«Scientia inflat»: a ciência que envaidece, a caridade que edifica e a Mãe de misericórdia

«Remittuntur peccata eius multa»: a Ressurreição de Cristo e o amor que perdoa muito

Scientia inflat, caritas vero aedificat. […] Estote misericordes, sicut et Pater vester misericors est.
1Cor 8,1 e Lc 6,36

A quinta-feira da Semana XXIII do Tempo Comum coloca a caridade acima do conhecimento e depois mostra até onde essa caridade vai. Paulo escreve uma frase que devia estar gravada em todas as faculdades de teologia, «a ciência envaidece, ao passo que a caridade edifica» (v.1), e tira dela uma consequência prática que custa caro. Lucas transmite o coração do sermão da planície, o mandamento de amar os inimigos e a medida transbordante. As duas leituras dizem que a régua do cristão não é o que ele sabe, é o que ele suporta pelo outro.

I. A primeira leitura: 1Cor 8,1b-7.11-13

O problema em Corinto era concreto e quotidiano. A carne vendida no mercado vinha muitas vezes dos sacrifícios dos templos, e alguns fiéis, teologicamente bem formados, comiam-na sem hesitar, porque sabiam que «um ídolo não é nada no mundo» (v.4). Tinham razão. Paulo concede-lhes a razão de forma explícita e depois demole-lhes o argumento.

A demolição é feita em dois tempos. Primeiro o princípio: «se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não sabe como deve saber» (v.2). Há um modo de saber que já é, em si mesmo, um erro, porque separa o conhecimento da relação. Depois a consequência: existem irmãos de consciência frágil, recém-saídos da idolatria, para quem aquele gesto tem outro significado, e «pela tua ciência, perecerá o fraco, esse irmão por quem Cristo morreu» (v.11). O peso da frase está no fim. O irmão frágil não vale pela sua compreensão teológica, vale pelo preço que foi pago por ele. E Paulo conclui com uma renúncia sem limite de tempo: «nunca mais comerei carne, a fim de não ser para ele ocasião de pecado» (v.13). Ele não abdica da verdade que defende. Abdica do direito de a exercer.

II. O evangelho: Lc 6,27-38

O sermão da planície chega aqui ao seu ponto mais alto e mais impraticável. «Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos injuriam» (v.27-28). Quatro verbos que sobem de intensidade e que não descrevem sentimentos, descrevem atos. Ninguém é mandado gostar do inimigo. É mandado fazer-lhe bem, dizer bem dele e rezar por ele.

Segue-se o argumento que fecha todas as saídas. Amar quem nos ama, fazer bem a quem nos faz bem, emprestar a quem nos devolve, tudo isso «também os pecadores» o fazem (v.32-34). A novidade cristã não está em amar, está em amar onde não há retorno previsto. E o fundamento não é a heroicidade humana mas a semelhança com Deus: «sereis filhos do Altíssimo, que é bom até para os ingratos e os maus» (v.35). Daí a frase que Lucas põe onde Mateus põe a perfeição: «sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso» (v.36).

O trecho termina com uma imagem tirada do mercado de cereais. O comprador honesto enchia a medida, calcava, sacudia e voltava a encher até transbordar para o regaço do manto. «A medida que usardes com os outros será usada também convosco» (v.38). Não é ameaça. É a descrição de como funciona um coração que se estreita ou se alarga conforme aquilo que pratica.

III. Saber que não edifica

O encontro das duas leituras é exato. Paulo tem razão contra os fracos de Corinto e renuncia a exercê-la. Jesus manda amar quem nada devolve. Em ambos os casos, o critério deslocou-se do que é devido para o que edifica o outro.

Isto interessa de modo particular a quem estuda. Uma formação teológica sólida é um bem real e a Igreja precisa dela, mas é um bem que traz consigo uma tentação específica, a de transformar a competência em superioridade e a superioridade em impaciência com a fé mais simples dos outros. Paulo não pede que se saiba menos. Pede que o saber seja governado pela caridade, que é a única coisa que constrói. É por isso que ele dedicará, poucos capítulos adiante, o hino inteiro da caridade a dizer que sem ela o conhecimento dos mistérios não é nada (1Cor 13,2).

IV. Maria, Mãe de misericórdia e medida transbordante

O mandamento de Lucas, «sede misericordiosos», tem na tradição da Igreja um rosto concreto, e a oração mais rezada do Ocidente depois do Pai-Nosso chama-lhe pelo nome. A Salve Regina saúda Maria como Mater misericordiae, Mãe de misericórdia, e pede-lhe que volte para nós os seus olhos misericordiosos. O título não é sentimental. Diz que a misericórdia do Pai tomou nela uma forma humana e materna.

Maria foi a primeira a cantar essa misericórdia como lei da história: «a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem» (Lc 1,50). O Magnificat não descreve um sentimento de Deus, descreve o modo como Deus age, derrubando os poderosos e elevando os humildes. Quem canta assim já entendeu o que Lucas pedirá no sermão da planície, porque reconheceu que a medida de Deus é sempre maior do que a que o homem merece.

E há a medida transbordante. Se existe uma criatura de quem se pode dizer que recebeu a medida «calcada, sacudida, a transbordar», é aquela que o anjo saudou como cheia de graça (Lc 1,28). Só que o transbordar não ficou nela. Assim que recebeu, partiu apressadamente para a montanha, para servir Isabel durante três meses (Lc 1,39.56). A medida que recebeu foi a medida que usou. O Concílio ensina que a maternidade de Maria na ordem da graça perdura sem interrupção até à consumação perpétua de todos os eleitos, e por isso a Igreja a invoca sob os títulos de advogada, auxiliadora e mediadora (LG 62).

A quinta-feira da Semana XXIII deixa portanto uma pergunta simples para quem se dedica ao estudo da fé. Aquilo que aprendemos tem edificado alguém, ou apenas nos tem dado razão?

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