Hegésipo e a família de Jesus: o que diz e o que não diz de Maria

podcast da Mariologia — primeiro episódio, ciência teológica

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Ἐν ἑκάστῃ δὲ διαδοχῇ καὶ ἐν ἑκάστῃ πόλει οὕτως ἔχει, ὡς ὁ νόμος κηρύττει καὶ οἱ προφῆται καὶ ὁ Κύριος.
«Em cada sucessão e em cada cidade é assim como a Lei proclama, e os profetas, e o Senhor» (Hegésipo, em Eusébio, História eclesiástica IV,22,3)

Hegésipo é um dos mais antigos escritores cristãos depois da era apostólica. Viveu no século II, viajou até Roma no tempo do papa Aniceto e escreveu, por volta de 180, cinco livros de Memórias (Hypomnémata) para mostrar que a doutrina recebida era a mesma em todas as Igrejas. A obra se perdeu, e só conhecemos os fragmentos que Eusébio de Cesareia conservou na sua História eclesiástica. Interessa à mariologia por uma razão precisa: é a testemunha cristã mais antiga, fora do Novo Testamento, sobre a família de Jesus. Mas convém dizer logo o que estes fragmentos não contêm. O Marienlexikon resume: Auf Maria kommt H. in den erhaltenen Fragmenten nirgends unmittelbar zu sprechen, «nos fragmentos conservados, Hegésipo nunca fala diretamente de Maria» (DURST, [1991], col. 91).

Quem foi Hegésipo

Eusébio diz que Hegésipo, ἐν πέντε δὴ οὖν συγγράμμασιν […] τὴν ἀπλανῆ παράδοσιν τοῦ ἀποστολικοῦ κηρύγματος ἁπλουστάτῃ συντάξει γραφῆς ὑπομνηματισάμενος, «consignou em cinco livros, num estilo muito simples, a tradição sem erro da pregação apostólica» (EUSÉBIO, História eclesiástica IV,8,2, PG 20, 321). A partir de algumas citações do Evangelho segundo os Hebreus e da língua hebraica, Eusébio conclui que ele era de origem judaica (IV,22,8), inferência que Philipp Vielhauer julga frágil (VIELHAUER, 1991, p. 802). O mesmo autor observa que a importância de Hegésipo no residió en el pensamiento teológico, sino en su acción de política eclesial contra los «herejes» y en favor de la «ortodoxia», «não residiu no pensamento teológico, mas na sua ação de política eclesial contra os hereges e a favor da ortodoxia» (VIELHAUER, 1991, p. 809).

O próprio Hegésipo conta a viagem: em Corinto encontrou a Igreja na reta doutrina, e em Roma, diz, διαδοχὴν ἐποιησάμην μέχρις Ἀνικήτου, «fiz a sucessão até Aniceto». E conclui: Ἐν ἑκάστῃ δὲ διαδοχῇ καὶ ἐν ἑκάστῃ πόλει οὕτως ἔχει, ὡς ὁ νόμος κηρύττει καὶ οἱ προφῆται καὶ ὁ Κύριος, «em cada sucessão e em cada cidade é assim como a Lei proclama, e os profetas, e o Senhor» (IV,22,3). O sentido exato de «fiz a sucessão», se compilou uma lista de bispos ou apenas verificou a continuidade, é discutido (QUASTEN, 1980, p. 254-255). Hegésipo está entre os primeiros a apelar à continuidade das Igrejas, antes de Santo Ireneu (FEINER e LÖHRER, [s.d.], p. 217).

O que diz da família de Jesus

Os fragmentos de Hegésipo nomeiam vários parentes de Jesus.

