quinto ano do exílio do rei Joaquin (Ez 1,1-2), isto é, por volta de 593 a.C. Depois de descrever os quatro seres viventes de quatro faces e quatro asas, o profeta continua:

וָאֵ֖רֶא הַחַיּ֑וֹת וְהִנֵּה֩ אוֹפַ֨ן אֶחָ֥ד בָּאָ֛רֶץ אֵ֥צֶל הַחַיּ֖וֹת לְאַרְבַּ֥עַת פָּנָֽיו׃

«E olhei os seres viventes, e eis uma roda (ofan) na terra junto aos seres viventes, para as suas quatro faces» (Ez 1,15, tradução literal do texto massorético).

מַרְאֵ֨ה הָאוֹפַנִּ֤ים וּמַֽעֲשֵׂיהֶם֙ כְּעֵ֣ין תַּרְשִׁ֔ישׁ וּדְמ֥וּת אֶחָ֖ד לְאַרְבַּעְתָּ֑ן וּמַרְאֵיהֶם֙ וּמַ֣עֲשֵׂיהֶ֔ם כַּאֲשֶׁ֛ר יִהְיֶ֥ה הָאוֹפַ֖ן בְּת֥וֹךְ הָאוֹפָֽן׃

«A aparência das rodas e a sua feitura era como o brilho do crisólito (tarshish), e uma só semelhança tinham as quatro. E a sua aparência e a sua feitura era como se estivesse uma roda no meio de outra roda» (Ez 1,16, tradução literal).

עַל־אַרְבַּ֥עַת רִבְעֵיהֶ֖ן בְּלֶכְתָּ֣ם יֵלֵ֑כוּ לֹ֥א יִסַּ֖בּוּ בְּלֶכְתָּֽן׃

«Para os seus quatro lados, quando andavam, andavam, não se viravam quando andavam» (Ez 1,17, tradução literal).

וְגַ֨בֵּיהֶ֔ן וְגֹ֥בַהּ לָהֶ֖ם וְיִרְאָ֣ה לָהֶ֑ם וְגַבֹּתָ֗ם מְלֵאֹ֥ת עֵינַ֛יִם סָבִ֖יב לְאַרְבַּעְתָּֽן׃

«E os seus aros eram altos e temíveis, e os aros das quatro estavam cheios de olhos ao redor» (Ez 1,18, tradução literal).

עַ֣ל אֲשֶׁר֩ יִֽהְיֶה־שָּׁ֨ם הָר֤וּחַ לָלֶ֙כֶת֙ יֵלֵ֔כוּ שָׁ֥מָּה הָר֖וּחַ לָלֶ֑כֶת וְהָאוֹפַנִּ֗ים יִנָּֽשְׂאוּ֙ לְעֻמָּתָ֔ם כִּ֛י ר֥וּחַ הַחַיָּ֖ה בָּאוֹפַנִּֽים׃

«Para onde o espírito queria ir, iam, para onde o espírito queria ir, e as rodas se elevavam junto com eles, porque o espírito do vivente estava nas rodas» (Ez 1,20, tradução literal).

O versículo seguinte repete a mesma razão: quando os viventes andam, as rodas andam, quando param, elas param, «porque o espírito do vivente estava nas rodas» (Ez 1,21). E por cima de tudo, sobre a plataforma, aparece «a semelhança de um trono» e, sobre ele, «uma semelhança como a aparência de um homem» (Ez 1,26). O profeta fecha a descrição com uma frase decisiva para entender toda a cena:

ה֕וּא מַרְאֵ֖ה דְּמ֣וּת כְּבוֹד־יְהֹוָ֑ה

«Esta era a aparência da semelhança da glória do Senhor» (Ez 1,28, tradução literal).

Aparência da semelhança: Ezequiel acumula as cautelas para dizer que descreve uma visão, não um retrato. A visão inteira é o pedestal móvel da glória de Deus.

Roda dentro de roda: o significado das rodas de Ezequiel

A imagem de fundo é a de um carro-trono. No Antigo Oriente os grandes reis se deslocavam em carros de guerra, e Israel confessa que o seu Deus não é menos livre. A roda dentro da roda, provavelmente dois aros cruzados, diz um movimento possível em todas as direções sem manobra: as rodas «não se viravam quando andavam» (Ez 1,17). O trono de Deus nunca precisa dar meia-volta.

