Irineu de Lião e Maria: a antítese Eva-Maria na teologia do século II

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Quod enim alligavit virgo Eva per incredulitatem, hoc virgo Maria solvit per fidem.
«O que a virgem Eva atou pela incredulidade, isso a virgem Maria desatou pela fé» (Santo Ireneu, Adversus haereses III,22,4)
Santo Ireneu, bispo de Lião, é quem dá estatuto teológico ao paralelo entre Eva e Maria, dentro de uma visão de conjunto da história da salvação (LAURENTIN, 1986, p. 1019). Antes dele, São Justino tinha posto lado a lado Eva e Maria. Ireneu retoma o paralelo e dá-lhe lugar num raciocínio sobre a carne de Cristo e sobre a obra de Deus desde Adão. Os seus textos marianos são poucos, mas o Concílio Vaticano II cita-os literalmente.
Quem foi Ireneu
Ireneu nasceu na Ásia Menor, provavelmente em Esmirna, onde conheceu o bispo Policarpo, e morreu por volta de 202, já bispo de Lião, na Gália (CLARK, 1999, p. 587). A sua obra maior, conhecida como Adversus haereses, «Contra as heresias», foi escrita em grego, mas o texto grego não se conservou. Chegou-nos inteira numa tradução latina muito antiga e, em parte, numa versão armênia, além de fragmentos gregos citados por outros autores. Por isso as passagens marianas que se seguem são lidas, quase todas, em latim. A outra obra, a Demonstração da pregação apostólica (Epideixis), só existe em armênio (CLARK, 1999, p. 588).
Contra quem escreve
Ireneu escreve contra os gnósticos valentinianos, que diziam que Cristo nada recebeu de Maria. Ele próprio resume a tese deles: Errant igitur qui dicunt eum nihil ex Virgine accepisse, «erram, pois, os que dizem que Ele nada recebeu da Virgem» (Adv. haer. III,22,1, ÁLVAREZ CAMPOS, 1970, n. 82, p. 47). Maria entra, portanto, na discussão sobre a verdade da carne de Cristo. Ireneu responde: Si enim non accepit ab homine substantiam carnis, neque homo factus est, «se não recebeu de um ser humano a substância da carne, também não se fez homem» (Adv. haer. III,22,1, ÁLVAREZ CAMPOS, 1970, n. 83, p. 47). A maternidade real de Maria garante que o Filho de Deus é verdadeiramente um de nós.
Adão recapitulado em Cristo
A chave do pensamento de Ireneu é a recapitulação, em grego anakephalaiosis, tirada de Ef 1,10: Cristo retoma em si toda a história de Adão para a refazer desde o princípio. Daí o argumento: o inimigo venceu o homem por meio de uma mulher, e deve ser vencido por um homem nascido de uma mulher. Neque enim iuste victus fuisset inimicus, nisi ex muliere homo esset qui vicit eum, «o inimigo não teria sido vencido com justiça se não fosse um homem nascido de mulher aquele que o venceu» (Adv. haer. V,21,1, ÁLVAREZ CAMPOS, 1970, n. 92, p. 50-51). Por trás está Gl 4,4, o Filho «nascido de mulher».
O nó desatado
O texto central está no livro III. Ireneu começa pela resposta de Maria ao anjo: Consequenter autem et Maria virgo obaudiens invenitur dicens: «Ecce ancilla tua, Domine, fiat mihi secundum verbum tuum». Eva vero inobaudiens, «em consequência, também Maria virgem se mostra obediente ao dizer: “Eis a tua serva, Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Eva, pelo contrário, desobedeceu». E continua: assim como Eva, ainda virgem, inobaudiens facta et sibi et universo generi humano causa facta est mortis, «tornando-se desobediente, se fez causa de morte para si e para todo o gênero humano», assim Maria, obaudiens et sibi et universo generi humano causa facta est salutis, «obedecendo, se fez causa de salvação para si e para todo o gênero humano» (Adv. haer. III,22,4, ÁLVAREZ CAMPOS, 1970, n. 85, p. 48).
Segue-se a imagem do nó: Sic autem et Evae inobaudientiae nodus solutionem accepit per obaudientiam Mariae. Quod enim alligavit virgo Eva per incredulitatem, hoc virgo Maria solvit per fidem, «assim também o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. O que a virgem Eva atou pela incredulidade, isso a virgem Maria desatou pela fé» (ÁLVAREZ CAMPOS, 1970, n. 85, p. 48-49). Um nó só se desata percorrendo as voltas ao contrário. Ireneu chama esse movimento de recirculatio, o «retorno circular» de Maria a Eva (PG 7, 959-960). O Corpus Marianum Patristicum imprime outra lição, recircumlatio (ÁLVAREZ CAMPOS, 1970, n. 85, p. 48).