Tiago, «irmão do Senhor». Διαδέχεται δὲ τὴν Ἐκκλησίαν μετὰ τῶν ἀποστόλων ὁ ἀδελφὸς τοῦ Κυρίου Ἰάκωβος, ὁ ὀνομασθεὶς ὑπὸ πάντων Δίκαιος, «sucede na direção da Igreja, com os apóstolos, o irmão do Senhor, Tiago, chamado por todos o Justo». Hegésipo o descreve como santo desde o ventre de sua mãe, sem vinho nem carne, de joelhos calejados de tanto rezar pelo povo, e narra o seu martírio, morto a pedradas e a golpes de pau em Jerusalém (II,23,4-18, PG 20, 197-204). John P. Meier considera lendária boa parte desta descrição (MEIER, 2006, p. 320, n. 40).

Clopas e Simeão. Eusébio informa: Τὸν γὰρ οὖν Κλωπᾶν, ἀδελφὸν τοῦ Ἰωσὴφ ὑπάρχειν Ἡγήσιππος ἱστορεῖ, «Hegésipo conta que Clopas era irmão de José» (III,11, PG 20, 247-248). E o próprio Hegésipo, num fragmento literal, diz que depois do martírio de Tiago πάλιν ὁ ἐκ θείου αὐτοῦ Συμεὼν ὁ τοῦ Κλωπᾶ καθίσταται ἐπίσκοπος, ὃν προέθεντο πάντες ἀνεψιὸν ὄντα τοῦ Κυρίου δεύτερον, «foi de novo constituído bispo Simeão, filho de Clopas, o filho do tio dele, a quem todos escolheram, por ser primo do Senhor, como segundo» (IV,22,4, PG 20, 379-380). Simeão morreu crucificado sob Trajano, com cento e vinte anos, acusado de ser da linhagem de Davi e cristão (III,32,3-6).

Os netos de Judas. Hegésipo conta que, no tempo de Domiciano, ἔτι δὲ περιῆσαν οἱ ἀπὸ γένους τοῦ Κυρίου υἱωνοὶ Ἰούδα, τοῦ κατὰ σάρκα λεγομένου αὐτοῦ ἀδελφοῦ, «ainda viviam, da família do Senhor, os netos de Judas, chamado seu irmão segundo a carne». Denunciados como descendentes de Davi, foram levados ao imperador, mostraram as mãos calejadas de lavradores pobres e explicaram que o reino de Cristo não era deste mundo. Domiciano os libertou, e eles passaram a presidir às Igrejas como testemunhas e parentes do Senhor (III,20,1-6, PG 20, 252-253).

Irmãos ou primos?

O vocabulário de Hegésipo é preciso. Chama Tiago de ἀδελφός, «irmão», do Senhor, Judas de irmão «segundo a carne», e Simeão de ἀνεψιός, «primo». Meier conclui que Hegésipo è in grado di distinguere accuratamente tra il fratello, lo zio e il cugino, «é capaz de distinguir com precisão entre o irmão, o tio e o primo», e vê nele, com Tertuliano, uma testemunha antiga da leitura que tomava os «irmãos» por irmãos de sangue (MEIER, 2006, p. 321-323). Outros estudiosos, como Josef Blinzler, leem de outro modo o «segundo» de IV,22,4, como «segundo primo», isto é, Tiago também seria primo do Senhor. O Marienlexikon registra as duas leituras, observa que os fragmentos, tomados isoladamente, não permitem decidir a questão com certeza, e acrescenta que a interpretação de Tiago como meio-irmão, filho de José de um primeiro casamento, não se encontra em Hegésipo, e é posterior (DURST, [1991], col. 92). E conclui que Hegésipo kann kaum als Zeuge für oder gegen Marias virginitas post partum geltend gemacht werden, «dificilmente pode ser invocado como testemunha a favor ou contra a virgindade de Maria depois do parto», porque a questão ainda não estava no seu horizonte (DURST, [1991], col. 92).