Os olhos ao redor dos aros dizem a vigilância total: nada escapa àquele que vem. A altura temível e o brilho de pedra preciosa dizem a majestade. E o fato de as rodas serem movidas pelo espírito dos viventes diz que todo o conjunto obedece a um único impulso, sem atrito nem hesitação. Tudo na descrição serve a uma única mensagem: a glória do Senhor é soberanamente livre e vê tudo.

Ezequiel 10: as rodas e os querubins

No capítulo 10, a visão volta, agora no templo de Jerusalém, e o profeta identifica os seres viventes: são querubins, as criaturas que guardam a santidade de Deus e sustentam o seu trono (Ez 10,20). As rodas reaparecem com os mesmos traços:

וָאֶרְאֶ֗ה וְהִנֵּ֨ה אַרְבָּעָ֣ה אוֹפַנִּים֮ אֵ֣צֶל הַכְּרוּבִים֒ אוֹפַ֣ן אֶחָ֗ד אֵ֚צֶל הַכְּר֣וּב אֶחָ֔ד וְאוֹפַ֣ן אֶחָ֔ד אֵ֖צֶל הַכְּר֣וּב אֶחָ֑ד וּמַרְאֵה֙ הָא֣וֹפַנִּ֔ים כְּעֵ֖ין אֶ֥בֶן תַּרְשִֽׁישׁ׃

«E olhei, e eis quatro rodas junto aos querubins, uma roda junto a um querubim e uma roda junto a outro querubim, e a aparência das rodas era como o brilho da pedra de crisólito» (Ez 10,9, tradução literal).

Aqui os olhos não estão só nas rodas: o profeta diz que todo o corpo dos querubins, as costas, as mãos e as asas, e também as rodas estavam cheios de olhos ao redor (cf. Ez 10,12). E as rodas continuam sem iniciativa própria: quando os querubins param, elas param, quando se elevam, elas se elevam, «porque o espírito do vivente estava nelas» (Ez 10,17).

O capítulo tem um peso histórico enorme. A glória do Senhor sai do limiar do templo, pousa sobre os querubins, e os querubins erguem as asas e partem «com as rodas junto deles» (cf. Ez 10,18-19 e 11,22-23). A mensagem, escrita para exilados que julgavam Deus preso ao templo prestes a ser destruído, é revolucionária: a glória do Senhor tem rodas, e por isso pode deixar Jerusalém e acompanhar o seu povo até a Babilônia. Nenhum exílio fica fora do alcance do trono.

As rodas do trono em Daniel 7,9

As rodas do trono voltam numa visão de Daniel, escrita em aramaico. Diante do Ancião dos dias, os tronos são colocados, e o trono divino tem rodas de fogo:

כׇּרְסְיֵהּ֙ שְׁבִבִ֣ין דִּי־נ֔וּר גַּלְגִּלּ֖וֹהִי נ֥וּר דָּלִֽק׃

«O seu trono, chamas de fogo, as suas rodas, fogo ardente» (Dn 7,9, tradução literal do aramaico).

A palavra para «rodas» é aqui galgal, a mesma de Ez 10,13. Daniel não descreve olhos nem aros, mas confirma a mesma imagem: o trono de Deus é um trono em movimento, de fogo, que vem julgar. Foi a convergência destes textos, Ezequiel 1 e 10 e Daniel 7, que levou leitores judeus e cristãos a pensar as rodas como parte da corte celeste que envolve o trono.

Os ofanins são anjos? O que diz a tradição

Na tradição judaica

A tradição judaica chamou Ez 1 de «visão da merkabá», do carro-trono, e fez dela objeto de uma longa corrente mística. Nos escritos judaicos posteriores à Bíblia, os ofanim passam a ser contados como uma classe de seres celestes. O livro de 1 Henoc, obra apócrifa que a Igreja Católica não recebe no cânon das Escrituras, menciona os ofanins ao lado dos serafins e dos querubins entre os que não dormem e guardam o trono da glória de Deus (1 Henoc 71,7, cf. 61,10). Na Idade Média, Maimônides ainda os põe em segundo lugar numa lista de dez graus de anjos (Mishné Torá, Fundamentos da Torá 2,7). São testemunhos da recepção do texto, não Escritura.

