Ide por todo o mundo: At 1, Ef 1 e a Ascensão do Senhor em Mt 28

Ascensão do Senhor: Cristo elevado ao céu diante dos discípulos e de Maria

Ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem saeculi.
Mt 28,20

A Ascensão do Senhor encerra o tempo das aparições do Ressuscitado e abre o tempo da missão da Igreja no mundo. At 1,1-11 narra o final das aparições: Jesus apareceu por quarenta dias falando do Reino, ordenou que aguardassem o Espírito, e foi elevado numa nuvem diante dos discípulos. Ef 1,17-23 contempla a significação cósmica da Ascensão: Cristo foi colocado acima de todo o poder e principado, como cabeça da Igreja que é o seu corpo. Mt 28,16-20 narra o mandato missionário: toda a autoridade foi dada a Jesus, ide fazer discípulos de todas as nações, eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos. Os três textos descrevem o mesmo paradoxo: a partida visível de Jesus é o início de uma presença mais universal e permanente.

I. A primeira leitura: At 1,1-11

Lucas inicia os Actos da Ascensão do Senhor referindo o que narrou no Evangelho: Jesus apresentou-se vivo depois da Paixão, com muitas provas convincentes, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando do Reino de Deus. Ordena-lhes que não se afastem de Jerusalém e aguardem a promessa do Pai, o baptismo no Espírito Santo. Os apóstolos perguntam se é agora que vai restaurar o reino a Israel. Jesus responde: «Não vos compete conhecer os tempos e os momentos… mas recebereis a força do Espírito Santo que virá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra», (At 1,7-8). É então elevado e uma nuvem o arrebata. Dois homens de branco aparecem: «Homens da Galileia, por que estais aí olhando para o céu? Este Jesus que dentre vós foi assunto ao céu há-de vir do mesmo modo como o vistes partir para o céu», (v.11). A promessa de voltar enquadra toda a missão da Igreja: o tempo entre a Ascensão e a Parusia é o tempo da testemunha.

II. A segunda leitura: Ef 1,17-23

Paulo, contemplando a Ascensão do Senhor, pede que Deus dê ao leitor o espírito de sabedoria para iluminar «os olhos do vosso coração, a fim de conhecerdes qual é a esperança da sua chamada, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos» (Ef 1,17-18). O poder de Deus que ressuscitou Cristo é o mesmo que actua nos fiéis. Esse poder sentou Cristo «à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo o principado, potestade, virtude, dominação e acima de todo o nome que se possa citar» (vv. 20-21). «E pôs tudo sob seus pés e constituiu-o cabeça suprema da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que completa tudo em todos» (vv. 22-23). A Ascensão não é uma retirada de Cristo: é a sua exaltação ao ponto em que pode ser cabeça de um corpo universal, a Igreja, em todos os tempos e em todos os lugares.

III. O evangelho: Mt 28,16-20

Para Mateus, a Ascensão do Senhor coincide com o mandato missionário: os onze discípulos foram à Galileia, ao monte que Jesus lhes indicara. Quando o viram, prostram-se em adoração: «mas alguns duvidavam», (Mt 28,17). A honestidade de Mateus ao registar a dúvida no mesmo momento da adoração é reveladora: a fé pascal coexiste com a fragilidade humana. Jesus aproxima-se e fala: «Foi-me dado todo o poder no céu e na terra» (v. 18). A Ascensão não é uma limitação do poder de Cristo: é a sua universalização. «Ide pois, e fazei discípulos de todas as nações, baptizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar tudo o que vos prescrevi» (vv. 19-20). O mandato missionário é trinitário: a missão parte da autoridade do Filho, realiza-se no nome da Trindade, e é sustentada pela presença permanente: «Eis que eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos» (v. 20). O Jesus que parte não é o Jesus que abandona: é o Jesus que fica de um modo novo, universal e definitivo.

IV. Maria e a Ascensão do Senhor

At 1,14 informa que, após a Ascensão, os discípulos regressaram ao Cenáculo e «perseveravam unanimemente na oração juntamente com as mulheres e com Maria, a mãe de Jesus, e com os seus irmãos». Maria estava presente na Ascensão e estava no Cenáculo a aguardar o Espírito. Ela que acolhera o Espírito na Anunciação aguarda agora, com toda a Igreja nascente, o Espírito que virá sobre todos. Ef 1 contempla Cristo como cabeça da Igreja: Maria é o membro mais eminente dessa Igreja, a que mais plenamente recebeu a graça da cabeça. A tradição a chama «acima de todos os anjos e todos os santos», não por méritos próprios mas pela plenitude do que recebeu do Filho ressuscitado. Mt 28 termina com «eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos»: Maria, na Assunção, é a criatura que mais plenamente vive esta companhia permanente do Filho. Onde os discípulos ainda aguardam o fim dos tempos, Maria já está na presença do Filho ressuscitado, e intercede de lá por todos os que ainda percorrem o tempo entre a Ascensão e a Parusia.

