O influxo salutar de Maria e a mediação de Cristo (LG 60)

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Unus enim Deus, unus et Mediator Dei et hominum, homo Christus Iesus, qui dedit redemptionem semetipsum pro omnibus.
«Há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se deu a si mesmo em resgate por todos» (1Tm 2,5-6, citado em LG 60)
O n. 60 da Lumen gentium é o parágrafo em que o Concílio Vaticano II explica como a ação de Maria a favor dos homens se relaciona com a mediação única de Cristo. É um texto curto, sem notas de rodapé, que assenta numa só passagem da Escritura (CONCÍLIO VATICANO II, 1965, p. 62).
O texto
Unicus est Mediator noster secundum verba Apostoli: «Unus enim Deus, unus et Mediator Dei et hominum, homo Christus Iesus, qui dedit redemptionem semetipsum pro omnibus» (1 Tim. 2, 5-6). Mariae autem maternum munus erga homines hanc Christi unicam mediationem nullo modo obscurat nec minuit, sed virtutem eius ostendit. Omnis enim salutaris Beatae Virginis influxus in homines non ex aliqua rei necessitate, sed ex beneplacito divino exoritur et ex superabundantia meritorum Christi profluit, Eius mediationi innititur, ab illa omnino dependet, ex eademque totam virtutem haurit, unionem autem immediatam credentium cum Christo nullo modo impedit sed fovet.
«Um só é o nosso Mediador, segundo as palavras do Apóstolo: “Há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se deu a si mesmo em resgate por todos” (1Tm 2,5-6). Mas a função materna de Maria para com os homens de modo algum obscurece nem diminui esta mediação única de Cristo, antes mostra a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salutar da bem-aventurada Virgem sobre os homens não nasce de alguma necessidade das coisas, mas do beneplácito divino, e brota da superabundância dos méritos de Cristo, apoia-se na mediação dele, dela depende inteiramente e dela tira toda a sua eficácia, e de modo algum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece» (LG 60, CONCÍLIO VATICANO II, 1965, p. 62).
O homem Cristo Jesus
O parágrafo começa por Cristo. O versículo citado diz que o mediador é ἄνθρωπος Χριστὸς Ἰησοῦς, «o homem Cristo Jesus» (1Tm 2,5, BÍBLIA, 2012, p. 636), e o latim citado pelo Concílio diz homo Christus Iesus. O mediador entre Deus e os homens é o Filho feito homem, que se deu em resgate por todos. Tudo o que o Concílio vai dizer de Maria depende desta afirmação inicial.
Seis razões numa frase
O comentário organizado por Ermanno Toniolo desdobra a segunda parte do parágrafo em seis afirmações sobre o influxo de Maria (TONIOLO, [s.d.], p. 84-85):
1. não nasce de uma necessidade, mas do beneplácito de Deus, 2. brota da superabundância dos méritos de Cristo, 3. apoia-se na mediação de Cristo, 4. depende dela inteiramente, 5. dela tira toda a sua eficácia, 6. não impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece.
Toniolo observa que esta última frase foi escrita para prevenir sobretudo as objeções dos irmãos separados da Reforma (TONIOLO, [s.d.], p. 85). René Laurentin, comentando o texto em 1965, diz que nele o que Maria faz não se opõe ao que Cristo faz nem o limita, porque tudo o que Maria faz foi Cristo quem lhe deu, por graça, fazê-lo (LAURENTIN, 1965, p. 126).