No Pseudo-Dionísio Areopagita

Na tradição cristã, a referência clássica é o tratado A hierarquia celeste, atribuído a Dionísio Areopagita. No capítulo VII, ele apresenta a primeira hierarquia, formada por serafins, querubins e tronos, e explica o nome dos Tronos como sinal de uma elevação acima de tudo o que é terreno e de uma abertura plena para acolher Deus. No capítulo XV, ao comentar os símbolos bíblicos, interpreta as rodas aladas como figura do movimento das inteligências celestes, que avançam em linha reta sem voltar atrás nem se desviar, e acrescenta que o nome «Gel Gel», dado às rodas pelo profeta, significaria «revoluções e revelações». O ponto importante é que Dionísio lê as rodas como símbolo das virtudes dos espíritos celestes em geral, não como um décimo coro de anjos.

Em São Tomás de Aquino e o coro dos Tronos

São Tomás de Aquino recebe a ordem dionisiana dos nove coros. Ao justificar os nomes, aponta a origem bíblica de cada um: serafins em Isaías 6, querubins em Ezequiel 1, e o nome dos Tronos na carta aos Colossenses (Suma teológica I, q. 108, a. 5, s.c.). De fato, São Paulo diz que em Cristo foram criadas todas as coisas, «εἴτε θρόνοι εἴτε κυριότητες», «sejam tronos, sejam dominações» (Cl 1,16). Seguindo Dionísio, Tomás explica o nome pela comparação com os assentos materiais, que são elevados, firmes e recebem quem se senta: «Sic et isti Angeli suscipiunt Deum in seipsis, et eum quodammodo ad inferiores ferunt», «assim também estes anjos recebem Deus em si mesmos e, de certo modo, o levam aos inferiores» (I, q. 108, a. 5, ad 6). Na ordem dos coros, os Tronos são o último grau da primeira hierarquia, e São Tomás recorda, com São Gregório Magno, que se chamam tronos aqueles «per quos Deus sua iudicia exercet», «por meio dos quais Deus exerce os seus juízos» (I, q. 108, a. 6, co.).

São Tomás não identifica os Tronos com as rodas de Ezequiel. Mas a imagem que ele usa, a de um assento que acolhe Deus e o leva aos outros, ilumina por que tantos leitores aproximaram as duas figuras: em Ezequiel, as rodas são exatamente a parte do trono que leva a glória de um lugar para outro.

Ofanins e Tronos são a mesma coisa?

Não exatamente. Muitas listas modernas de anjos, sobretudo fora do âmbito católico, dizem que «ofanins» e «tronos» são dois nomes do mesmo coro. A aproximação tem uma base real: em Ezequiel as rodas pertencem ao trono, e em Daniel o trono tem rodas de fogo. Mas, na teologia católica, o coro dos Tronos tem o seu nome tirado de Cl 1,16, e os grandes autores que organizaram os coros, o Pseudo-Dionísio e São Tomás, não o definem como as rodas de Ezequiel. A forma mais exata de dizer é esta: as rodas de Ezequiel são uma imagem do trono móvel de Deus, e parte da tradição viu nelas uma figura dos espíritos que o próprio nome «tronos» designa.

Também convém desconfiar de nomes como «Zafquiel, chefe dos ofanins», comuns em sites de angeologia esotérica. A Igreja reprova o uso de dar aos anjos nomes particulares, exceto Miguel, Gabriel e Rafael, que estão na Escritura (Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, n. 217).

O que a fé católica afirma sobre os ofanins

A resposta católica pede distinções. Que existam criaturas puramente espirituais, pessoais e imortais, a que a Escritura chama anjos, é verdade de fé: «A existência dos seres espirituais, não-corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé» (CIC 328). Que essas criaturas se organizem em nove coros com nomes fixos, e que as rodas de Ezequiel correspondam a um deles, é teologia venerável e leitura possível, não dogma: a Igreja nunca definiu um catálogo de espécies angélicas. O mais prudente é dizer que os ofanins pertencem à linguagem visionária com que o profeta comunica uma realidade que excede toda imagem. O que a visão afirma com certeza não é a anatomia do céu, é o senhorio de Deus: um trono que vê tudo e chega a toda parte. Para o panorama completo das classes angélicas, veja a hierarquia dos anjos segundo a Bíblia.

