Dogmas marianos: os 4 dogmas de Maria e o que cada um ensina

Os dogmas marianos são quatro verdades de fé sobre a Virgem Maria definidas pela Igreja Católica: a maternidade divina (Mãe de Deus, Concílio de Éfeso, 431), a virgindade perpétua (Sínodo de Latrão, 649), a Imaculada Conceição (Pio IX, 1854) e a Assunção ao céu em corpo e alma (Pio XII, 1950). Não existe um quinto dogma mariano.

Os dois primeiros nasceram das grandes controvérsias sobre Cristo nos primeiros séculos. Os dois últimos foram proclamados por definição papal solene. Todos falam de Maria para dizer algo de Jesus: quem Ele é, como veio ao mundo, como redime e qual é o destino que promete aos que creem.

Os 4 dogmas marianos em resumo

DogmaO que afirmaQuando e ondeFesta litúrgica
1. Maternidade divina (Theotokos)Maria é verdadeiramente Mãe de Deus, porque o Filho que ela gerou é a pessoa divina do VerboConcílio de Éfeso, 431Santa Maria, Mãe de Deus (1º de janeiro)
2. Virgindade perpétua (Aeiparthenos)Maria foi virgem antes, durante e depois do parto de JesusSínodo de Latrão, 649, cânone 3 (com o II Concílio de Constantinopla, 553)Sem festa própria. Celebrada em todas as festas marianas
3. Imaculada ConceiçãoMaria foi preservada do pecado original desde o primeiro instante da sua concepção, pelos méritos de CristoPio IX, bula Ineffabilis Deus, 8 de dezembro de 1854Imaculada Conceição (8 de dezembro)
4. AssunçãoTerminada a vida terrena, Maria foi levada em corpo e alma à glória do céuPio XII, constituição Munificentissimus Deus, 1º de novembro de 1950Assunção de Nossa Senhora (15 de agosto)
Os quatro dogmas marianos, por ordem cronológica de definição.

O que é um dogma

Um dogma é uma verdade contida na Revelação divina (Escritura e Tradição) que a Igreja propõe de modo definitivo e obrigatório para a fé de todos os católicos. O Catecismo da Igreja Católica explica:

«O Magistério da Igreja faz pleno uso da autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando propõe, dum modo que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, verdades contidas na Revelação divina […]»

Catecismo da Igreja Católica, n. 88

Uma definição dogmática não cria uma verdade nova. Ela reconhece com autoridade o que já pertence à fé recebida dos Apóstolos. Foi o que aconteceu com Maria: a Igreja rezava a Theotokos antes de Éfeso e celebrava a Conceição e a Dormição de Maria séculos antes de 1854 e 1950. Por isso os dogmas marianos são também um exemplo clássico do desenvolvimento do dogma: a fé não muda, mas o seu entendimento se aprofunda.

1. Maternidade divina: Maria, Mãe de Deus (Éfeso, 431)

É o primeiro e o fundamento de todos os outros. No início do século V, Nestório, patriarca de Constantinopla, recusava a Maria o título de Theotokos (em grego, «a que dá à luz Deus») e preferia Christotokos, Mãe de Cristo. Por trás da questão de palavras estava uma questão sobre Jesus: se Maria não é Mãe de Deus, então quem nasceu dela não seria o próprio Filho de Deus, mas um homem unido a Ele. São Cirilo de Alexandria defendeu a unidade da pessoa de Cristo, e o Concílio de Éfeso, em 431, confirmou que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (DS 251).

A raiz bíblica está na saudação de Isabel: ἡ μήτηρ τοῦ κυρίου μου (hē mētēr tou kyriou mou), «a mãe do meu Senhor» (Lc 1,43), e em São Paulo: ἐξαπέστειλεν ὁ θεὸς τὸν υἱὸν αὐτοῦ, γενόμενον ἐκ γυναικός (exapesteilen ho theos ton huion autou, genomenon ek gynaikos), «enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher» (Gl 4,4). O Catecismo resume a fé da Igreja:

«A Igreja confessa que Maria é, verdadeiramente, Mãe de Deus («Theotokos»)»

Catecismo da Igreja Católica, n. 495

O dogma é cristológico antes de ser mariológico. Maria não é «mãe da divindade», o que seria absurdo, mas mãe da pessoa divina do Verbo, que dela assumiu a natureza humana. Saiba mais em Theotokos: o que significa Mãe de Deus.