Por que «influxo» e não «mediação»
O Concílio não chama de «mediação» a ação de Maria neste parágrafo. Fala de munus maternum, «função materna», e de influxus salutaris, «influxo salutar». Toniolo nota que, por amor à brevidade, o texto conciliar deixou de tratar das mediações subordinadas e que o n. 60 nunca fala de «mediação» quando se refere às criaturas, incluindo a Virgem, embora as palavras de São Paulo não excluam uma mediação subordinada e secundária (TONIOLO, [s.d.], p. 83-84). Salvatore Meo, no Nuovo dizionario di mariologia, sublinha que o Concílio evitou de propósito pronunciar-se sobre a necessidade, física ou moral, da função materna de Maria quanto à intercessão e à distribuição de todas as graças, para não criar equívocos sobre a mediação única de Cristo nem dar aval a posições ainda em discussão, e que nenhum influxo salvífico dela é absolutamente necessário ou exigido pela natureza das coisas (MEO, 1986, p. 924).
Dois números depois, o Concílio diz que a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de Advocata, Auxiliatrix, Adiutrix e Mediatrix, e explica que isto se entende ut dignitati et efficacitati Christi unius Mediatoris nihil deroget, nihil superaddat, «de modo que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia de Cristo, único Mediador». E acrescenta que a mediação única do Redentor non excludit, sed suscitat variam apud creaturas participatam ex unico fonte cooperationem, «não exclui, antes suscita nas criaturas uma cooperação variada, participada da única fonte», e que a Igreja não hesita em professar esta função subordinada de Maria (LG 62, CONCÍLIO VATICANO II, 1965, p. 63). Laurentin comenta que seria abusivo proscrever o título de Medianeira ou dar a impressão de eliminá-lo, porque ele está atestado na Tradição desde o fim da época patrística (LAURENTIN, 1965, p. 127).
A mediação materna
Em 1987, João Paulo II retomou LG 60 na Redemptoris Mater e, logo após a citação, acrescentou quatro palavras: est mediatio in Christo, «é mediação em Cristo» (JOÃO PAULO II, 1987, n. 38, p. 411). Chamou de «mediação materna» a função de Maria, uma cooperação indole quidem «subordinata» praedita, «de índole “subordinada”», que participa da universalidade da mediação do único Redentor (JOÃO PAULO II, 1987, n. 40, p. 415). O resumo da comunicação de Toniolo publicado na revista Theotokos registra a diferença: o Concílio tratou não da mediação, mas da cooperação ou influxo salvífico de Maria, e João Paulo II não hesitou em retomar o termo «mediação», qualificando esse influxo como «mediação materna» (TONIOLO, 1993, p. 236).
O Catecismo da Igreja Católica reproduz LG 60 no n. 970 (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, [s.d.], n. 970). A doutrina sobre Maria medianeira está desenvolvida em Maria, medianeira de todas as graças.
Referências
BÍBLIA. Grego. Novum Testamentum Graece. Nestle-Aland. 28. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. [S.l.: s.n., s.d.].
CONCÍLIO VATICANO II. Constitutio dogmatica de Ecclesia Lumen gentium, 21 nov. 1964. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 57, p. 5-71, 1965.
JOÃO PAULO II. Litterae encyclicae Redemptoris Mater, 25 mar. 1987. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 79, p. 361-433, 1987.
LAURENTIN, René. La Vierge au Concile: présentation, texte et traduction du chapitre VIII de la Constitution dogmatique Lumen Gentium consacré à la Bienheureuse Vierge Marie, mère de Dieu dans le Mystère de l’Église. Paris: P. Lethielleux, 1965.
MEO, Salvatore. Mediatrice. In: DE FIORES, Stefano, MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 920-935.
TONIOLO, Ermanno M. (org.). Commento al capitolo VIII della costituzione dogmatica «Lumen gentium» del Concilio Vaticano II: la Beata Maria, la Vergine Madre di Dio, nel mistero di Cristo e della Chiesa. Presentazione e analisi. [Roma: Pontificia Facoltà Teologica Marianum, s.d.]. Apostila.
TONIOLO, Ermanno M. La cooperazione della B.V. all’opera della salvezza nel magistero conciliare e pontificio (1962-92). Theotokos: ricerche interdisciplinari di mariologia, Roma, v. 1, n. 2, p. 236, 1993. Resumo da comunicação na seção «Notizie».
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