O banquete dos povos: Is 25, 6 e a parábola do banquete real em Mt 22

O banquete dos povos: Is 25, 6 e a parábola do banquete real em Mt 22
Multi enim sunt vocati, pauci vero electi.
Mt 22,14

O vigésimo oitavo domingo do Tempo Comum do Ano A articula três textos em torno do banquete de Deus que está preparado mas que nem todos aceitam. Is 25,6-10a profetiza o banquete escatológico para todos os povos, a destruição do véu que cobre as nações e a eliminação definitiva da morte. Fil 4,12-14.19-20 descreve Paulo que aprendeu o segredo de estar bem em toda a circunstância, porque o seu Deus proverá a todas as necessidades. Mt 22,1-14 conta a parábola do banquete do rei que os convidados recusam: o rei manda então convidar todos nas encruzilhadas, mas um sem veste nupcial é lançado fora. Os três textos convergem: o banquete está preparado e é abundante, o convite é universal, mas a recepção exige disponibilidade e a veste adequada.

I. A primeira leitura: Is 25,6-10a

O profeta descreve o banquete final de Deus: «O Senhor dos exércitos preparará para todos os povos, neste monte, um banquete de pratos suculentos, um banquete de vinhos velhos, pratos suculentos cheios de tutano, vinhos velhos bem depurados» (Is 25,6). O banquete não é para um povo: é para todos. E o que se segue ao banquete é ainda maior: «Destruirá neste monte o véu que cobria todos os povos e a mortalha que envolvia todas as nações. Destruirá a morte para sempre. O Senhor enxugará as lágrimas de todos os rostos» (vv.7-8). A morte destruída, as lágrimas enxugadas: é a descrição do Apocalipse (21,4), antecipada por Isaías. E a resposta dos convidados: «Noque díem dixerint: Ecce Deus noster. In eo sperávimus et ipse salvávit nos. Exultémus et gáudiamus quia nos salva» (v.9). O banquete não é um prêmio: é a consumação do amor de Deus que esperou por todos.

II. A segunda leitura: fl 4,12-14.19-20

Paulo partilha o segredo da sua paz: «Aprendi a estar contente em qualquer circunstância em que me encontre. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter em abundância. Em tudo e em todos os estados fui iniciado: ficar saciado e ter fome, ter em abundância e sofrer privação» (Fil 4,11-12). A palavra «iniciado» (memyēmai) é técnica: Paulo usa a linguagem dos mistérios helenistas para descrever uma aprendizagem espiritual profunda. E o princípio que sustenta tudo: «Posso tudo naquele que me dá força» (v.13). Não é auto-suficiência: é dependência radical de Cristo. E a promessa para a comunidade: «O meu Deus proverá a todas as vossas necessidades segundo as suas riquezas em glória em Cristo Jesus» (v.19). O banquete de Is 25 é real: Deus que preparou o banquete também provê o que é necessário para chegar a ele.

III. O evangelho: Mt 22,1-14

Jesus conta a parábola do rei que celebra o casamento do filho. Convida os que tinham sido chamados: eles não fazem caso e afastam-se, uns para o campo, outros para o negócio. E alguns prendem e matam os mensageiros. O rei irado destrói os assassinos e queima a sua cidade. Então manda os servos às encruzilhadas: «Convidai todos os que encontrardes para o banquete» (Mt 22,9). A sala encheu-se de convidados. Mas ao entrar para ver os convidados, o rei nota um sem veste nupcial. «Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial»? O homem fica sem resposta. O rei manda os servos ligá-lo e lançá-lo fora, para as trevas. E a conclusão: «Muitos são os chamados, mas poucos os eleitos» (v.14). A parábola tem dois momentos: a abertura universal do convite (todos nas encruzilhadas) e a exigência da veste nupcial. A chamada é gratuita. A aceitação tem forma. Entrar no banquete não é suficiente: é preciso estar vestido adequadamente, o que significa ter aceite a transformação que o convite implica.

IV. Maria e a veste nupcial

O banquete de Is 25 destrói a mortalha que envolvia todas as nações. A tradição mariológica viu na Assunção de Maria o primeiro cumprimento desta promessa: Maria não foi envolvida pela mortalha da corrupção. A morte não a reteve. Em termos de Is 25, ela foi a primeira a sentar-se ao banquete onde a morte foi destruída e as lágrimas foram enxugadas. Fil 4,13 diz «posso tudo naquele que me dá força»: Maria viveu esta dependência total desde a Anunciação. Tudo o que fez, gestar o Filho, acompanhar a Paixão, perseverar no Cenáculo, foi possível não por força própria mas pelo que Deus lhe deu. A veste nupcial de Mt 22 é a graça que transforma quem aceita o convite. Maria entrou no banquete com a veste que nenhum outro recebeu completa: a graça plena que o anjo reconheceu na saudação («cheia de graça», Lc 1,28). Não por mérito acumulado: pela generosidade do rei que provê tudo o que é necessário para entrar.

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