Ave maris stella: letra, tradução e significado do hino mariano
O Ave maris stella («Ave, estrela do mar») é um hino latino anônimo em honra da Virgem Maria, conhecido desde o século IX. Na Liturgia das Horas, é o hino das Vésperas do Comum de Nossa Senhora. Saúda Maria como estrela do mar, Mãe de Deus e porta do céu, e joga com as palavras Ave e Eva.
Abaixo está o texto latino completo das sete estrofes, com tradução portuguesa literal verso a verso, seguido da origem do hino, do seu lugar na liturgia, do sentido de cada estrofe, da história do título stella maris e das principais obras musicais que ele inspirou.
Ave maris stella: letra em latim e tradução
O texto segue a edição usada na Liturgia das Horas em latim (Liber hymnarius, Solesmes, 1983). A tradução é nossa e propositalmente literal, para que se veja o que cada verso latino diz. Não é uma versão para cantar.
| Texto latino (Liturgia Horarum) | Tradução literal (tradução nossa) |
|---|---|
| Ave, maris stella, Dei Mater alma, atque semper Virgo, felix caeli porta. | Ave, estrela do mar, Mãe de Deus que nos nutre, e sempre Virgem, feliz porta do céu. |
| Sumens illud «Ave» Gabrielis ore, funda nos in pace, mutans Evae nomen. | Recebendo aquele «Ave» da boca de Gabriel, firma-nos na paz, mudando o nome de Eva. |
| Solve vincla reis, profer lumen caecis, mala nostra pelle, bona cuncta posce. | Solta as correntes dos culpados, leva a luz aos cegos, afasta os nossos males, pede para nós todos os bens. |
| Monstra te esse matrem, sumat per te precem qui pro nobis natus tulit esse tuus. | Mostra que és mãe: receba por ti a nossa prece aquele que, nascido por nós, aceitou ser teu. |
| Virgo singularis, inter omnes mitis, nos culpis solutos mites fac et castos. | Virgem singular, mansa entre todas, a nós, livres das culpas, torna-nos mansos e castos. |
| Vitam praesta puram, iter para tutum, ut videntes Iesum semper collaetemur. | Concede-nos uma vida pura, prepara-nos um caminho seguro, para que, vendo Jesus, nos alegremos juntos para sempre. |
| Sit laus Deo Patri, summo Christo decus, Spiritui Sancto tribus honor unus. Amen. | Louvor a Deus Pai, glória ao Cristo altíssimo, e ao Espírito Santo: aos três uma só honra. Amém. |
Variantes de texto. Em edições antigas do Breviário Romano e em muitos livros de devoção, a quarta estrofe traz sumat per te preces («receba por ti as preces»), no plural, e a terceira, solve vincula reis. O nome de Eva aparece escrito Evae ou Hevae. O sentido não muda.
Sobre a palavra alma. Em latim, alma não é a alma (que seria anima), mas um adjetivo que significa «que nutre, que dá vida, bondosa». Dei Mater alma é, portanto, a Mãe de Deus que alimenta e acolhe, e não «alma Mãe de Deus».
O significado de cada estrofe
1. A saudação: quatro títulos de Maria
A primeira estrofe reúne quatro títulos: estrela do mar, Mãe de Deus, sempre Virgem e feliz porta do céu. Os dois do meio são verdades de fé (a maternidade divina, definida em Éfeso em 431, e a virgindade perpétua). Os dois das pontas são imagens: Maria orienta como a estrela orienta o navegante, e por ela entrou no mundo aquele que é a porta do céu.
2. «Mudando o nome de Eva»
A segunda estrofe evoca a Anunciação e pede a paz. O «Ave» que Gabriel dirige a Maria é, em latim, o nome de Eva lido ao contrário. O hino pede que essa saudação «mude o nome de Eva», isto é, que a história começada com a queda seja revertida pela Mãe do Redentor. O tema é desenvolvido mais abaixo.
3. Os pedidos: correntes, luz, males e bens
A terceira estrofe é feita de quatro imperativos: soltar as correntes dos culpados, dar luz aos cegos, afastar os males, pedir os bens. As duas primeiras imagens ecoam o programa messiânico que Jesus lê na sinagoga de Nazaré, a libertação dos cativos e a vista aos cegos (Lc 4,18, citando Is 61,1). Maria não toma o lugar do Filho: o último verbo, posce, «pede», mostra que ela intercede.