«Biblically accurate angels»: o meme explicado

Nas redes sociais, popularizou-se a expressão inglesa «biblically accurate angels», «anjos biblicamente exatos»: imagens de anéis concêntricos de fogo cobertos de olhos, ou de seres com muitas asas e muitas faces, apresentadas como a verdadeira aparência dos anjos, muitas vezes com a legenda irônica «não temas». A figura dos anéis com olhos é, quase sempre, uma releitura das rodas de Ezequiel.

O meme acerta numa coisa: a Bíblia descreve alguns seres celestes de forma nada doméstica. Os serafins de Isaías têm seis asas (Is 6,2), os querubins de Ezequiel têm quatro faces e quatro asas (Ez 1,6), e os quatro viventes do Apocalipse estão «γέμοντα ὀφθαλμῶν ἔμπροσθεν καὶ ὄπισθεν», «cheios de olhos na frente e atrás» (Ap 4,6). Essas imagens lembram que o santo não é fofo nem inofensivo.

Mas o meme erra em três pontos. Primeiro, as rodas de Ezequiel não são chamadas de anjos no texto: são parte do trono, movidas pelo espírito dos viventes. Segundo, Ezequiel insiste que vê «a aparência da semelhança» da glória (Ez 1,28), e não uma fotografia: é linguagem simbólica. Terceiro, e mais importante, os anjos são criaturas puramente espirituais, sem corpo (CIC 330), e por isso não têm uma «aparência verdadeira» a ser revelada. Quando a Escritura os mostra agindo entre os homens, quase sempre aparecem com figura humana (cf. Gn 18,2, Tb 5,4, Lc 24,4). O «não temas» que o meme cita, «Μὴ φοβοῦ» (Lc 1,13.30), não é a reação a um monstro: é a palavra de Deus que acalma diante da santidade. Sobre o modo como a Escritura descreve os seres celestes, veja o artigo como são os anjos segundo a Bíblia, e para o quadro doutrinal completo a nossa página de angeologia.

As rodas de Ezequiel nos Padres da Igreja

«Roda dentro de roda»: Teodoreto e Jerônimo

A explicação dos dois aros cruzados, que o artigo apresenta acima, já está num comentário grego do século V. Teodoreto de Ciro escreve:

«τοῦτο δ᾿ ἄν τις κατιδεῖν δυνηθείη, δύο κύκλους τῷ λόγῳ παραλαβών, καὶ τὸν ἕτερον τῷ ἑτέρῳ σταυροειδῶς ἐνείρας· τὸ γὰρ τοιοῦτον σχῆμα, καὶ ἐπὶ τῆς αὐτῆς κείμενον ἕδρας, τὴν ἐπὶ τὰ τέσσαρα μέρη κίνησιν ἐπιδέχεται». «Isto poderia ser visto por quem tomasse em pensamento dois círculos e encaixasse um no outro em forma de cruz. Tal figura, mesmo apoiada sobre a mesma base, admite o movimento para as quatro direções» (Teodoreto de Ciro, In Ezechielem 1,15-18, PG 81, 829).

E acrescenta o sentido: essa figura, que vai a toda parte sem precisar se voltar, «τὴν πανταχοῦ τοῦ Θεοῦ παρουσίαν σημαίνει», «significa a presença de Deus em toda parte» (ibid.).

São Jerônimo, no comentário latino ao mesmo versículo, propõe duas leituras espirituais:

«Rota quoque in rota, vel duorum iunctura Testamentorum est, quod indicat scala Iacob, et forceps Isaiae, et gladius bis acutus: vel Evangelia sibi cohaerentia, quorum cursus et statura tendit ad caelum». «A roda dentro da roda é a junção dos dois Testamentos, como indicam a escada de Jacó, a tenaz de Isaías e a espada de dois gumes, ou então os Evangelhos ligados entre si, cujo curso e estatura tendem ao céu» (Jerônimo, In Ezechielem I, PL 25, 27-28).

Na carta a Paulino, Jerônimo aplica a imagem aos quatro evangelistas, que «quasi rota in rota volvuntur, et pergunt quocumque eos flatus Sancti Spiritus perduxerit», «giram como roda dentro de roda e vão aonde o sopro do Espírito Santo os levar» (Jerônimo, Epistula 53,8, PL 22, 547-548).