René Laurentin resume o sentido: La «recapitulatio» (tema paolino) diventa «recirculatio», «a “recapitulação” (tema paulino) torna-se “recirculação”», e nesse conjunto Maria, que evoca Eva, occupa un posto di primo piano, «ocupa um lugar de primeiro plano» (LAURENTIN, 1986, p. 1019). Os intérpretes não estão de acordo sobre a relação entre os dois termos. Elio Peretto entende que a obra de Maria se chama recirculação e a de Cristo recapitulação. Antonio Orbe pensa que a recapitulação é mais ampla, inclui a recirculação, e que ambas se aplicam a Cristo e a Maria (DE FIORES, 2006, p. 1620, 1684, nota 30).
A advogada de Eva
No livro V, Ireneu volta ao paralelo: Et si ea inobedierat Deo, sed haec suasa est obedire Deo, uti virginis Evae Virgo Maria fieret advocata, «e se aquela desobedeceu a Deus, esta foi persuadida a obedecer a Deus, para que a Virgem Maria se tornasse advogada da virgem Eva» (Adv. haer. V,19,1, PG 7, 1175 B). E conclui: quemadmodum astrictum est morti genus humanum per Virginem, salvatur per Virginem, «assim como o gênero humano foi atado à morte por uma virgem, é salvo por uma Virgem».
A Epideixis diz o mesmo, na tradução latina do armênio: et Eva restauraretur in Maria. Ut virgo se reddens advocatam virginis destrueret deleretque inobedientiam virginis per obedientiam virginis, «e Eva fosse restaurada em Maria, para que uma virgem, fazendo-se advogada de uma virgem, destruísse e apagasse a desobediência de uma virgem pela obediência de uma virgem» (Epideixis 33, ÁLVAREZ CAMPOS, 1970, n. 95, p. 52). Maria é advogada de Eva, quer dizer, toma a sua causa e repara o que ela perdeu.
O seio puro
Ireneu fala também da concepção virginal como sinal da novidade de Cristo. Os profetas que anunciavam o Emanuel nascido da Virgem mostravam que Verbum caro erit, et Filius Dei filius hominis, purus pure puram aperiens vulvam, eam quae regenerat homines in Deum, quam ipse puram fecit, «o Verbo seria carne e o Filho de Deus filho do homem, o puro abrindo puramente o seio puro que regenera os homens em Deus, e que Ele próprio tornou puro» (Adv. haer. IV,33,11, PG 7, 1080 B).
O que a Igreja recebeu
O Concílio Vaticano II, ao falar da cooperação de Maria, cita Ireneu duas vezes. Primeiro a frase sobre a causa de salvação: Ipsa enim, ut ait S. Irenaeus, «oboediens et sibi et universo generi humano causa facta est salutis», «ela, como diz Santo Ireneu, “obedecendo, se fez causa de salvação para si e para todo o gênero humano”». Depois o nó: não poucos Padres antigos afirmam com ele Hevae inoboedientiae nodum solutionem accepisse per oboedientiam Mariae, «que o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria» (LG 56, AAS 57, 1965, p. 60). O mesmo número abre com uma fórmula que resume a ideia: ut sic, quemadmodum femina contulit ad mortem, ita etiam femina conferret ad vitam, «para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também uma mulher contribuísse para a vida». João Paulo II retoma a citação de Ireneu na Redemptoris Mater (RM 19, AAS 79, 1987, p. 383), e o Catecismo, no n. 494.
O paralelo entre Eva e Maria vem de Justino e continua em Tertuliano, Epifânio e Jerônimo. Essa história está em Maria, a nova Eva.
Referências
ÁLVAREZ CAMPOS, Sergio (org.). Corpus Marianum Patristicum. Burgos: Ediciones Aldecoa, 1970. v. 1.
CATECHISMO DELLA CHIESA CATTOLICA. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1992.
CLARK, Mary T. Irenaeus. In: FERGUSON, Everett (ed.). Encyclopedia of Early Christianity. 2. ed. New York: Routledge, 1999. p. 587-589.
CONCÍLIO VATICANO II. Constitutio dogmatica de Ecclesia Lumen gentium, 21 nov. 1964. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 57, p. 5-71, 1965.
DE FIORES, Stefano. Maria: nuovissimo dizionario. Bologna: EDB, 2006. v. 2.
IRENEU DE LIÃO. Contra haereses libri quinque. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologiae cursus completus: series Graeca. t. 7. Paris: Migne, 1857.
JOÃO PAULO II. Litterae encyclicae Redemptoris Mater, 25 mar. 1987. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 79, p. 361-433, 1987.
LAURENTIN, René. Nuova Eva: I. Il cammino storico del parallelismo Eva-Maria. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 1017-1021.
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