Peregrinações e o Cultor de Mariologia

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A peregrinação

O peregrino precisa do santuário e o santuário precisa do peregrino.

A peregrinação lembra-nos que na terra não temos uma morada permanente, mas estamos a caminho da cidade celeste (cf. Hb 13,14);

expressa o desejo de visitar um lugar onde ocorreu um evento da história da salvação, ou onde Deus ou a Virgem se manifestaram, ou onde um homem santo deu um testemunho heróico de vida ou onde estão guardados os seus restos mortais. 

A peregrinação mostra um propósito de desapego das coisas temporais, mesmo que esse desapego materialmente ocorra por pouco tempo; pelas inevitáveis ​​privações e renúncias que acarreta, manifesta a necessidade de penitência e expiação.

A peregrinação dá lugar a testemunhar a disponibilidade ao dom de si no serviço humilde e oculto aos irmãos necessitados ou doentes. 

A peregrinação afirma a pertença de todos os peregrinos, de qualquer nação ou classe social, à única família de Deus. São os valores autênticos que a peregrinação expressa, ainda que por vezes obscurecidos pela presença de elementos turísticos ou comerciais.

A peregrinação é uma manifestação cultural intimamente ligada à vida do santuário. Nas suas formas mais autênticas constitui uma elevada expressão de piedade: pelas razões que lhe estão na origem; pela espiritualidade que o anima; pela oração que marca os momentos fundamentais: a partida, a viagem, a chegada, o regresso.

Da peregrinação hebraica à peregrinação de Maria

Jerusalém, que se tornou sede do Templo e da Arca, tornou-se cidade-santuário dos hebreus, destino por excelência da desejada santa viagem (Sl 84,6), na qual o peregrino avança no meio de cânticos de alegria de uma multidão em festa (Sl 42,5) à casa de Deus, para comparecer na sua presença (cf. Sl 84,6-8).

Três vezes por ano os homens de Israel deviam apresentar-se ao Senhor (cf. Êx 23,17), ou seja, ir ao Templo de Jerusalém: isso deu origem a três peregrinações por ocasião das festas dos Pães Ázimos (Páscoa), das Semanas (Pentecostes) e das Tendas; e todas as famílias israelitas piedosas iam, como a família de Jesus (cf. Lc 2,41), à cidade santa para a celebração anual da Páscoa. 

Durante a sua vida pública, também Jesus costuma ir como peregrino a Jerusalém (cf. Jo 11,55-56); sabe-se também que o evangelista Lucas apresenta a ação salvífica de Jesus como uma peregrinação misteriosa (cf. Lc 9,51-19,45), cujo destino intencional é Jerusalém, cidade messiânica, lugar do seu sacrifício pascal e do seu êxodo para o Pai: Eu vim do Pai e vim ao mundo; agora deixo o mundo de novo e vou para o Pai (Jo 16,28).

E precisamente durante uma reunião de peregrinos a Jerusalém, dos hebreus observantes de todas as nações debaixo do céu (At 2,5), para celebrar o Pentecostes, a Igreja inicia o seu caminho missionário.

Não é difícil, considerando a vida e a missão da Virgem, entender a mariologia da espiritualidade da peregrinação. Fiel à tradição do seu povo, Maria de Nazaré foi uma piedosa peregrina: 

  • Os pais de Jesus foram todos os anos em Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando ele tinha doze anos, eles subiram de novo conforme o costume (Lc 2,41-42); 
  • Maria foi novamente peregrina a Jerusalém com o seu Filho, quando Ele, o verdadeiro Cordeiro de Deus (cf. Jo 1,36), instituiu, oferecendo o sacrifício da sua vida, a nova e definitiva Páscoa, memorial da nossa libertação do pecado e do seu êxodo deste mundo para o Pai (cf. Jo 13,1);
  • A vida interior de Maria foi uma peregrinação na fé.

O magistério e a liturgia, considerando a vida terrena como uma peregrinação, várias vezes configuram a intercessão da Virgem em favor de seus filhos como assistência aos peregrinos a caminho do santuário celeste.

Portanto, a mariologia de uma peregrinação se dá não só pelo fato de ser dirigida a um santuário dedicado à Virgem, mas também e sobretudo pela atitude com que é realizada:

  1. fidelidade à tradição, 
  2. motivação da fé, 
  3. orientação em direção à Páscoa.

O sucesso de uma peregrinação como manifestação de culto, e os frutos espirituais que dela se esperam, são assegurados pelo desenvolvimento ordenado das celebrações e pela adequada valorização das suas várias fases, nos moldes que a tradição nos indica. Assim, por exemplo:

  1. A saída da peregrinação será oportunamente caracterizada por um momento de oração, realizado na igreja paroquial ou em outra mais conveniente, consistindo na celebração da Eucaristia ou parte da Liturgia das Horas ou numa bênção especial dos peregrinos;
  1. A última parte do caminho será animado por uma oração mais intensa; é aconselhável que esse último trecho, quando o santuário já está à vista, seja percorrido a pé, em procissão, rezando, cantando, parando nas bancas que possam surgir pelo caminho;
  1. o acolhimento dos peregrinos pode dar origem a uma espécie de liturgia do acolhimento, que coloca o encontro entre os peregrinos e os guardiães do santuário a um nível primorosamente baseado na fé; sempre que possível, este se deslocará ao encontro dos peregrinos, para fazer com eles a última parte do caminho e aí entra o Cultor de Mariologia;
  2. A permanência no santuário deve ser obviamente o momento mais intenso da peregrinação e será caracterizada pelo compromisso de conversão, devidamente ratificado pelo sacramento da reconciliação; por expressões particulares de oração, como ação de graças, súplica ou pedido de intercessão, em relação às características do santuário e aos propósitos da peregrinação; e pela celebração da Eucaristia, cume da peregrinação.
  3. A conclusão da peregrinação será convenientemente caracterizada por um momento de oração, no mesmo santuário ou na igreja de onde partiu; os fiéis agradecerão a Deus o dom da peregrinação e pedirão ao Senhor a ajuda de que necessitam para viver a vocação cristã com um empenho mais generoso, quando regressarem às suas casas.

Assim como o santuário é um lugar de oração, a peregrinação é um caminho de oração. Em cada uma de suas etapas, a oração deve animar a peregrinação e a Palavra de Deus deve ser sua luz e guia, alimento e sustento. 

Desde os tempos antigos, o peregrino quer trazer consigo memórias do santuário visitado. Cuidar-se-á para que objetos, imagens, livros transmitam o autêntico espírito do lugar santo. Neste ponto a produção sobretudo de livros referentes à mariologia do santuário e da peregrinação deve estar a cargo dos Cultores de Mariologia de forma a adaptar, criar, incrementar e ensinar a usar estes contributos à vida espiritual que normalmente são replicados nas Comunidades eclesiais de origem dos peregrinos.

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