2. Virgindade perpétua: Maria, sempre virgem

A Igreja professa que Maria permaneceu virgem antes do parto (concebeu Jesus sem concurso de homem), no parto e depois do parto (não teve outros filhos). Por isso a liturgia a chama Aeiparthenos, «sempre virgem» (Catecismo, n. 499).

Onde a Escritura fala da concepção virginal

Diante do anúncio do anjo, Maria pergunta: Πῶς ἔσται τοῦτο, ἐπεὶ ἄνδρα οὐ γινώσκω; (Pōs estai touto, epei andra ou ginōskō?), «Como será isto, pois não conheço homem?» (Lc 1,34). E o anjo responde: Πνεῦμα ἅγιον ἐπελεύσεται ἐπὶ σέ (Pneuma hagion epeleusetai epi se), «O Espírito Santo virá sobre ti» (Lc 1,35). Mateus o confirma a José: τὸ γὰρ ἐν αὐτῇ γεννηθὲν ἐκ πνεύματός ἐστιν ἁγίου (to gar en autē gennēthen ek pneumatos estin hagiou), «pois o que nela foi gerado é do Espírito Santo» (Mt 1,20), e lê no fato a profecia: Ἰδοὺ ἡ παρθένος ἐν γαστρὶ ἕξει (Idou hē parthenos en gastri hexei), «Eis que a virgem conceberá» (Mt 1,23).

Que concílio definiu a virgindade perpétua

Diferente da Imaculada Conceição e da Assunção, a virgindade perpétua não tem uma única bula de definição. É fé professada desde os primeiros símbolos e afirmada pelo magistério em vários momentos:

  • O II Concílio de Constantinopla (553), ecumênico, chama Maria, nos seus anátemas, santa e gloriosa Mãe de Deus e sempre virgem (DS 422, 427).
  • O Sínodo de Latrão de 649, presidido pelo papa São Martinho I, declara no cânone 3 condenado quem não confessar Maria como santa, sempre virgem e imaculada Mãe de Deus, que concebeu o Verbo «absque semine […] ex Spiritu Sancto» («sem sêmen [de homem], do Espírito Santo»), o deu à luz sem corrupção e conservou a virgindade também depois do parto (DS 503, citado no Catecismo, n. 496).
  • O Catecismo reúne essas fontes (n. 499, que remete a DS 291, 294, 427, 442, 503, 571 e 1880) e conclui que a Igreja confessa «a virgindade real e perpétua de Maria».

Latrão foi um sínodo romano, não um concílio ecumênico, mas foi presidido pelo papa e o seu cânone sobre Maria exprime a fé de toda a Igreja. Por isso é a data que se costuma dar para este dogma. Veja o estudo Aeiparthenos: a virgindade perpétua de Maria como dogma.

E os «irmãos de Jesus»?

Os Evangelhos falam de «irmãos» de Jesus (Mc 6,3, Mt 13,55). A Igreja sempre entendeu que não são outros filhos de Maria: Tiago e José, chamados «irmãos de Jesus», são filhos de outra Maria, a quem Mateus chama «a outra Maria» (Mt 28,1). Trata-se de parentes próximos, segundo um uso comum no Antigo Testamento (Catecismo, n. 500). São Jerônimo defendeu essa leitura contra Helvídio no século IV.

3. Imaculada Conceição: Maria sem pecado original (1854)

No dia 8 de dezembro de 1854, o beato Pio IX definiu pela bula Ineffabilis Deus que Maria foi preservada do pecado original. O texto latino da definição, conferido no Catecismo latino (n. 491), diz:

«beatissimam Virginem Mariam in primo instanti suae conceptionis fuisse singulari omnipotentis Dei gratia et privilegio, intuitu meritorum Christi Iesu Salvatoris humani generis, ab omni originalis culpae labe praeservatam immunem»

Pio IX, Ineffabilis Deus (DS 2803)

Na tradução do Catecismo: «Por uma graça e favor singular de Deus omnipotente e em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do género humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada intacta de toda a mancha do pecado original no primeiro instante da sua conceição» (Catecismo, n. 491).