A presença de Maria entre a Ascensão e o Pentecostes não é detalhe biográfico, mas chave teológica. Lucas, único evangelista a nomeá-la entre os que «perseveravam unanimemente na oração» (At 1,14), apresenta-a como vínculo vivo entre o tempo do Filho e o tempo da Igreja. A que concebera o Verbo pela acção do Espírito na Anunciação está agora no Cenáculo, no coração da comunidade que vai receber o mesmo Espírito para engendrar o Corpo de Cristo no mundo. Como recorda João Paulo II em Redemptoris Mater, há uma simetria pneumatológica entre Nazaré e o Cenáculo: o Espírito que desceu sobre Maria para formar a humanidade do Filho desce agora sobre a Igreja para formar o seu corpo místico, e Maria está em ambos os momentos como mãe e como discípula.

Ef 1 ilumina ainda mais profundamente o lugar de Maria. Se Cristo é a cabeça da Igreja, e se a Igreja é «a plenitude daquele que enche tudo em todos» (Ef 1,23), Maria é a primícia dessa plenitude. Nela a Igreja já alcançou aquilo para que toda a humanidade caminha: a comunhão plena com o Senhor glorificado. A Assunção é o prolongamento mariano da Ascensão do Senhor: como o Filho foi elevado em corpo e alma à direita do Pai, assim a Mãe foi elevada em corpo e alma para junto do Filho. A Ascensão abre o caminho; a Assunção mostra que esse caminho chega ao seu termo numa criatura humana, primeiro membro redimido na sua totalidade.

Mt 28 confirma esta leitura mariana. A promessa «eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos» realiza-se de modo singular naquela que já vive na presença sem véu do Filho. A maternidade de Maria, recebida ao pé da cruz («eis a tua mãe», Jo 19,27), estende-se agora a toda a Igreja em missão: ela acompanha os discípulos enviados a todas as nações, intercedendo do céu para que o mandato missionário não fique sem fruto. A mariologia da Ascensão do Senhor é, por isso, indissociável de uma eclesiologia missionária: onde a Igreja vai, Maria precede pela intercessão, e onde a Igreja chega, Maria já espera como ícone do que a Igreja há-de ser.

V. Conclusão: a Ascensão do Senhor como mistério missionário e mariano

Os três textos litúrgicos da solenidade da Ascensão do Senhor convergem num único movimento teológico: aquilo que parece partida é, na verdade, instauração de uma presença nova. At 1 narra o gesto histórico: Jesus é elevado e a nuvem o subtrai aos olhos dos discípulos, mas os dois homens vestidos de branco redirigem o olhar do céu para a terra, da contemplação para a missão. Ef 1 oferece a chave cósmica: o que aconteceu em Jesus interessa a tudo o que existe, porque Ele foi constituído cabeça sobre todas as coisas em vista da Igreja. Mt 28 traduz o evento em mandato: a autoridade universal do Ressuscitado torna-se, na Igreja, missão universal, sustentada pela promessa de uma presença que não conhece fim.

A Ascensão é, portanto, simultaneamente um adeus e um envio, uma ausência e uma presença, um fim e um princípio. É fim das aparições e princípio da fé que crê sem ver; é ausência do corpo visível e presença no sacramento, na Palavra e no Espírito; é adeus aos discípulos da Galileia e envio aos discípulos de todas as nações. O Ecce ego vobiscum sum de Mt 28,20 não é consolação para o luto da partida: é a fórmula da nova história, em que o Senhor está mais perto da Igreja por estar à direita do Pai do que estaria se permanecesse num único lugar da Galileia.

Neste mistério, Maria é a figura que une todos os fios. Está presente na Ascensão como mãe; está no Cenáculo como discípula; vive na Assunção como primícia da Igreja glorificada; intercede como mãe da Igreja peregrina. Contemplá-la na Ascensão do Senhor é contemplar o destino prometido a todos os baptizados: ir, anunciar, baptizar, ensinar, e, no fim, ser elevado para junto do Senhor que prometeu estar connosco todos os dias até à consumação dos séculos. Ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem saeculi: nesta promessa cabe a história inteira da Igreja, e cabe, antes de todos, a Mãe que primeiro a acolheu e primeiro a viveu em plenitude.

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