A escuta e o olhar de Maria: Lc 2,19, Caná e a cruz

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Maria est Virgo audiens, quae Dei verbum cum fide excepit.
«Maria é a Virgem que escuta, que acolheu com fé a palavra de Deus» (Paulo VI, Marialis cultus, n. 17)
Os Evangelhos falam pouco de Maria, mas o que dizem da sua relação com a palavra de Deus é muito. Lucas repete duas vezes que ela guardava no coração o que via e ouvia (Lc 2,19.51), e João a coloca junto da cruz (Jo 19,25). Escutar e olhar são as duas atitudes que a tradição da Igreja contemplou nela, e que a fazem modelo de todo fiel diante da palavra de Deus.
A escuta de Maria em Belém
Depois do nascimento de Jesus, os pastores vão a Belém, encontram Maria, José e o menino deitado na manjedoura, e contam o que o anjo lhes dissera. Todos se maravilham. E Lucas acrescenta: ἡ δὲ Μαριὰμ πάντα συνετήρει τὰ ῥήματα ταῦτα συμβάλλουσα ἐν τῇ καρδίᾳ αὐτῆς, «Maria, porém, guardava todas estas palavras, confrontando-as no seu coração» (Lc 2,19). Os pastores voltam, glorificando a Deus ἐπὶ πᾶσιν οἷς ἤκουσαν καὶ εἶδον, «por tudo o que tinham ouvido e visto» (Lc 2,20). O próprio texto une o ouvir e o ver.
A palavra ῥήματα designa ao mesmo tempo palavras e acontecimentos. O verbo συμβάλλω, de onde vem o particípio συμβάλλουσα, quer dizer literalmente «lançar junto», e daí a tradução «meditar». Mas Aristide Serra explica que l’accezione base di questo verbo è quella di “porre a confronto” due o più realtà, «o sentido de base deste verbo é o de “pôr em confronto” duas ou mais realidades», e que na literatura grega profana designa muitíssimas vezes l’attività della mente che, confrontando tra loro diversi aspetti di un evento, di una situazione, giunge a formulare un'”interpretazione ben definita”, «a atividade da mente que, confrontando diversos aspectos de um acontecimento, de uma situação, chega a formular uma “interpretação bem definida”» (SERRA, 1986, p. 260). Maria não se limita a recordar: confronta, interpreta, procura o sentido. A Vulgata traduziu conferens in corde suo (Lc 2,19). Quando o texto se repete, depois do episódio do Templo, Lucas diz só que ἡ μήτηρ αὐτοῦ διετήρει πάντα τὰ ῥήματα ἐν τῇ καρδίᾳ αὐτῆς, «sua mãe guardava cuidadosamente todas as palavras no seu coração» (Lc 2,51).
Um fragmento grego atribuído a Orígenes descreve bem este trabalho do coração: Maria οὐδὲν γὰρ ὡς ἔτυχεν ἢ λαλούμενον ἢ γινόμενον ἐδέχετο, ἀλλ’ εἶχε πάντα ἐν ἑαυτῇ, τὰ μὲν νοοῦσα, τὰ δὲ περιεργαζομένη, «nada recebia ao acaso do que se dizia ou acontecia, mas guardava tudo em si, compreendendo umas coisas e investigando outras», sabendo que viria o tempo em que se manifestaria o que nele estava escondido (ORÍGENES, 1962, p. 498-499).
A escuta na Anunciação
A mesma atitude aparece na Anunciação. Diante da saudação do anjo, Maria διεταράχθη καὶ διελογίζετο ποταπὸς εἴη ὁ ἀσπασμὸς οὗτος, «ficou perturbada e se perguntava o que significaria esta saudação» (Lc 1,29). E, quando ouve o anúncio, pergunta: πῶς ἔσται τοῦτο, ἐπεὶ ἄνδρα οὐ γινώσκω; «como será isto, se não conheço homem?» (Lc 1,34). Stefano De Fiores vê nesta pergunta o sinal de que Maria tem una coscienza critica e insieme pratica, «uma consciência crítica e ao mesmo tempo prática», e de que pede um suplemento de luz (DE FIORES, 2006, p. 1256). Só depois vem a resposta: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).
Santo Agostinho resumiu esta ordem numa fórmula célebre: Maria, fide plena, et Christum prius mente quam ventre concipiens, «cheia de fé, e concebendo Cristo primeiro no espírito, antes que no ventre», disse «eis a serva do Senhor» (AGOSTINHO, Sermo 215,4, PL 38, 1074). Paulo VI retomou a fórmula ao apresentar Maria como a Virgo audiens, a Virgem que escuta, e acrescentou que a Igreja faz o mesmo quando, sobretudo na liturgia, verbum Dei et audit et excipit, et proclamat et veneratur, «escuta e acolhe a palavra de Deus, a proclama e venera» (MC 17).
A escuta em Caná
Em Caná, quando falta o vinho, Maria diz ao Filho «não têm vinho» e, depois da resposta de Jesus, τί ἐμοὶ καὶ σοί, γύναι; οὔπω ἥκει ἡ ὥρα μου, «que há entre mim e ti, mulher? A minha hora ainda não chegou», se volta para os serventes: ὅ τι ἂν λέγῃ ὑμῖν ποιήσατε, «fazei o que ele vos disser» (Jo 2,4-5). O Concílio diz que ela interveio misericordia permota, «movida de misericórdia» (LG 58). João Paulo II diz que ela se apresenta aos homens uti voluntatis Filii interpretem, «como intérprete da vontade do Filho», aquela que indica o que é preciso fazer para que se manifeste o poder salvífico do Messias, e acrescenta: In Cana comparet Maria tamquam credens in Iesum, «em Caná, Maria aparece como quem crê em Jesus» (RM 21). Serra observa que é razoável pensar que Maria não compreendeu por inteiro a intenção do Filho, mas que, mesmo sem compreender, se abandona à sua vontade (SERRA, 2009, p. 291-292). A sua palavra aos serventes é o fruto da escuta: quem escuta a palavra de Jesus ensina os outros a fazê-la.