Atenção: a Imaculada Conceição não é a concepção virginal de Jesus. Refere-se à concepção da própria Maria no seio de sua mãe, Sant’Ana. E não tira Maria da redenção: ela foi redimida de modo mais sublime, preservada em vez de purificada, em vista dos méritos de Cristo. A fórmula do anjo, Χαῖρε, κεχαριτωμένη (Chaire, kecharitōmenē), «Alegra-te, cumulada de graça» (Lc 1,28), é o ponto de partida bíblico dessa reflexão.

O caminho até 1854 foi longo. São Bernardo e São Tomás de Aquino tiveram reservas, porque temiam pôr Maria fora da redenção universal de Cristo. O beato João Duns Escoto mostrou a saída com a ideia de redenção preservativa. Quatro anos depois da definição, em 25 de março de 1858, em Lourdes, a Senhora se apresentou a Santa Bernadette como a Imaculada Conceição. Aprofunde em Imaculada Conceição: o que é e o significado do dogma.

4. Assunção de Maria ao céu (1950)

No dia 1º de novembro de 1950, o venerável Pio XII definiu a Assunção pela constituição apostólica Munificentissimus Deus. É a única definição papal ex cathedra feita depois do Concílio Vaticano I (1870). A fórmula, no n. 44 do documento, diz:

«pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial»

Pio XII, Munificentissimus Deus, n. 44 (texto oficial em português no vatican.va)

Note que a própria definição recolhe os três dogmas anteriores: Mãe de Deus, imaculada, sempre virgem. E note também o que ela não diz: não define se Maria morreu antes de ser elevada ao céu. A tradição oriental fala da Dormição (Koimēsis), e muitos teólogos ensinam que Maria passou pela morte, como o Filho, mas sem a corrupção do sepulcro. A questão permanece aberta. O Catecismo vê na Assunção «uma singular participação na ressurreição do seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos» (n. 966). Leia mais em Assunção de Maria.

Os quatro dogmas nos textos originais

Mãe de Deus: «de Maria e de Deus»

Muito antes de Éfeso, por volta do ano 110, Santo Inácio de Antioquia, a caminho do martírio, escrevia aos cristãos de Éfeso que o mesmo Jesus Cristo vem de Maria e de Deus:

«ἐν σαρκὶ γενόμενος Θεός, ἐν θανάτῳ ζωὴ ἀληθινή, καὶ ἐκ Μαρίας καὶ ἐκ Θεοῦ, πρῶτον παθητὸς καὶ τότε ἀπαθής, Ἰησοῦς Χριστός, ὁ Κύριος ἡμῶν». «Deus feito carne, na morte vida verdadeira, tanto de Maria como de Deus, primeiro passível e depois impassível, Jesus Cristo, nosso Senhor» (Inácio de Antioquia, Ad Ephesios 7,2, PG 5, 652).

É o núcleo da fé que Éfeso confessaria em 431: o Verbo encarnado é um só sujeito, que vem de Deus e vem de Maria. Por isso ela é verdadeiramente Mãe de Deus.

Sempre virgem: o cânone de 649 e os Padres

O Sínodo de Latrão de 649 formulou a virgindade perpétua num só cânone:

«Si quis secundum sanctos Patres non confitetur proprie et secundum veritatem Dei genitricem sanctam semperque virginem et immaculatam Mariam, utpote ipsum Deum Verbum specialiter et veraciter, qui a Deo Patre ante omnia saecula natus est, in ultimis saeculorum absque semine concepisse ex Spiritu Sancto, et incorruptibiliter eam genuisse, indissolubili permanente et post partum eiusdem virginitate, condemnatus sit». «Se alguém, seguindo os santos Padres, não confessa em sentido próprio e verdadeiro que a santa, sempre virgem e imaculada Maria é Mãe de Deus, porque concebeu de modo próprio e verdadeiro, nos últimos tempos, sem sêmen, do Espírito Santo, o próprio Deus Verbo, nascido de Deus Pai antes de todos os séculos, e o deu à luz sem corrupção, permanecendo indissolúvel a sua virgindade também depois do parto, seja condenado» (Sínodo de Latrão, cânone 3, DS 503).