4. «Mostra que és mãe»
É o verso mais conhecido do hino. A súplica tem fundamento: aquele que nasceu por nós «aceitou ser teu» (tulit esse tuus), ou seja, quis ser verdadeiramente filho de Maria. Porque o Filho de Deus é seu filho, a prece apresentada por ela chega a ele. A intercessão de Maria nasce da sua maternidade divina.
5. Virgem singular e mansa
Maria é chamada singularis, única, e inter omnes mitis, a mais mansa de todas. O pedido que se segue é que nós, libertados das culpas, sejamos também mansos e castos. É o eco da bem-aventurança dos mansos (Mt 5,5) e da pureza de coração (Mt 5,8).
6. Um caminho seguro até Jesus
A sexta estrofe retoma a imagem da viagem: vida pura e caminho seguro, para que, vendo Jesus, nos alegremos juntos para sempre. O fim do caminho não é Maria, mas a visão de Cristo. O verbo collaetemur («alegremo-nos juntos») inclui a própria Maria nessa alegria.
7. A doxologia
Como todos os hinos do Ofício divino, o Ave maris stella termina dando glória ao Pai, a Cristo e ao Espírito Santo, «aos três uma só honra». A devoção mariana desemboca no louvor da Trindade.
Origem e autoria do Ave maris stella
O autor do Ave maris stella é desconhecido. O hino já se encontra em manuscritos do século IX, entre eles um códice da abadia de São Galo, na Suíça, em que foi acrescentado por mão um pouco posterior, num espaço deixado em branco. Por isso costuma ser datado entre os séculos VIII e IX.
Ao longo da história, foi atribuído a Venâncio Fortunato (século VI), a Paulo Diácono (século VIII), a Hermano Contracto (século XI) e a São Bernardo de Claraval (século XII). Nenhuma dessas atribuições se comprova, e as duas últimas são impossíveis, porque os manuscritos são mais antigos que esses autores.
O Papa Bento XVI abre a seção sobre Maria da encíclica Spe salvi justamente com este hino: «Com um hino do século VIII/IX, portanto com mais de mil anos, a Igreja saúda Maria, a Mãe de Deus, como “estrela do mar”: Ave maris stella» (Spe salvi, 49). E conclui a encíclica com a mesma imagem: «Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho!» (Spe salvi, 50).
Uso litúrgico: o hino das Vésperas de Nossa Senhora
No Breviário Romano, o Ave maris stella era cantado nas Vésperas do Ofício comum de Nossa Senhora, nas Vésperas de sábado dedicadas a ela e no Ofício parvo da Bem-aventurada Virgem Maria. Na Liturgia das Horas em latim, renovada depois do Concílio Vaticano II, continua a ser o hino das Vésperas do Comum de Nossa Senhora, usado nas solenidades, festas e memórias da Virgem.
O canto gregoriano conhece várias melodias para o hino: o Liber hymnarius traz uma para as solenidades, outra para as festas e outra para as memórias. Nas edições da Liturgia das Horas em português, o hino do Comum costuma aparecer em versão vernácula, mas o texto latino pode sempre ser cantado.
Fora da liturgia, o Ave maris stella tornou-se oração de quem viaja, sobretudo pelo mar, e de quem atravessa provações. É um dos hinos mais rezados junto com as quatro antífonas marianas e as orações marianas mais tradicionais.
Ave e Eva: Maria, a nova Eva
Segundo o Evangelho, o anjo saudou Maria com a palavra grega «Χαῖρε, κεχαριτωμένη, ὁ κύριος μετὰ σοῦ», «Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo» (Lc 1,28). A Vulgata latina traduziu: «Ave, gratia plena, Dominus tecum». O jogo de palavras do hino, portanto, só funciona em latim: AVE é EVA de trás para a frente.
Por trás do jogo há uma doutrina antiga, a de Maria como nova Eva. São Justino, por volta de 155, contrapõe Eva, que ainda virgem acolheu a palavra da serpente e gerou desobediência e morte, a Maria, que acolheu com fé e alegria a palavra do anjo (Diálogo com Trifão, 100). Santo Ireneu de Lião ensina que o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria (Contra as heresias III,22,4). Ao pedir a Maria que «mude o nome de Eva», o hino reza essa mesma teologia. Veja também Eva e Maria na tipologia mariológica.
Stella maris: por que Maria é a estrela do mar
O título stella maris está ligado às antigas explicações do nome de Maria. São Jerônimo, no seu livro sobre a interpretação dos nomes hebraicos (por volta de 390), propôs para o nome Miryam um sentido ligado ao mar. Muitos estudiosos pensam que ele escreveu stilla maris, «gota do mar», e que copistas posteriores leram stella maris, «estrela do mar». A questão é discutida, mas foi a leitura «estrela do mar» que se impôs.