O nome das rodas nos Padres: «Gelgel»

Nos comentários que lemos, os Padres falam simplesmente de «rodas», τροχοί, rotae, e quando explicam o nome hebraico não usam a palavra «ofan», mas a que ouvem em Ez 10,13, transcrita em grego e em latim. Jerônimo explica:

«Rotae quoque ipsae appellatae sunt lingua Hebraica GELGEL, quod Symmachus volubiles, Aquila rotam interpretatus est». «As próprias rodas foram chamadas, em língua hebraica, GELGEL, que Símaco traduziu por “giratórias” e Áquila por “roda”» (Jerônimo, In Ezechielem III, PL 25, 93-94).

Teodoreto entende o chamado dirigido às rodas como uma ordem para girarem e se moverem: «Τουτέστιν, ἀνακυκλεῖσθαι καὶ ἀνακινεῖσθαι προσετάχθησαν», «isto é, foi-lhes ordenado girar e mover-se» (In Ezechielem 10, PG 81, 893). E o autor que escreve sob o nome de Dionísio Areopagita, cujo resumo o artigo apresenta acima, interpreta simbolicamente o nome assim:

«ἐπεκλήθη γὰρ αὐτοῖς, ὥς φησιν ὁ θεολόγος, Γελγέλ· ἐμφαίνει δὲ τοῦτο κατὰ Ἑβραΐδα φωνὴν ἀνακυλισμοὺς καὶ ἀνακαλύψεις». «Foram chamadas, como diz o teólogo, Gelgel, e isto indica, segundo a língua hebraica, rotações e revelações» (Pseudo-Dionísio, De coelesti hierarchia XV,9 na numeração do Migne, PG 3, 337-340).

As rotações, explica Dionísio, são o movimento perpétuo em torno do mesmo Bem, e as revelações são a comunicação, aos que estão abaixo, da luz recebida do alto.

O que o profeta viu: semelhanças, não naturezas

O artigo pergunta mais acima se os ofanins são anjos e se são os Tronos. Teodoreto não diz que as rodas são os Tronos. Lembra que Paulo enumera os Tronos entre as ordens invisíveis (Cl 1,16) e que «πνεῦμα ζωῆς ἦν ἐν τοῖς τροχοῖς», «o espírito de vida estava nas rodas» (Ez 1,20-21), e por isso o movimento delas era livre. E chama o conjunto da visão «τὸ θεῖον ὄχημα», «o veículo divino» (In Ezechielem 1,19-21, PG 81, 829). Mas dá também a regra de leitura que vale para toda a visão: o profeta viu

«οὐκ αὐτὰς […] τῶν ἀοράτων τὰς φύσεις, ἀλλ᾿ ὁμοιώματά τινα καὶ εἰκάσματα». «não as próprias naturezas dos seres invisíveis, mas certas semelhanças e imagens» (Teodoreto de Ciro, In Ezechielem 10, PG 81, 893).

É o mesmo critério que o artigo aplica quando distingue a visão simbólica da natureza espiritual dos anjos.

Orígenes: acima das rodas

Orígenes, numa homilia que chegou até nós na tradução latina de Jerônimo, dá às rodas outro sentido: elas são o curso do mundo, e o cristão, unido a Cristo, já não está debaixo delas.

«Non sub rota, neque sub saeculi ditione rebusque versamur, cum iam per passionem Christi simus a mundi negotiis liberati». «Já não vivemos debaixo da roda, nem sob o domínio do século e das suas coisas, pois pela paixão de Cristo fomos libertados dos negócios do mundo» (Orígenes, Homiliae in Ezechielem I,16, PG 13, 681-682).

Maria, o carro de Deus

A tradição cristã do Oriente aplicou a Maria a imagem do veículo divino. O hino Akathistos, o grande hino grego à Mãe de Deus, usa para ela a metáfora do ὄχημα, «veículo», daquele que está sobre os querubins. Não é uma citação de Ezequiel, mas é a mesma palavra que Teodoreto usa para o carro da visão:

«Χαῖρε, ὄχημα πανάγιον τοῦ ἐπὶ τῶν Χερουβίμ· χαῖρε, οἴκημα πανάριστον τοῦ ἐπὶ τῶν Σεραφίμ». «Salve, veículo santíssimo daquele que está sobre os querubins. Salve, morada excelentíssima daquele que está sobre os serafins» (Akathistos, PG 92, 1343-1344).