O título grego que o quadro acima traduz por «sempre virgem», ἀειπάρθενος, já era corrente nos Padres do século IV. Santo Epifânio de Salamina, ao responder a quem negava a virgindade de Maria depois do parto, fala de «τῆς ἁγίας Μαρίας τῆς ἀειπαρθένου», «a santa Maria, a sempre virgem» (Epifânio, Panarion 78,5, PG 42, 705), e o II Concílio de Constantinopla, em 553, chama-a «ἁγίας ἐνδόξου θεοτόκου καὶ ἀειπαρθένου Μαρίας», «santa e gloriosa Mãe de Deus e sempre virgem Maria» (DS 422).

São Jerônimo, contra Helvídio, foi ainda mais longe e defendeu também a virgindade de José:

«Tu dicis Mariam virginem non permansisse: ego mihi plus vindico, etiam ipsum Joseph virginem fuisse per Mariam, ut ex virginali conjugio virgo filius nasceretur». «Tu dizes que Maria não permaneceu virgem. Eu reivindico mais: que o próprio José foi virgem por causa de Maria, para que de um matrimônio virginal nascesse um Filho virgem» (Jerônimo, Adversus Helvidium 19, PL 23, 203).

Imaculada Conceição: a castanha de Eadmero

O tratado latino geralmente tido como o primeiro dedicado à defesa da Imaculada Conceição é do monge inglês Eadmero de Cantuária, discípulo de Santo Anselmo, no início do século XII. Para mostrar que Deus podia preservar Maria do pecado, usa a imagem da castanha, que se forma dentro do ouriço sem ser ferida pelos espinhos:

«Si Deus castaneae confert ut inter spinas remota punctione concipiatur, alatur, formetur, non potuit haec dare humano quod ipse sibi parabat templo in quo corporaliter habitaret, […] ut licet inter spinas peccatorum conciperetur, ab ipsis tamen spinarum aculeis omnimode exsors redderetur? Potuit plane, et voluit: si igitur voluit, fecit». «Se Deus concede à castanha que seja concebida, alimentada e formada entre espinhos sem ser picada, não podia dar isto ao templo humano que preparava para si, onde habitaria corporalmente […], de modo que, embora concebido entre os espinhos dos pecados, ficasse inteiramente livre dos seus aguilhões? Pôde, sem dúvida, e quis. Se quis, fez» (Eadmero, Tractatus de conceptione sanctae Mariae, PL 159, 305).

Eis a raiz do adágio que o artigo cita mais abaixo, «potuit, decuit, ergo fecit». Eadmero ainda não traz a fórmula literal: o seu raciocínio é «pôde, quis, logo fez». A tríade com o «decuit» costuma atribuir-se a Duns Escoto, mas, segundo o estudo de Stefano Cecchin sobre a escola franciscana, aparece por volta de 1300 em Guilherme de Ware, mestre franciscano de Oxford, no comentário às Sentenças.

Assunção: a definição de 1950 e São João Damasceno

A definição de Pio XII, no latim oficial:

«pronuntiamus, declaramus et definimus divinitus revelatum dogma esse: Immaculatam Deiparam semper Virginem Mariam, expleto terrestris vitae cursu, fuisse corpore et anima ad caelestem gloriam assumptam». «Pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste» (Pio XII, Munificentissimus Deus, AAS 42 (1950) 770).

Entre os testemunhos da Tradição, a constituição destaca São João Damasceno, do século VIII, e cita o seu argumento de conveniência (AAS 42 (1950) 761). No grego da sua homilia sobre a Dormição:

«Ἔδει τῆς ἐν τῷ τίκτειν φυλαξάσης τὴν παρθενίαν ἀλώβητον, ἀδιάφθορον τηρηθῆναι τὸ σῶμα, καὶ μετὰ θάνατον. Ἔδει τὴν ἐγκόλπιον ὡς βρέφος τὸν Κτίστην βαστάσασαν, τοῖς θείοις ἐνδιατρίβειν σκηνώμασιν». «Convinha que aquela que, ao dar à luz, guardou intacta a virgindade, conservasse incorrupto o corpo também depois da morte. Convinha que aquela que trouxe no seio, como criança, o Criador, habitasse nas moradas divinas» (João Damasceno, Homilia II in Dormitionem 14, PG 96, 741).