O nome de Maria aparece uma vez perto de Hegésipo, mas não é dele. É Eusébio quem acrescenta, por conta própria, que por cálculo se poderia dizer que Simeão foi testemunha ocular do Senhor, pela longa vida que teve e porque o Evangelho menciona Μαρίας τῆς τοῦ Κλωπᾶ, «Maria, a de Clopas», sendo ele, como Eusébio já dissera, filho de Clopas (III,32,4, PG 20, 283-284). Para o ensino da Igreja sobre os «irmãos» de Jesus e a virgindade de Maria, veja o artigo sobre os irmãos de Jesus na Bíblia.

A «Igreja virgem» e as heresias

Hegésipo usa uma vez a imagem da virgindade, mas para a Igreja: até Simeão, ἐκάλουν τὴν Ἐκκλησίαν παρθένον, οὔπω γὰρ ἔφθαρτο ἀκοαῖς ματαίαις, «chamavam a Igreja de virgem, porque ainda não tinha sido corrompida por doutrinas vãs». Depois, um certo Tebutis, ressentido por não ter sido feito bispo, começou a corrompê-la a partir das sete seitas judaicas, de onde vieram, segundo Hegésipo, Simão, Menandro, os marcionitas, os carpocracianos, os valentinianos, os basilidianos e outros (IV,22,4-6, PG 20, 379-382). É o único fragmento em que Hegésipo nomeia os grupos gnósticos, e o faz traçando a sua origem, não discutindo as suas doutrinas. O Marienlexikon adverte que esta imagem da Igreja virgem, que mais tarde teve importância mariológica, steht jedoch in den H.-Fragmenten zu Maria in keiner Beziehung, «nos fragmentos de Hegésipo não tem relação nenhuma com Maria» (DURST, [1991], col. 92).

A defesa da maternidade real de Maria contra os que negavam a verdadeira carne de Cristo existe no século II, mas está em outros autores. Já Santo Inácio de Antioquia, contra os docetas, apresenta die Jungfrauschaft Marias und ihre Niederkunft, «a virgindade de Maria e o seu parto», como mistérios proclamados (ZIEGENAUS, [1991], col. 68, sobre Aos Efésios 19,1), e Tertuliano insiste em que a mãe e os irmãos de Jesus o eram de verdade, para provar contra Marcião a plena humanidade de Cristo (MEIER, 2006, p. 322).

O valor do testemunho

O que Hegésipo oferece à mariologia não é uma doutrina sobre Maria, mas uma janela sobre a Igreja de Jerusalém dos séculos I e II, guiada por parentes de Jesus: Tiago, Simeão, os netos de Judas. Mostra uma família de Nazaré que permaneceu ligada à comunidade dos fiéis, pobre, davídica e perseguida por isso. Dentro dessa família esteve Maria, de quem os fragmentos não falam, mas de quem os Atos dos Apóstolos dizem que perseverava em oração com os apóstolos e com os irmãos de Jesus (At 1,14).

Referências

DURST, M. Hegesipp. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS, [1991]. col. 91-93.

EUSÉBIO DE CESAREIA. Historia ecclesiastica. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologia Graeca. t. 20. Paris: [s.n., s.d.]. col. 195-204, 245-254, 281-286, 321-324, 377-384.

FEINER, Johannes e LÖHRER, Magnus (dir.). Mysterium Salutis. v. 4/3. Petrópolis: Vozes, [s.d.]. p. 217.

MEIER, John P. Un ebreo marginale: ripensare il Gesù storico. v. 1: Le radici del problema e della persona. 3. ed. Brescia: Queriniana, 2006. p. 320-323.

QUASTEN, Johannes. Patrologia. v. 1. Casale Monferrato: Marietti, 1980. p. 254-255.

VIELHAUER, Philipp. Historia de la literatura cristiana primitiva: introducción al Nuevo Testamento, los apócrifos y los padres apostólicos. Salamanca: Sígueme, 1991. p. 801-809.

ZIEGENAUS, Anton. Häresie. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS, [1991]. col. 67-69.

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