Bento XVI resumiu este traço na exortação Verbum Domini: Maria, Vergine in ascolto, «Virgem à escuta», serba nel suo cuore gli eventi del suo Figlio, componendoli come in un unico mosaico, «guarda no coração os acontecimentos do seu Filho, compondo-os como num único mosaico» (VD 27). E recordou, com palavras da sua encíclica Deus caritas est (n. 41), que o Magnificat é inteiramente tecido de fios da Escritura, e que assim se revela que Maria nella Parola di Dio è veramente a casa sua, «na palavra de Deus está verdadeiramente em casa» (VD 28).
O olhar diante da cruz
Lucas não menciona Maria junto da cruz. Diz que as multidões que tinham acorrido ἐπὶ τὴν θεωρίαν ταύτην, «a este espetáculo», voltavam batendo no peito, e que os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galileia estavam a distância, elas ὁρῶσαι ταῦτα, «vendo estas coisas» (Lc 23,48-49). A palavra θεωρία, que só aparece aqui em todo o Novo Testamento, significa «espetáculo», e a Vulgata traduziu spectaculum. Serra comenta que o evangelista deixa em suspenso o sentido desse «estar a olhar» dos conhecidos (SERRA, 2002, p. 61), e observa que Lucas non ricorda la presenza di Maria nel racconto della passione, «não recorda a presença de Maria no relato da paixão» (SERRA, 2002, p. 102).
É João quem a põe junto da cruz: Εἱστήκεισαν δὲ παρὰ τῷ σταυρῷ τοῦ Ἰησοῦ ἡ μήτηρ αὐτοῦ, «estavam junto da cruz de Jesus a sua mãe» (Jo 19,25). O verbo é «estar de pé», e quem vê, no versículo seguinte, é Jesus, que vê a mãe e o discípulo. Santo Ambrósio fixou esta sobriedade numa frase: stabat et sancta Maria juxta crucem Filii, et spectabat Virgo sui unigeniti passionem. Stantem illam lego, flentem non lego, «também a santa Maria estava junto da cruz do Filho, e a Virgem contemplava a paixão do seu Unigênito. Leio que estava de pé, não leio que chorava» (AMBRÓSIO, De obitu Valentiniani 39, PL 16, 1431). O Concílio diz que ela ali non sine divino consilio stetit, vehementer cum Unigenito suo condoluit et sacrificio Eius se materno animo sociavit, «não sem desígnio divino, esteve de pé, sofreu profundamente com o seu Unigênito e se associou com ânimo materno ao seu sacrifício» (LG 58). E João Paulo II diz que este momento é talvez altissima […] fidei «kenosis», «a mais profunda “kénosis” da fé» na história humana (RM 18).
Escutar e contemplar
A escuta de Maria e o seu olhar diante da cruz são as duas faces de uma mesma fé. Bento XVI, ao descrever a lectio divina, diz que ela termina na contemplação, durante la quale noi assumiamo come dono di Dio lo stesso suo sguardo nel giudicare la realtà, «durante a qual assumimos como dom de Deus o seu próprio olhar ao julgar a realidade», e que estes passos se encontram resumidos in modo sommo nella figura della Madre di Dio, «de modo supremo na figura da Mãe de Deus», que sapeva trovare il nodo profondo che unisce eventi, atti e cose, apparentemente disgiunti, nel grande disegno divino, «sabia encontrar o laço profundo que une acontecimentos, atos e coisas, aparentemente desligados, no grande desígnio divino» (VD 87). É a mesma escuta que confronta e interpreta, de Belém à cruz.
Referências
AGOSTINHO. Sermo 215. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologia Latina. t. 38. Paris: [s.n., s.d.]. col. 1073-1074.
AMBRÓSIO. De obitu Valentiniani consolatio. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologia Latina. t. 16. Paris: [s.n., s.d.]. col. 1431.
BENTO XVI. Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, 30 set. 2010. n. 27, 28, 87. [Texto italiano].
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DE FIORES, Stefano. Paradigma antropologico. In: DE FIORES, Stefano. Maria. Nuovissimo dizionario. v. 2. Bologna: EDB, 2006. p. 1256-1257.
JOÃO PAULO II. Litterae encyclicae Redemptoris Mater, n. 18, 21. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 79, p. 382-383, 387-389, 1987.
NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece. 28. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.
ORÍGENES. Homélies sur S. Luc: texte latin et fragments grecs. Paris: Éditions du Cerf, 1962. (Sources Chrétiennes, 87). p. 498-499.
PAULO VI. Adhortatio apostolica Marialis cultus, n. 17. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 66, p. 128-129, 1974.
SERRA, Aristide M. Bibbia. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 259-261.
SERRA, Aristide M. «E anche a te una spada trapasserà l’anima»: Luca 2,35a alla luce dell’antica tradizione giudaico-cristiana. Marianum, Roma, v. 64, p. 51-111, 2002.
SERRA, Aristide M. Le nozze di Cana (Gv 2,1-12): incidenze cristologico-mariane del primo «segno» di Gesù. Padova: Edizioni Messaggero, 2009. p. 291-292.
VULGATA. The Holy Bible, Vulgate Translation. [S.l.: s.n.], 2003. Edição eletrônica.
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