Santo Isidoro de Sevilha, no século VII, já a registra com clareza: «Maria inluminatrix, sive stella maris. Genuit enim lumen mundi», «Maria: iluminadora, ou estrela do mar. Pois gerou a luz do mundo» (Etimologias VII,10,1). O hino recolhe essa tradição e lhe dá forma de oração.
No século XII, São Bernardo de Claraval desenvolveu a imagem numa página célebre da segunda homilia sobre o Missus est: quando se levantam os ventos das tentações e as ondas das tribulações, o cristão deve olhar para a estrela e invocar Maria. A história completa do título está no estudo Stella maris: Maria como estrela do mar na tradição cristã. Sobre a etimologia do nome, veja também o santo nome de Maria.
Ave maris stella na música
Poucos textos marianos inspiraram tantos compositores. A melodia gregoriana serviu de base a missas polifônicas da Renascença, como as de Josquin des Prez e Tomás Luis de Victoria, e o texto foi musicado, entre outros, por Guillaume Dufay, Palestrina e William Byrd.
- Claudio Monteverdi: o hino Ave maris stella é uma das peças das Vésperas da Bem-aventurada Virgem (Vespro della Beata Vergine, 1610), alternando coro e solistas.
- Marc-Antoine Charpentier: quatro composições sobre o hino (H. 60, 63, 65 e 67), no século XVII.
- Antonín Dvořák: Ave maris stella para voz e órgão (1879, B. 95a, op. 19b).
- Edvard Grieg: Ave maris stella para voz e piano (1893, EG 150).
- Franz Liszt e Edward Elgar também musicaram o texto no século XIX, e no século XX ele inspirou peças para órgão de Marcel Dupré, Flor Peeters e Jean Langlais.
Perguntas frequentes sobre o Ave maris stella
O que significa Ave maris stella?
Ave maris stella é latim e significa «Ave, estrela do mar». São as primeiras palavras de um hino medieval em honra da Virgem Maria, que a saúda como estrela que orienta os navegantes, Mãe de Deus, sempre Virgem e porta feliz do céu. O título estrela do mar é um dos mais antigos dados a Nossa Senhora no Ocidente.
Quantas estrofes tem o hino Ave maris stella?
O hino tem sete estrofes de quatro versos curtos, de seis sílabas. As seis primeiras falam a Maria: saudação, o «Ave» de Gabriel que inverte o nome de Eva, pedidos de libertação e de luz, súplica à Mãe, pedido de pureza e de um caminho seguro até Jesus. A sétima é a doxologia, o louvor à Santíssima Trindade.
Quem escreveu o Ave maris stella?
O autor é desconhecido. O hino já aparece em manuscritos ligados ao século IX, como um códice da abadia de São Galo, na Suíça, onde foi copiado por mão posterior. Foi atribuído a Venâncio Fortunato, a Paulo Diácono, a Hermano Contracto e a São Bernardo, mas nenhuma dessas atribuições se comprova, e as de Hermano e Bernardo são posteriores aos manuscritos.
Quando se reza o Ave maris stella?
Na Liturgia das Horas em latim, o Ave maris stella é o hino das Vésperas do Comum de Nossa Senhora, usado nas solenidades, festas e memórias da Virgem Maria. Também faz parte do Ofício de Nossa Senhora (Ofício parvo). Fora da liturgia, muitos fiéis o rezam como oração pessoal, sobretudo para pedir proteção em viagens.
Qual a relação entre Ave e Eva no hino?
A segunda estrofe pede a Maria que, recebendo o «Ave» de Gabriel, mude o nome de Eva. Em latim, Ave é Eva lida ao contrário. O jogo de palavras exprime uma doutrina antiga: Maria é a nova Eva. O que Eva desatou pela desobediência, Maria refez pela fé e pela obediência, como já ensinavam São Justino e Santo Ireneu no século II.
Por que Maria é chamada estrela do mar?
Santo Isidoro de Sevilha explica o nome de Maria como «iluminadora» ou «estrela do mar», porque ela gerou a luz do mundo (Etimologias VII,10,1). A imagem vem da navegação: como a estrela guia o navio no mar escuro, Maria orienta o cristão até Cristo. Bento XVI retomou o título na encíclica Spe salvi, n. 49.
Continue a leitura: a Ave-Maria e o seu significado, a Salve Rainha, o Magnificat, a Ladainha de Loreto e o guia o que é a mariologia.
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