O Damasceno pressupõe a morte de Maria («depois da morte»). A definição de 1950, porém, não quis decidir esse ponto e limitou-se a dizer «terminado o curso da vida terrestre», como o artigo explica acima.

Os dogmas na oração da Igreja

A liturgia reza o que a Igreja definiu. Na solenidade de 1º de janeiro, a oração do dia une maternidade e virgindade: «Deus, qui salutis aeternae, beatae Mariae virginitate fecunda, humano generi praemia praestitisti», «Ó Deus, que pela virgindade fecunda da bem-aventurada Maria destes ao gênero humano os bens da salvação eterna» (Missale Romanum 2002, 1º de janeiro). E na Assunção a Igreja repete quase à letra a definição de 1950: «qui immaculatam Virginem Mariam, Filii tui Genetricem, corpore et anima ad caelestem gloriam assumpsisti», «que elevastes à glória do céu, em corpo e alma, a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho» (ibid., 15 de agosto).

Como os quatro dogmas se relacionam

Os quatro formam uma unidade. A maternidade divina é o princípio: porque Maria é Mãe de Deus, convinha que fosse preparada sem pecado (Imaculada Conceição), que pertencesse inteiramente a Deus de corpo e alma (virgindade perpétua) e que participasse primeiro da vitória do Filho sobre a morte (Assunção). A teologia chama isso de argumento de conveniência. A tradição resumiu esse raciocínio no adágio potuit, decuit, ergo fecit (podia, convinha, logo fez), da escola franciscana: costuma atribuir-se a Duns Escoto, mas a sua raiz está em Eadmero de Cantuária e a fórmula completa em Guilherme de Ware (veja acima).

Em cada dogma, o centro é Cristo: Éfeso defende a unidade da sua pessoa, a virgindade mostra que a salvação é iniciativa de Deus, a Imaculada mostra a força antecipada da sua redenção, a Assunção mostra o fim que Ele promete a toda a Igreja.

Existe um quinto dogma mariano?

Não. Os dogmas marianos são quatro. Há décadas alguns movimentos pedem um «quinto dogma» que proclamasse Maria Corredentora, Medianeira de todas as graças e Advogada. A Santa Sé nunca aceitou o pedido, e em 2025 explicou por quê.

O parecer de 1996

Em 21 de fevereiro de 1996, perguntado se era aceitável a petição do movimento Vox Populi Mariae Mediatrici por esse dogma, o então cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, respondeu no seu voto:

«Negativo. O significado preciso dos títulos não é claro e a doutrina neles contida não está madura.»

Citado em Dicastério para a Doutrina da Fé, Mater populi fidelis, n. 19

Em 1996, também a comissão teológica do Congresso Mariológico Internacional de Częstochowa considerou inadequado proceder a essa definição dogmática (citado na mesma nota, nota de rodapé 47).

A nota doutrinal Mater populi fidelis (2025)

No dia 4 de novembro de 2025, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou a nota doutrinal Mater populi fidelis, «sobre alguns títulos marianos referidos à cooperação de Maria na obra da Salvação», assinada pelo cardeal Víctor Manuel Fernández e aprovada pelo papa Leão XIV em 7 de outubro de 2025. Sobre o título de Corredentora, a nota conclui:

«Levando em consideração a necessidade de explicar o papel subordinado de Maria a Cristo na obra da Redenção, é sempre inoportuno o uso do título de Corredentora para definir a cooperação de Maria.»