E um hino siríaco atribuído a Santo Efrém, conservado na tradução latina de Lamy, põe na boca da Virgem, que segura o Menino, as próprias rodas do carro:

«Obstupuit in me currus Ezechielis quum ductorem suum a me portatum contemplaretur […] digiti mei rotae sunt currus tui». «O carro de Ezequiel ficou atônito em mim, ao contemplar o seu condutor levado por mim […] os meus dedos são as rodas do teu carro» (Hinos sobre a Virgem atribuídos a Efrém, VII,5, Lamy II, 544-546).

No Akathistos, Maria é o veículo de Deus porque carrega o Verbo encarnado. No hino atribuído a Efrém, a ligação com o carro de Ezequiel é explícita, e a imagem chega a falar dos dedos da Mãe como rodas do carro.

O sentido espiritual das rodas de Ezequiel

Resta a lição espiritual, que os exilados de ontem e de hoje entendem depressa. As rodas cheias de olhos não são um monstro: são um evangelho antecipado. Dizem que nenhuma Babilônia é longe demais, que a glória de Deus viaja com os seus, e que o trono que os querubins carregam está sempre, misteriosamente, a caminho do lugar onde o seu povo chora.

Perguntas frequentes

O que são os ofanins?

Ofanins (do hebraico ofanim, «rodas») são as rodas que o profeta Ezequiel viu junto aos quatro seres viventes, os querubins, na visão do trono de Deus (Ez 1,15-21 e 10,9-13). São altas e temíveis, como uma roda dentro de outra roda, com os aros cheios de olhos, e se movem com os querubins porque «o espírito do vivente estava nas rodas» (Ez 1,20).

O que significa ofanim em hebraico?

Ofan (אוֹפַן) é a palavra hebraica comum para a roda de um carro, e ofanim (אוֹפַנִּים) é o plural. Em Ez 10,13 as rodas recebem também o nome de galgal, a roda que gira ou o turbilhão. Só a literatura judaica posterior à Bíblia transformou ofanim em nome de uma classe de seres celestes.

Os ofanins são anjos?

Em Ezequiel, as rodas não são chamadas de anjos: fazem parte do carro-trono e são movidas pelo espírito dos querubins. O apócrifo 1 Henoc e listas judaicas posteriores, como a de Maimônides, contam os ofanim entre os anjos. Na tradição cristã, parte dos autores aproximou-os do coro dos Tronos. A Igreja não definiu essa classificação: de fé é a existência dos anjos (CIC 328).

Ofanins e Tronos são o mesmo coro de anjos?

Não exatamente. O coro dos Tronos tem o seu nome tirado de Cl 1,16 (thrónoi), como explica São Tomás de Aquino (Suma teológica I, q. 108, a. 5). Nem ele nem o Pseudo-Dionísio identificam os Tronos com as rodas de Ezequiel. A aproximação é simbólica: em Ezequiel e em Daniel 7,9 as rodas pertencem ao trono de Deus, e os Tronos são os espíritos que acolhem Deus e o levam aos outros.

O que significa a roda cheia de olhos na Bíblia?

Os olhos ao redor dos aros (Ez 1,18) são linguagem visionária para a vigilância e o conhecimento a que nada escapa. Junto com a roda dentro da roda, que se move em todas as direções sem se virar (Ez 1,17), dizem que o trono de Deus vê tudo e chega a toda parte. Não é anatomia de uma criatura, é símbolo profético da onisciência e da liberdade soberana de Deus.

O que são os «biblically accurate angels»?

É um meme das redes sociais que mostra anéis de fogo cobertos de olhos ou seres de muitas asas como a aparência real dos anjos. A imagem dos anéis vem das rodas de Ezequiel. Mas no texto bíblico as rodas não são chamadas de anjos, a visão é simbólica («aparência da semelhança», Ez 1,28) e os anjos são espíritos puros, sem corpo (CIC 330), que na Escritura costumam aparecer com figura humana.

O que é a merkabá?

Merkabá é a palavra hebraica para «carro» ou «carruagem». A tradição judaica chamou de visão da merkabá o capítulo 1 de Ezequiel, lido como a visão do carro-trono de Deus, e desenvolveu a partir dele uma corrente mística. A leitura cristã é mais sóbria: a visão anuncia que a glória de Deus não está presa ao templo e acompanha o seu povo até no exílio.

As rodas de Ezequiel pertencem ao mesmo mundo celeste dos querubins e dos serafins. Quem quiser aprofundar o estudo dos anjos com rigor acadêmico pode conhecer a pós-graduação em Angeologia e Demonologia da Locus Mariologicus.

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