Mater populi fidelis, n. 22

Sobre Medianeira, a nota lembra a palavra de São Paulo: εἷς καὶ μεσίτης θεοῦ καὶ ἀνθρώπων ἄνθρωπος Χριστὸς Ἰησοῦς (heis kai mesitēs theou kai anthrōpōn anthrōpos Christos Iēsous), «um só também é o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus» (1Tm 2,5). Por isso pede «especial prudência» com o título (n. 24), admite-o num sentido subordinado, como cooperação e intercessão (n. 25), e diz que a expressão Medianeira de todas as graças tem limites, pois Maria, a primeira redimida, «não pode ter sido medianeira da graça que ela mesma recebeu» (n. 67). Prefere o título conciliar de «mãe na ordem da graça» (n. 71).

O que continua sendo doutrina católica

A nota não diminui Maria. A Igreja continua a ensinar que ela cooperou de modo único na obra do Salvador e é nossa Mãe na ordem da graça. O Catecismo, citando o Concílio Vaticano II, diz que «a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro e medianeira» (n. 969) e que essa função «de modo algum ofusca ou diminui a mediação única de Cristo» (n. 970). O que a Igreja recusa é transformar essa cooperação em dogma ou usar títulos que obscureçam que só Cristo é o Redentor. Aprofunde em Maria Corredentora: o debate teológico atual e Maria medianeira de todas as graças.

Os documentos e estudos de cada dogma

Para aprofundar cada definição nas fontes, dos concílios aos textos pontifícios integrais:

1. Mãe de Deus (Theotokos)

2. Virgindade perpétua

3. Imaculada Conceição

4. Assunção

Para uma visão de conjunto, leia a encíclica Redemptoris Mater (São João Paulo II, 1987) e explore Mariologia, Teologia mariana e a Enciclopédia mariana.

Perguntas frequentes sobre os dogmas marianos

Quais são os 4 dogmas marianos?

Os quatro dogmas marianos são: a maternidade divina, Maria Mãe de Deus (Concílio de Éfeso, 431), a virgindade perpétua (Sínodo de Latrão, 649), a Imaculada Conceição (Pio IX, bula Ineffabilis Deus, 1854) e a Assunção de Maria ao céu em corpo e alma (Pio XII, constituição Munificentissimus Deus, 1950).

Qual foi o primeiro dogma mariano?

O primeiro foi a maternidade divina, proclamada no Concílio de Éfeso em 431 contra Nestório. Ele afirma que Maria é Theotokos, «a que dá à luz Deus», porque o Filho que ela gerou é a pessoa divina do Verbo feito homem. É o fundamento de todos os outros dogmas marianos.

Existe um quinto dogma mariano?

Não. Os dogmas marianos são quatro. Movimentos pediram a definição de Maria como Corredentora, Medianeira de todas as graças e Advogada, mas a Santa Sé não aceitou. Em 1996 o cardeal Ratzinger respondeu «Negativo», e em 2025 a nota doutrinal Mater populi fidelis, aprovada por Leão XIV, explicou os limites desses títulos.

Maria Corredentora é dogma?

Não. A nota doutrinal Mater populi fidelis, do Dicastério para a Doutrina da Fé (4 de novembro de 2025), afirma que é sempre inoportuno usar o título de Corredentora para definir a cooperação de Maria, porque pode obscurecer a mediação única de Cristo (n. 22). A Igreja continua a ensinar que Maria cooperou de modo singular na obra da salvação.

Qual a diferença entre Imaculada Conceição e concepção virginal?

A Imaculada Conceição se refere à concepção de Maria no seio de sua mãe, Sant’Ana: ela foi preservada do pecado original desde o primeiro instante, pelos méritos de Cristo. A concepção virginal se refere a Jesus, concebido no seio de Maria pelo Espírito Santo, sem intervenção de homem (Lc 1,34-35).

Maria morreu antes da Assunção?

A definição de 1950 não decide a questão: diz apenas que Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial. A tradição oriental celebra a Dormição de Maria, e muitos teólogos ensinam que ela morreu como o Filho, mas sem a corrupção do sepulcro.

Um católico é obrigado a crer nos dogmas marianos?

Sim. Um dogma é uma verdade revelada que a Igreja propõe de modo a obrigar o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé (Catecismo, n. 88). Os quatro dogmas marianos pertencem à fé católica. Já títulos e devoções que não foram definidos, como Corredentora, não são objeto de fé obrigatória.

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